Vicky Cristina Beagá

Hugo César

Vi a bateria do meu celular morrer e ainda faltavam vinte e seis minutos de bobeira. Há dois anos eu sublocava aquele consultório, com uma divisória marrom de péssimo gosto separando a sala de espera do local de atendimento. O eucatex safado mal mal abafava o som, sendo preciso deixar o rádio ligado naquele volume que não atrapalha a rotina do consultório, mas o suficiente para criar um ruído suplementar aos dramas desenrolados pelos pacientes do outro lado.

Perdi alguns segundos olhando a árvore preta e branca do quadro de frente pro sofá. Não era um preto e branco normal, com gradações de cinza. As folhas eram brancas. Algo parecia errado na imagem e eu nunca havia prestado atenção. A foto tinha se soltado do fundo do quadro e a árvore estava de viés. Alguém ia precisar levar o quadro na molduraria, mas tenho certeza que nenhum dos sublocatários, eu inclusive, estaria disposto a gastar com isso agora. O melhor era deixar daquele jeito mesmo, formando um enigma para os pacientes sem celular.

Olhei para o relógio, nem cinco minutos haviam se passado, ainda faltava pelo menos vinte para a porta se abrir e o paciente do meu colega sair cabisbaixo, de óculos escuro, ignorando o breu dessa salinha, me ignorando sentado ali em estado de espera ouvindo Kenny G. 

Já estava entediado e resolvi folhear as revistas Bravo e Alfa, tão velhas quanto o modelo do meu celular. Era possível ver os restos de pele se acumulando entre as páginas e já estava na hora de assumirmos que ninguém as abria. Elas estavam prontas para o lixo.

Resolvi abrir uma delas aleatoriamente, mas não tanto, pois havia uma folha A4 dobrada ao meio marcando a página da resenha do novo filme do Woody Allen sobre um trisal em Barcelona. O crítico destacava a atuação da Penelope, a beleza de Scarlett, e a vontade de ser o Javier, mas o que me chamou mesmo a atenção foi o papel A4 branco, preenchido em parte por uma tinta vermelha:

“Se foi sorte, se foi Deus ou Acaso, não sei, mas te encontrar aqui tem sido um prazer e tanto. Leu o último livro que te emprestei? Eu quero ver você me encontrar no último parágrafo. Com carinho, N.”.

N… Nayana, Nádia, Núria? Eu a imaginei ali, sentada, com as pernas cruzadas, a revista apoiada no joelho. Óculos de tartaruga, uma franja penteada de lado, cobrindo metade da testa (a franja cobre uma mancha avermelhada do vinho do Porto). O cabelo levemente ondulado, cortado à altura dos ombros, um clássico dos consultórios psicanalíticos. Ela está um pouco afoita, pois tem medo de ser interrompida.

Em seguida, o que parecia uma resposta, vinha escrito em cursiva azul:

“Querida N., ainda não cheguei lá, estou na parte da morte do cachorro, mas diante desse comentário, tenho vontade de pular logo para o último parágrafo, espiar, fingindo que não te vi, e voltar para o suspiro do cão. Ou devo viver a expectativa? Vai no show do Criolo no sábado? Se quiser descobrir quem sou, como sou, estarei de vermelho (combinando com a sua caneta), com dois amigos, no meio da multidão, do lado direito do palco. Você me vê lá? Um beijo, R.”

R. de Ricardo, Ronaldo, Rui? Barba rala, magrelo, um pouco distraído, com tendência a ansiedade e o cabelo bagunçado… assim, ia construindo o estereótipo a partir da média dos meus pacientes, quase todos alunos de psicologia.

A porta da divisória se abriu e fechou, uma mulher de olhos esquivos deu três passos rápidos e funguentos para fugir da sala de espera. Guardei a folha A4 na minha pasta (maldisse não ter trazido um livro pra guardar dentro e não amassar), devolvi a revista pro lugar, dei duas batidas na porta e fiquei aguardando. Meu colega abriu a porta, me pediu pra esperar enquanto ele fazia anotações sobre a sessão no caderno. Observei a letra dele, era levemente inclinada para a direita e não tinha nada a ver com as dobradas na minha pasta.

Passei o resto do dia ouvindo ”Quando deixei de reconhecer esse mala com quem me casei?” (Alice, 42 anos, finge que não sabe o momento, mas já me contou diversas vezes. Fisicamente parecida com a Claudia Ohana em Vamp), ou “minha mãe é um bárbaro, eu não entendo seu blábláblá” (Jorge, 22 anos, aluno de psicologia, quer ser interessante pra me agradar, mas não consegue se aprofundar em nada) e também “vou sair, sim, senão eu mato alguém” (Omar, 31 anos, ainda não sei se fala do emprego ou do armário), e até “não sei me expressar direito, não sou tão inteligente, mas achei o filme um tédio, e ele não parava de falar enquanto a gente assistia, me explicando tudo, antecipando a cena, criando suspense, ele não queria ver o filme preferido comigo, ele queria uma platéia pra ouvir ele falar” (Olivia, 45 anos, recém divorciada, coquete, está tentando flertar como se fazia no início do século), ia ouvindo tudo isso e pensando no diálogo manuscrito. Ao final do dia, um tanto curioso, resolvi colocar o A4 de volta na revista e esperar até a próxima semana. Será que eu também deveria ir no show do Criolo no parque municipal?

Não fui, por motivos diversos, mas o principal é por estar de ressaca. Na sexta teve uma festinha na república da Sara, e finalmente consegui dormir com a Paula. Infelizmente ela estava com uma herpes – tenho motivos para acreditar que ela ficará comigo para o resto da vida. Às seis horas ela acordou, pois tinha uma aula da pós, mas disse que eu poderia ficar dormindo, provavelmente a Sara só iria acordar bem tarde… ou, eu a acompanhava até a padaria no quarteirão seguinte e podíamos dividir a mesa, um misto quente e um café com leite, quem sabe.

O problema é que depois dos trinta, ou a gente bebe muito ou a gente não dorme, pois a soma dos dois, beber muito e não dormir é desastrosa. Passei a manhã de sábado dormitando na rede, meio enjoado, meio sonâmbulo, meio pensando: por que não comentei com nenhum colega sobre o troca troca que acontecia debaixo do nosso nariz? 

No domingo de manhã, resolvi dar um choque de realidade no corpo, passei um café e fui bebendo até o consultório, procurando novidades. Se Rui avisou que estaria no show no sábado de noite, Nádia teria que ler e responder antes. Eu quase tremia quando abri a revista, mas não havia nenhuma linha nova no diálogo. 

Uma ideia zumbiu: se Núria fosse uma paciente minha, eu teria atrapalhado o jogo ao surrupiar a folha, mesmo por algumas horas. Não, não era possível, nenhuma delas nunca comentou nada, nunca mencionou isso, será que uma paciente viveria essa curiosa relação e não contaria para o analista? Nem uma dica, nada? Eu deveria mandar um email para o grupo de sublocatários informando, no entanto eu não queria mais um voyeur nessa relação.

Passei o resto do dia esperando em vão por uma mensagem de Paula. Recebi, porém de Sara, fazendo gracejos por eu ter dormido com a amiga dela, achei que ia te encontrar ontem, deu perdido, foi? Nem respondi, estava mais preocupado se Noemi esbarrou com Rodrigo no show.

E pra não continuar ansioso, pois precisava ser capaz de concentrar em outras coisas, escrever a dissertação, por exemplo, resolvi voltar na segunda de noite ao consultório. O porteiro me cumprimentou, Uai, agora vem todo dia? Sorri uma resposta parecida com Eles estão te pagando bem pra fazer hora extra?

Não importa, a resposta que eu queria mesmo eu li tão logo abri a revista: 

“R., sua ingrata, como faz isso comigo?”

[Então, Ronaldo é uma mulher… tolinho, como não pensou nisso? Rosana? Rita? Renata?]

Agora vou ficar imaginando que estive o tempo todo ao seu lado no show, sem saber, sentindo seu cheiro misturado aos suores alheios. Fecho os olhos e tento me lembrar das cores, alguma moça de vermelho passou por mim? Deixo-te com essa frase que li hoje no ônibus, enquanto vinha para a análise: ‘Em suma, não adquirimos nada, nem paz, nem glória, nem dor,(…)

[Não percebi, mas a letra vermelha vinha falhando ao longo do texto e estava quase impossível de ler. Daí, então, a cor da tinta mudou para o preto]:

(…) nem infelicidade. Cada instante nos transforma em outro não só porque acrescenta algo ao que somos, mas também porque determinará o que seremos.’ Minha caneta vermelha acabou, pode trocar de camisa. Beijos, N.”.

Neura combina com Raquel, Rebeca, Rosa, um metro e setenta de muita euforia, com leves tendência à contenção nos dias de TPM. Vai pra análise de calça jeans preta, sapatinho estilo inglês. Gosta de lingerie? Não dá pra ver daqui, mas imagino que sim. Cabelo joãozinho, pois no início achei que ela era homem. Sente dor no pulso por passar o dia todo digitando.

Agora estava mais fácil descobrir quem era Noemi, ou Nina, bastava perguntar quais pacientes minha colega atendia às segundas. Mas algo me deixou temeroso. A psicanalista daquele dia se chamava Nicole e tinha uma carinha de amante de romance epistolar.

Terça e quarta tentei ignorar o assunto do mesmo jeito que Paula me ignorava. Na quinta, folheei a Bravo sem encontrar o A4. Peguei uma Alfa com Chico Buarque na capa e ali estava:

“N. Cheguei ao final do livro: ‘Ela viu duas camas, uma junto da outra, e perto de uma delas uma mesa de cabeceira com um abajur. Uma borboleta grande, assustada com a luz, fugiu do abajur e ficou esvoaçando pelo quarto.’ É isso? Você está assustada? Estamos borboletando pelo quarto enquanto poderíamos estar juntas numa cama? Você me confunde, sempre foi elusiva quando eu propunha um encontro de verdade, parece que tem medo da vida real, mas a vida real surge, não tem jeito. Se não for eu, será outra. É isso, estou no escuro, mesmo com a luz acesa”.

O caso era grave: missiva em sala de espera não fazia amante feliz. A partir de uma ideia zombeteira, eu decidi me disfarçar de Penelope Cruz, tocar fogo no coreto e triangular a história. Com meu lápis HB, fui logo me intrometendo naquele rendezvous:

N. e R., aqui estou pra ser a Maria Elena de vocês, posso chamar uma de Vicky e a outra de Cristina? Venho acompanhando aflita o desenrolar dessa história e concordo com R., é hora de se encontrarem. Vou reservar uma mesa no meu nome no Café com Letras pro sábado da próxima semana (dia 25), assim as duas terão tempo de se programar. Vocês precisam disso, acreditem em mim. Ou falta coragem? Atenta a tudo, Maria Elena.

Domingo, Sarinha me manda um SMS: Paula voltou para o ex. Me senti um objeto de revanche.

Segunda, o A4 sumiu. Esmorecer ou não esmorecer, eis a questão?

Terça, nada, quarta, nichts, quinta, gar nichts. Passei o resto do dia dando patadas interpretativas em Alice, Omar, Jorge e cia.

Mas não desisti, no sábado lá estava eu no balcão do Café com Letras olhando de esguelha a mesa reservada para as protagonistas do meu roman à clef. 

No terceiro Cosmopolitan vejo entrar o menino Jorge, psicólogo em formação e, começo a suspeitar, Cristina nas missivas vagas. A hostess aponta para a mesa de Maria Elena. Afinal, não era só eu que estava fingindo usar mini saia. Jorgito me vê no balcão, faz que vai, não vai, fica sem saber se cumprimenta o analista ou não. Levanto as sobrancelhas, dando meu cumprimento para ocasiões similares e o vejo ir mexer nos livros. 

Menos de cinco minutos depois, outro barbudinho magrelo entra pela mão da recepcionista e vai se sentar triunfante na mesa reservada, de costas pra mim, virado para a porta. Ele não me viu, mas reconheci o gingado. Viro o último dos Cosmopolitans, dou adeus e vou-me embora. No caminho, dou um tapinha no ombro do Omar e digo, essa semana promete, hein.

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