Fotos inventadas

Em O Uso da Foto (trad. Mariana Delfini, Fósforo), Annie Ernaux desdobra seu projeto de autoficção em mais uma direção surpreendente. Sempre partindo de si em direção ao Outro, aqui ela escreve em parceria com o fotógrafo Marc Marie. O projeto tem uma curiosa relação com a morte. À época em que se conheceram, 2003, Marie havia acabado de se separar e Ernaux tinha acabado de descobrir que estava com câncer na mama. Portanto a compleição física da escritora havia sido transformada de modo radical – além da perda de peso e da marca do cateter, por conta da quimio, havia perdido todos os pêlos do corpo.

A fotografia, enquanto registro documental, também não deixar de dialogar indiretamente com a morte, uma vez que aquela “aura” da autenticidade da imagem testemunhal tem o condão de avançar no tempo. Vinte anos depois, o livro registra este encontro e também é uma espécie de legado de Marie, morto em 2022. A ideia do casal foi registrar a bagunça formada por suas roupas jogadas pelo chão pouco antes de irem transar. São portanto vestígios de um amor que estava sendo feito – imagens cheias de expectativa, mas também cheias de informação e mistério, posto que não há corpos: só as marcas de suas passagens. “O erotismo é aprovação da vida até na morte”, diz, na epígrafe do livro, Georges Bataille.

Os textos são escritos primeiro por Annie e depois por Marc.

PROPOSTA

Não, você não precisa ficar pelado, transar ou fotografar suas próprias roupas pra escrever a próxima proposta (mas, se quiser, pode).

A ideia é escrever a partir dos vestígios de uma presença, depois de fotografados.

Note que as imagens de Annie&Marc têm um auto componente ficcional.

Não sabemos até que ponto as roupas espalhadas pelos mais diversos ambientes foram cuidadosamente desarrumadas para darem origem às fotografias, por exemplo. Também não podemos ter certeza se de fato o caso fez sexo depois de jogar as roupas no chão. Essas infos são extra-fotográficas.

Do mesmo modo, não saberemos o quanto você vai inventar ao descrever as suas imagens.

A brincadeira é separar entre 3 a 5 imagens que contenham vestígios da passagem humana.

Claro, você vai escolher imagens sem pessoas.

Podem ser fotos de uma festa, de um almoço, de uma sala de aula, de um escritório, de uma calçada, de uma academia de ginástica, de um aeroporto – enfim, de qualquer ambiente por onde tenham passado seres humanos.

Claro, busque imagens que contenham objetos significativos.

E sim, você é quem vai produzir essas imagens.

Ou então, é você quem vai encontrar essas imagens, em um arquivo, em um álbum de família, em um registro de uma viagem, por exemplo.

Para cada imagem, escreva um texto de uns 3 mil caracteres, na primeira pessoa, descrevendo a foto, seus componentes, suas memórias, suas reflexões a partir daquela composição.

Tudo isso relacionado, de modo criativo e aleatório, à sua carta da sorte.

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