Brincadeira de mão – Yan

Jogo da vida
A tia Maria de Fátima, que é minha professora de ensino religioso, mostrou pra gente uma pintura que chama A Origem do Mundo. É de um velho barbudo e vestido, que é Deus, estendendo o dedo dele para encostar no dedo de um homem pelado, sem barba e de pinto de fora, que é Adão, enquanto sopra um vento forte que agita o cabelo dos dois. A tia Maria de Fátima contou que foi assim que a vida começou.
A mãe Sônia, que é minha mãe de santo, contou que Nanã deu um pouco do barro do seu pântano pra Oxalá. Ele usou os dedos pra modelar dois bonecos, fez o primeiro pinto e a primeira perereca e fez o primeiro homem e a primeira mulher. A mãe Sônia disse que Oxalá soprou forte em cima dos bonecos de barro e foi assim que a vida começou.
A minha mãe, que é só minha mãe mesmo, contou que quando eu nasci eu não chorei. Mas apertei com força o dedo dela e puxei pra mim. Foi assim que ela ficou sabendo que a minha vida tinha começado.
Perguntei pro meu tio Tuninho, que é marido da minha tia Cristina e taxista, como ele acha que a vida começou. Ele respondeu que a religião dele é o Vasco, me estendeu o dedo e me mandou puxar. Puxei com força e ele peidou. Depois que eu parei de rir o tio Tuninho disse que não sabe como a vida começou, mas que ela acaba assim, como um sopro.
Será que o final da vida também é fedido?

Jogo do caxangá
“Tira a mão da boca.”
“Bota a mão na boca pra bocejar.”
“Tira a mão do nariz.”
“Bota a mão no nariz pra espirrar.”
“Bota a mão debaixo da torneira.”
“Tira a mão de dentro d’água pra não ficar igual uva passa.”
“Solta a mão da vovó pra não parecer um crianção que não consegue andar sozinho.”
“Pega na mão dá vovó e dá um beijo pra pedir a bênção.”
“Junta as mãos pra rezar.”
“Separa as mãos pra falar com o preto velho.”
“Bota a mão na barriga da mamãe pra sentir o irmãozinho.”
“Tira a mão do pescoço do irmãozinho!”
Minha mãe bota a mão na cabeça.

Jogo de menino
Eu tava jogando adoleta com a minha irmã. Eu não gosto de jogar adoleta, na verdade eu odeio. Só joguei porque depois ela prometeu que jogava bola comigo, juro. Mas depois que a adoleta acabou ela me obrigou a jogar babalu. Eu aceitei porque ela prometeu que quando a gente jogasse bola eu ia ser o Brasil e ela ia ser a Alemanha e eu ia ganhar a copa de novo.
Babalu é aquele jogo que você vira sua mão, gruda ela virada na mão da pessoa da frente, bate, depois vira a mão de novo e bate de novo. E canta rimadinho com a batida e a virada da mão:

Ba-ba-lu
Babalu é Califórnia
Califórnia é Babalu

Até aí foi tudo bem, porque esse jogo é tão idiota que eu sou muito bom nele. Bati, virei a mão e bati de novo e virei de novo bem rápido, mais rápido que a minha irmã. Mas nessa hora a música foi pra essa parte:

Estados Unidos,
Balança o seu vestido
Pra frente, pra trás
Assim é que se faz

Nessa hora você para de virar a mão e sacode o corpo como se tivesse de vestido e tivesse sacudindo o vestido. Nessa hora eu sacudi como se tivesse de vestido, mas eu tava de short e não tenho culpa se esse jogo idiota fala pra sacudir um vestido idiota. Eu odeio adoleta e babalu. Eu só gosto de jogar bola, eu juro.
Mas nem deu tempo de jurar nada. Nessa hora meu pai chegou, viu o vestido de mentirinha e disse:
“Se eu te pegar com brincadeira de menina de novo, vou virar a mão na tua cara”.

Jogo da desfeita
A Gabriela é a menina mais bonita da minha sala. Ela é tão bonita que eu gastei a moeda que minha vó me deu pra comprar um ping pong, mesmo sem poder comer chiclete, porque minha mãe diz que deixa o dente feio. Tive que jogar o ping pong fora e minha mãe disse que eu fiz desfeita pra minha vó. Desfeita é quando você ganha presente e não agradece ou não usa ou os dois. Só que eu não fiz desfeita, porque joguei o ping pong fora mas peguei o anelzinho que vem junto e dei pra Gabriela.
Acho que ela gostou, porque usou desde o começo da aula. Acho que ela gostou muito, porque usou ele quando a gente foi brincar de passa anel. Todo mundo sentou em rodinha com a mão fechada em conchinha. Ela foi passando por cada um, abrindo a mão só um pouquinho e fazendo que tinha soltado o anelzinho lá, sem ninguém saber pra quem ela passou mesmo.
Tinha muita gente na roda e todo mundo que tentou adivinhar, errou. Aí a Marina pediu uma dica e a Gabriela disse que tava com o menino mais bonito da sala. Mas a minha mão tava vazia. O anelzinho ficou com o Pedro, que tem os dentes todos estragados e que come chiclete o tempo todo e que podia dar um monte de aneizinhos pra Gabriela mas nunca deu nenhum.
Na minha vez de passar o anel, soltei uma meleca dentro da mão da Gabriela.

Jogo da mentira
Quando eu era bem pequeno, meu avô me perdeu no mercado e eu chorei muito. Depois ele me achou e jurou de mindinho que nunca ia me abandonar.
Agora eu sou grande, mas pra algumas coisas ainda preciso ficar na pontinha do pé.
Fiquei na pontinha do pé pra alcançar a borda do caixão. Grudei meu mindinho no mindinho do meu avô até a minha vó me arrancar dali.

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