Meu nome num copinho
14/10/25
Da janela, acabei de ver um homem chutar um carro que não respeitou a faixa de pedestres. Ergueu a perna na altura do para-choque traseiro do Fiatizinho e meteu a sola do tênis na divisa entre a borracha protetora e a pintura branca. Cheguei a ouvir o barulho e acompanhei o resto da cena que a moldura da vidraça permitia. O homem continuou seu caminho, olhando para trás como se esperasse o retorno do motorista. O carro não voltou e ele saiu do meu ângulo de visão. Violência e agilidade me despertaram. Até então, olhava para fora sem saber por onde recuperar o atraso do que deixei de anotar nos últimos vinte dias. Invejei a habilidade do homem e me perguntei se faria o mesmo. Não a reação, mas a subida de perna e a força do chute. Pensei que o leg press deve ajudar, mas não tenho idade para arriscar um movimento desses. Sei que se fosse capaz, não ia fazer o mesmo. Uma palavrão, quem sabe um só, já ia ajudar.
Despertada da lentidão em recuperar os acontecimentos, cutuquei a memória e me lembrei dos celulares. São permitidos, mas a TV de programação interna, vez ou outra, alerta que atrapalham. O meu fica guardado na mochila que empurro para dentro de qualquer escaninho. O do Homem de Máscara Cirúrgica está sempre com ele, toca em todas as aulas, ele atende e retira a máscara para enviar mensagens de áudio, que tento, mas não consigo ouvir. Melhor assim. Mudei as lembranças para as minhas roupas de academia.
Poderia ter sido a visão dos meus tênis cada vez que descia o tronco na remada inclinada, mas foi em casa, olhando os chinelos com meia, que tive vontade de me desfazer da calça preta já sem cordão de ajuste e da legging cinza, tão cinza quanto meu gosto pelas roupas fitness. Para velhinhos qualquer roupa confortável serve. Vou providenciar outra calça larga e nenhuma papete como a do Homem Com os Óculos de Armação de Madeira. Me lembrei dele e agora entendo por que os chinelos com meia acordaram a ideia de renovar as roupas.
No treino de hoje, o preto dominava. Só a regata do Homem Grandão e a camiseta de barras deformadas do Falso Francês eram brancas. Um dia noir et blanc. Mais noir que blanc , longe, bem longe, de um filme policial de trama complexa, luzes e sombras. Tudo era solar, claro e ventilado. Tudo por lá é sempre solar, claro e iluminado. Hoje uma brisa mais forte venceu o imã que prendia minha ficha ao ferro do Peitoral e a fez voar para baixo da cadeira adutora, palavra, que por um bê e uns arranjos diferentes de pesos, se torna abdutora. A cadeira tem duas funções e demorei para aprender os nomes sem confundir e perceber que ela trava quando não se posiciona do jeito certo os rolinhos almofadados que você comprime ou expande com as pernas. Levei menos tempo para aprender a pronunciar, sem tropeços, a palavra eritropoetina, que dá nome ao hormônio indutor da produção de hemácias. A gata de minha filha, sob os meus cuidados, tem recebido uma injeção dele todos os dias. Virou um exercício diário de compreensão e espera, que quase me afastou da rotina dos exercícios físicos.
Da cadeira de nome duplo, depois de recolher minha ficha do chão, enxergo a Francesa Legítima, companheira do Falso Francês, deixar um estojo de óculos sobre o tríceps lateral e se dirigir ao banheiro. Uns segundos depois, a Moça do Coração Tatuado na Panturrilha, retira o estojo e ocupa o aparelho. A Francesa Legítima volta do banheiro, fica contrariada, mas pega a capinha dos óculos e vai exercitar a raiva trabalhando os ombros no Desenvolvimento. O aparelho proporciona uns movimentos de tanto faz ou pra mim não importa. Acho mesmo que não importou. De longe, na minha vez no Tríceps, as duas conversavam enquanto bebiam água nas suas garrafas coloridas de alumínio. Senti culpa por ter esquecido a minha. Olhei meio de lado e meu nome piscava feito um luminoso de neon no copinho verde descartável.
