Edmon,
Precisamos conversar. O dia inteiro, procurei por você. Por favor, pare e pense um pouco no que vai fazer. Estou com muito medo.
Quando tudo aquilo passou na tevê, corri para o seu apartamento. A Denise me deixou entrar. Ela me disse que, sob suas instruções, você não estava para ninguém, e que desejava ficar sozinho.
Edmon, temo o que pode acontecer se você ficar sozinho. Eu já estava apavorada ali, na frente da Denise, então eu falei. Falei o que eu sei, o que descobri, juntando os pontos, depois de eu e todo o mundo ver você na tevê. Enquanto muitos riam, eu estremeci. Entendi quem você de fato é, o que desejava dizer a mim e ao mundo.
Olhei então para a Denise, engoli seco, e finalmente saiu:
“O Edmon está com medo, está isolado, sentindo-se exposto. E eu o compreendo, porque sei que ele é na realidade um dinossauro. Eu acredito que posso ajudá-lo nessa hora difícil.”
Denise olhou para mim com aqueles olhos verdes esbugalhados dela e riu, mas riu tanto, primeiro uma risada nervosa, como uns soluços, e depois uma gargalhada sem fim. Cheguei a duvidar de minha própria convicção. Denise levantou-se do sofá e se apoiou no bar para terminar de rir. Enquanto ela enxugava as lágrimas, aquela magreza embaixo dessas camisetas de surfista que ela usa, concluí que Denise não era também um dinossauro. Você não estava em casa, e Denise viu o que vi na tevê, e está em choque, pensei. Decidi deixá-la em paz para cuidar de seu próprio estado de nervos, sozinha naquela cobertura enorme, e procurar você.
A primeira coisa em que pensei assim que deixei sua casa foram nossas longas caminhadas pelo bairro, e as histórias de dinossauros que você me contava.
Suas histórias ressurgiam como pensamentos intrusivos, apareciam, desapareciam e se conectavam à próxima história, enquanto eu andava sem direção pela Lapa. Da sua casa, desci a Clélia a pé, me perdi, e fui parar enfim no bar da Vila Ipojuca. Não é mais um bar, virou boutique. Lembrei-me das suas cadeiras e das mesas, grandes, reforçadas. “Para me conhecer, precisa conhecer o meu bar,” como você o chamava. As árvores tropicais, a orquídea no tronco, sua fascinação por orquídeas, eram vocês todos dinossauros?
Vi a moça dentro da boutique. Ela me olhou com a cara de que poderia me vender uma calça de tergal. Então lembrei-me da janela da passadeira, ali do lado.
Eu não conseguia conceber que você fosse um dinossauro de verdade. Você sabe que eu cresci assistindo aos seus filmes de dinossauro e, namorando o grande Edmon Jurion, eu era outra fã de sua voz de barítono, dos gestos largos, e do olhar profundo sério, por vezes melancólico ou assustador, e de seu estilo dândi de ternos de três peças, estrelando ou apresentando histórias de dinossauro. Você, divertido, respondia a minha curiosidade sobre seu trabalho, achava eu, com uma grande brincadeira, coisa de artista.
“Os filmes são fáceis de fazer porque é tudo verdade. Um número sem fim de dinossauros trabalha nesses filmes. Inclusive eu.”
Encarei seus olhos grandes e redondos, o sorriso cheio de dentes, aberto e irônico ao mesmo tempo… senti pela primeira vez seu desejo por mim.
“‘Irritator perseverantissimus’, esse é o meu nome científico!”
Me remoí de ter feito pouco daquelas conversas, e você me contando seus maiores segredos. Mas você, Edmon, só o nome, o grande Edmon Jurion era a origem de elaboradas e ricas fantasias no cinema para gerações. Era como se o nosso romance fosse ornado com mais uma dessas fantasias.
Aproximei-me da janela da passadeira, no térreo do predinho de esquina. Avistei a mulher que sempre nos cumprimentava, Griselda. Me disse você que a passadeira era só a pontinha da Griselda, que tinha uns 18 metros de comprimento, mais a cauda, enrolada na garagem permanentemente selada.
Griselda me avistou, seguiu os meus últimos passos até a janela com os olhos e com todo o corpo. Ela parecia antever minha preocupação e reagir com uma boa dose de má-vontade.
“Edmon sumiu!” Quase gritei. “Você viu a tevê recentemente?”
Griselda largou o ferro de passar, puxou um telefone do bolso do avental branco, que fitava com um olhar penetrante.
“Edmon Jurion é careca!” dizia o website Fofocando. “Vídeo exclusivo do momento em que a peruca de Edmon escorre da sua cabeça redonda, e pelada”. “Além de completamente calvo, Jurion sofre de eczema extremo, afirma especialista”.
Griselda gargalhou, como Denise. “Careca!”
Não havia reparado, mas Griselda usava óculos gatinho de armação preta, que ela tirou para enxugar as lágrimas.
“Griselda, alguém do seu tamanho…” Escapou-me. “… o Edmon sumiu. Ele me contou do que ele guarda Lapa de Baixo. Você não tem medo?”
“Querida, eu sou filha de Oxalá! Eu vim pra esse mundo faz muito tempo! Antes do Edmon! Nasci na barra da saia do Boitatá. Não é uma” … ela faz aspas no ar com os braços curtos “‘extinção’ que vai me por medo, eu sou é pela renovação mesmo!”
Extinção. Edmon havia me dito, e achei que ele apenas me adiantasse a trama do filme “A Prece e a Caça,” em que os dinossauros não eram destruídos por um meteorito. “Onde já se viu uma pedrinha menor que uma montanha fazer um estrago desse.”
“O segredo de tudo é o vulcanismo” você dizia. “Por isso mesmo, guardo uma rolha aqui na Lapa de Baixo para evitar, ou causar até, a próxima extinção.”
Você ri batendo na ‘perna’ igualzinho a Griselda. Igualzinho a Denise, pensei eu.
Ainda sem óculos, Griselda virou-se para mim
“Mas então você também sabe quem mora com ele, ou essa parte é mais fácil de ignorar?”
Põe essa mãozona na cabeça, Edmon (acho que você consegue, certo?)
Você criou uma coisa importante para a humanidade, para a história do pensamento. Vai deixar o fogo destruir seu legado? Quase todos os filmes hoje são de dinossauro. Passei no shopping, na frente do cinema (você não acredita, mas eu queria fazer a minha última refeição da vida no Giraffas). Só um filme não era sobre dinossauros. Até anotei, no que pode ser um de meus últimos testemunhos:
“A Casa dos Segredos”
“O Brasil É Tudo”
“Eterna Magia”
“O Limite”
“Brasil Emergência”
“Show da Xuxa”
“Casos de Polícia”
“Mundo Disney”
“A Prece e a Caça”
Só um não é de dinossauro!!
Voltei à sua casa. Subindo uma ladeira, lembrei-me quando, avistando Av. Heitor Penteado, e os espigões da Av. Paulista, você me disse que há um dinossauro gigantesco dentro de quase todo arranha-céu. Eu só disse “Atá!”
“Seres humanos curtem essa história desde as pirâmides, ou a Torre de Babel, mas, em São Paulo, se o prédio tem três fossos de elevador, com certeza vive um dinossauro enorme lá”
Seu prédio tem três fossos de elevador. Denise deixou-me entrar novamente, já dizendo que você não estava.
“Não quero falar com o Edmon. Vim falar com a sua mãe.”
Os olhos de Denise ficaram ainda mais esbugalhados, mas ela, desde que me conheço por gente e assisto ao Video Show, a filha adulta do viúvo Jurion, deu de ombros como uma adolescente, puxou-me pelo braço e abriu o elevador de serviço.
Um vento quente anunciou a chegada da mãe pelo fosso vazio, e o nariz, parte do olho, dentes redondos de herbívoro (“Nós somos ‘argentinossaurus terrificus'” anunciou Denise) mal se entrevêem pela porta, um pedaço de uma cabeça enorme que falava e ventava em mim.
“Você não vai achar o Edmon! Sua extinção está próxima! Ele está muito chateado com a humanidade, e eu o apoio! Além do mais…” Uma voz grave que ecoava pelo fosso continuava a falar, mas eu deixei de escutar.
“Você está chateada que nós tivemos um relacionamento? Eu não sabia que você existia!”
“Você? AHAHAHA!” A voz tornou-se ainda mais grave. “Ele só queria te comer, e nem isso conseguiu!”
“Aí você se engana! A gente teve…”
“AH!” a voz fez o prédio termer “Comer, querida, comer! Você foi a única que ele decidiu não comer no final! Agradeça a um surto de humanismo do Edmon pela sua vida, e também pelo fim abreviado da humanidade, porque afinal tenho certeza que por sua causa…”
Eu novamente deixei de escutar a mãe de Denise. Descobri como ajudá-lo. Fui embora sem me despedir.
Depois de ir ao shopping comer, botei uma roupa bonita, e estou esperando você em casa. Se você prometer não abrir a rolha da Lapa de Baixo, pode vir aqui terminar o serviço. Faço isso pela humanidade, e por você.
