Vida Fidalga

2002
Sexta-feira é a noite. Corazón Corazón é o lugar! DJ Silvinho anunciava no microfone.
“Por favor, um Red Label” eu me dirijo ao bar ainda vazio, ao rapaz atrás das chopeiras
Tito, do outro lado, diz “Tenho um negócio aqui pra você”.

Ele me leva ao caixa, perto da porta da balada, eu vejo a luz fria de vapor de mercúrio que chega a iluminar a porta, no final de uma rampa, olhando da Fradique Coutinho lá em cima. Tito me dá um cartão.

“Cara, você é o cliente mais assíduo do Corazón. Teve semana que você veio aqui todo dia. falei com a Rê e a Suzana, decidimos te dar esse cartão. Quando você vier, a entrada é 100% consumação”

R$10 de entrada e mais R$10 de consumação, e pouquíssima probabilidade de qualquer coisa se consumar. Um red label custava R$8, e um Black Label, R$12.

“E aquele uísque, Tito?”

“Pô, é claro, meu!”

1995

Insisti com minha família em mudar para o Itaim, alugar a casa de minha prima. Em troca de estar lado certo do Rio Pinheiros, larguei minha primeira república, aquela que me acolheu quando entrei na faculdade.

Em um sexta à noite, vou a pé até a Vila Mariana e volto. Chego na casa e lá estão minha mãe e a prima. Minha mãe está enchendo minha geladeira, o que fazia regularmente quando vinha a São Paulo.

Arrumando a despensa, as duas encontram a primeira garrafa de cachaça que já comprei. Sao 10:30 da noite. Minha mãe quer saber da chachaça, já pela metade, com uma expressão divertida, dirigindo-se a minha mas olhando para a prima.

Na semana anterior, tomei dois copos inteiros de cachaça de uma só vez. O primeiro álcool que consumi em toda a minha vida. Um experimento sobre embriaguez. Acreditava embebedar-se precisava ser bom. Ao ir para a cama naquela noite, vomitei 300g de mousse de chocolate que compulsivamente havia comido com as mãos, em uma espécie larica alcoólica.

“Era a minha parte em uma festa de faculdade. Fizemos umas caipirinhas e eu trouxe o que restou.” Menti.

Uma 51 custava R$1,80. Em seguida, perguntam onde estive. Desta vez, digo a verdade:

“Andei, horas a fio, até o metro Vila Mariana, e só chegando lé entendi que não se tratava da Vila Madalena. Então voltei”

Às portas de 2013.
Lembrando-me da cena acima, peço um Johnnie Waker Red Label, em memória à verdadeira Vila Madalena. O barman, desapontado com minha pouca sofisticação, me serve, monossilábico. Não reconheço o gosto, como esperava. 20 dólares mais gorjeta.

1996
Minha ex-república me aceitou de braços abertos, em sua nova versão, no coracao de Pinheiros. Miguel Lee, futuro presidente de banco, agora sem aparelho, o mesmo workaholic e nerd daquele tipo argumentativo, me recebe com um abraço. Com um tapinha nas costas se oferece para me mostrar o lugar.

“Não, ainda não tenho carro, vocês podem rachar as vagas numa boa.”

“Mas pelo menos você bebe agora, ou não? Vamos subir, tomar umas cervejas pra comemorar!”

A Vila Madalena é o próximo bairro para baixo, depois da praça e do cemitério.

1997
Miguel mudou-se para os Estados Unidos. Fábio, para o interior. Rogério casou. Preenchi o apartamento com amigos da faculdade e de infância. Nunca fui à rua Fidalga. Luís, ex-vizinho, ex-colega de 1a série e eu restamos para o fim-de-semana.

“Vira a direita aqui. Não, não era pra ter essa pizzaria aqui”

“Meu, eu paro o carro, e a gente acha a pé.”

Também não sabia onde ficava a R. Fidalga. Perambulando pelas ladeiras, encontramos o pé da rua. De suéter de lã, passo por um túnel, um jardim, uma escada para uma pista de dança no fundo da casa noturna, que me lembrava um poço, por causa das paredes de pedra. Perdi-me do Luís. Pedi umas bebidas. Luís me acha no topo de uma escada, uma subida mais longa que a duração da música “A Nova Loira do Tchã”

“Cara, vamo embora! Eu briguei com um pessoal aí, acho que eu mexi com a mina do cara sem querer.” Dirijo-me ao bar. Um outro homem de suéter de lã. O dele, preto (o meu era azul). Ainda com os olhos fixados em nós, ele começa a falar com o homem ao lado. Eles parecem mais velhos.

1998 – 1

Digito empiricamente “obaoba” no Netscape. Um site de casas noturnas aparece. Outra na Rua Fidalga. Hoje, não. Ainda não tenho carro.

1998 – 2

Luís, Reinaldo eu em outra sexta-feira. O rapaz do estacionamento nos dá a direção até a R. Fidalga. No térreo de um sobrado, portas de correr, e janelas de vidro fechado no alto, luz negra. Uma fila pequena, mas interessante. Insisto com todos a entrarmos no Corazón Corazón. O do site. A música diz “no no no no no”.

Deixei o suéter de lã, talvez só pelo clima, ainda me acho a pessoa mais careta em qualquer pista de dança. Surpreendo-me que desta vez não sendo além disso também uma das pessoas mais negras. A camisa social com a estampa em pequenos detalhes em mim pareceria um colchão, no rapaz com duas meninas ao redor, não. Eu ouvia pela primeira vez na vida o rap “que tempo bom , que nao volta nunca mais.” Uma das moças, vestido preto, as costas nuas, quase todas, o cabelo que mal cobria a nuca, não parecia ruivo natural e os labios pintados de rosa. Quatro anos anos depois, eu a vi em um evento, ela logo me disse que era casada. A outra, rosto sem maquiagem, cabelos pretos compridos, a minha tez, e uma cicatriz em um dos seus enormes seios.

Luís conversava com a terceira menina. O grupo o observava. Luís caminha até mim

“O nome dela é Kiki, e ela é organizadora de pomodoterceiria.” Nunca esqueci essa palavra.

O grupo resolve deixar o Corazón Corazón, cedo, na direção de um outro bar, naquela espécie de altiplano da R. Fidalga.

“Nunca vi tanto preto junto” termina de dizer Luís

2000

Sair à noite foi o que mais senti falta me São Paulo.
Descubro que o Corazón Corazón mudou da R. Fidalga para a Fradique Coutinho.
Conheço uma moça que já vi no endereço anterior. Tomamos chopes.
“Você é bonzinho” ela me diz.
“Você veio sozinha? Não estou de carro, mas…”
“Não, não, vim com o meu tio. Ele vai vai ficar aqui até fechar.”
“Eu também, então.”

Ajudei a apagar a luz do lugar. Conheci os funcionários: Tito, sua namorada, Rê, e a irmã, Suzana, filhas do dono
Em uma Fiat Elba, todos pegamos a mesma carona com a moça e seu tio, DJ Hum.

2000 – “The miseducation of Lauryn Hill”

Pouco a pouco fico mais sozinho na mesma república, e, nas noites de sexta-feira, saio sozinho. Me encosto no bar, peço um Johnnie Walker Red Label e converso com meus novos amigos. Conheci os pais de Suzana e Rê.

2002

Rê e Tito brigaram. Peço outro uísque. O preço aumentou.

“É o dólar!” diz Rê, gargalhando.

Data indeterminada dos anos 90

Chegam os carregamentos de bebidas. Tito aparece com um engradado de Johnnie Walker Red label vazio.

“Vamos fazer isso aí render!” Tito traz também um galão de álcool industrial.

“Ai, Tito, pra que isso?” diz Suzana

“Ah, vai Suzana, a gente tem um cliente muito fiel!”

2025

Abro meu grupo da escola no Whatsapp. Criminosos adulteram destilados em São Paulo com metanol, causando morte e doenças exploradas nas notícias e redes sociais.

“Olha, esse metanol não me pega, que sou bebedor de vinho, de vez em quando, uma cervejinha.” Minto.

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