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Verão
Casália no verão não tem graça nem moradores. As casas estão fechadas, as folhas das árvores espalham-se pelas calçadas e quintais. As árvores – quando existem – são sempre miúdas, baixas e mirradas devido ao oxigênio ralo. Os canteiros estão secos, esperando a chuva do outono. Às vezes uma porta bate. Cachorros peludos e sem donos rondam e rosnam para os estranhos.
Mesmo assim, deserta e vagamente hostil, atrai visitantes. Viúvos costumam ir até lá com as cinzas de suas companheiras.
Casália fica incrustada entre as montanhas; de um lado um paredão, do outro uma fenda por onde a cidade se equilibra. Todas as ruas são ladeiras e as que não são, sustentam-se perigosamente sobre alicerces de ferro, esperando pela nova Noite da Grande Avalanche. Por todas as praças há marcos e placas servindo de lembrete do desastre anterior. Estátuas de heróis e de vítimas, de pessoas que hoje já estariam mortas de todo modo.
Como no verão não há movimento, também não há transporte regular para lá. Os viúvos precisam ir de carro através de uma estradinha estreita e onde após cada curva pode haver um rebanho de bodes e cabras no meio da pista. Os automóveis circulam pelas ruas desertas, tentando reconhecer uma praça, um restaurante, o Salão dos Encontros, talvez a estátua de Frei Keller. Mas sem a cobertura da neve e os sinais luminosos, fica tudo neutro e anódino.
Perdidos, os viúvos eventualmente acabarão no Mirante do Caolho, pois as ruas e vielas fatalmente se direcionam para lá. Estacionam seus carros e da mureta admiram a paisagem delimitada pelas montanhas. Se o dia estiver claro, conseguem ver os vulcões e o litoral sujeito a tsunamis.
E então os viúvos posicionam-se a beira do precipício e jogam as cinzas da falecida no ar. Talvez o vento revire e jogue os restos dela sobre os vivos. Na montanha o clima é sempre imprevisível: leve casaco, leve bermuda. Enquanto o viúvo vê os restos sumirem no abismo, pode relembrar como foi que conheceu a mãe de seus filhos.
Outono
No meio de outono, moradores sazonais reocupam Casália. Fazem a manutenção preventiva e limpam as ruas, pintam as casas e podam os jardins. Reativam os motores dos teleféricos e começam a trazer as provisões para o inverno. A maioria prefere viver próximo ao litoral, em um clima mais agradável. Há sempre o medo da Grande Avalanche. São grupos de homens e mulheres serviçais, imigrantes e refugiados que falam todas as línguas sem falarem verdadeiramente uma. Vieram de longe, de seus próprios países. Durante a noite mandam vídeos para as famílias e prometem regressar no outro ano. Mas nunca se tem essa certeza, a de que irão realmente voltar ou a de que não serão expulsos antes.
Por serem estrangeiros ou simplesmente pobres, vivem fora dos limites urbanos de Casália em tendas de cores opacas para ficarem ocultas dos olhos dos visitantes quando chegarem. Mas, nessa época, quando ainda não há ninguém, quando o governo não fez o sorteio nem emitiu as convocações, os trabalhadores bebem e fumam narguilé e dançam e aprendem uns com os outros os costumes de suas terras natais.
Baraun é um destes refugiados: observa a distância a alegria dos seus colegas dançando e cantando ao redor da fogueira após um dia de trabalho duro. Oferecem-no um trago, mas ele se recusa. O álcool é proibido pela religião dos Profetas.
Quando a lua estava alta, o capataz ordenou que parassem com aquela algazarra. Entretanto, Baraun já se recolhera a sua barraca. Permanece acordado sobre seu colchão fino e sob cobertas grossas, aguardando o melhor horário do fuso.
Assiste na pequena tela os filhos – crescendo ou já crescidos. Os meninos querem saber se estará de volta para a Festa dos Profeta. Baraun sorri e mente que sim, que estará de volta, levando presentes e mimos para sua família, conforme a tradição e para ostentar perante os primos.
A esposa também quer falar. Ela repara no bigode, diz que ele ficou bonito. Conta que a sogra precisa de mais remédio, Baraum garante que enviará o dinheiro. Lamenta falar por tão pouco tempo, diz que o alojamento está às escuras e que seus colegas de trabalho estão quase dormindo, não deve fazer barulho.
A seu lado, Charlam observa Baraum desligar o aparelho. Escuta o choro baixinho do amigo ao mentir para suas crianças e sua esposa. Ele sabe que nunca poderá voltar para seu país, depois de terem se amado. Os profetas não o perdoariam.
Inverno
Por todo o país, jovens são convocados para a Semana Nacional do Cio. Recebem pelo correio um envelope com brasão pátrio. Dentro, uma carta de agradecimento e instruções bastante básicas sobre como se deslocar de sua residência para Casália, com horários dos trens e data prevista de chegada.
Não há muito como recusar, embora haja fugitivos e dissidentes, moleques que se lançam ao mar ou sobem outras cordilheiras para não irem nas montanhas de Casália. Às vezes as patrulhas os capturam vivendo em barracas solitárias no meio das florestas de araucárias. Outras vezes abandonam o país ultrapassando as fronteiras, onde viverão vidas opostas.
Contudo, a maioria prefere que façam suas escolhas – a liberdade também é uma outra espécie de fardo. Estes milhares de estudantes se deslocam para lá. Seguem para as linhas ferroviárias, construídas inicialmente pelas empresas inglesas de mineração. Mas há os mais pobres que vão em caravanas de jegues e lhamas. Há quem vá a pé, sandália no chão, touca de lã na cabeça, subindo com as próprias pernas a longa trilha.
Não é incomum encontrar corpos mumificados pelo frio no percurso inferior do trajeto. Cruzes isoladas no caminho eram lembretes tanto dos falecidos quanto para os desprevenidos.
Eriandro sabia disso e quando viu as nuvens crescendo abaixo dele, como uma onda branca e revolta, preferiu buscar um abrigo. Arrastou a pequena lhama até uma formação de rochas. Tinham formas de coxas gigantes, como se a Pachamama tivesse esquecido suas partes, da cintura para baixo. Posicionou-se onde seria a virilha e desdobrou sua tenda, que foi se desenvolvendo feito um origami invertido, crescendo até proteger todo corpo seu. Ergueu um mastro e pendurou ali a flâmula de sua aldeia, esperando que se houvesse avalanche ou morresse congelado encontrariam seu corpo e o levariam para sua mãe. Cobriu a lhama como pode e a obrigou a se deitar junto da tenda e se despediu do bicho, na dúvida se ele resistiria.
Esperava paciente, a fome e o medo subentendidos, o infeliz animal gemendo do lado de fora, quando no meio do rugido do vento, escutou um grito. Eriandro torceu para serem apenas as anhangueras da montanha, os fantasmas que querem mais um para morrer.
Ficou calado e então ouviu de novo. Um pedido de ajuda: yanapa! Dessa vez, não pode fingir que não era com ele. Cobriu o rosto como deu, amarrou a corda guia em si mesmo e no mastro, saiu do abrigo e passo por passo enfiou-se nos vórtices.
O animal piscou os olhos com os longos cílios cobertos com uma caspa de neve, curioso com a corda que se esticava do interior da tenda, com dificuldade, se arrastando e se tensionando com as rajadas. E então ela parou. A lhama cansou de esperar o retorno do seu dono e voltou a se encolher e a tentar dormir.
Porém a corda voltou a se mexer. Eriandro ressurge carregando algo nas costas. Tropeça mais do que caminha. Ainda assim, consegue regressar. Sob a proteção do abrigo, abre os trajes da pessoa resgatada como quem desempacota um presente e percebe que a moça está desfalecida e com a pele ferida do frio.
Antes de morrer congelada, a pessoa geralmente desmaia de sono. Porém, pode acontecer da garganta fechar, em um último espasmo para proteger os pulmões do ar congelante. Sendo assim, antes de saber o nome de Elimane, ele a beija e sopra seu próprio ar no da garota. Uma, duas vezes, até ela tossir e empurrá-lo com as mãos. Só então eles se apresentam conforme as tradições indígenas das cordilheiras.
No espaço reduzido da tenda, Eriandro a coloca no próprio saco de dormir e se enfia ali dentro também para aquecê-la. Elimane fala pouco, ainda bate os dentes. Delira em seu idioma. Ele reconhece o envelope com o brasão e a flâmula de outra aldeia e, portanto, também ia para a Semana Nacional do Cio.
Eles ainda não sabem, mas irão sobreviver. Depois da tempestade, desistirão de subir a montanha rumo à Casália. Já se encontraram, para que seguir o processo administrativo do Ministério de Natalidade? Descerão para o planalto e fugirão juntos e solteiros.
Primavera
Casália era o nome da missão mantida por um padre suíço, Frei Keller, que ergueu ali a Capela de Nossa Senhora de Casália próximo das nascentes do Rio Aracmasin. O padre dizia para seus fiéis que as montanhas lembravam sua terra natal nos Alpes. Balela: só se os Alpes fossem estéreis e rochosos e as vacas fossem lhamas e alpacas e os tiroleses usassem trajes indígenas. Porém, havia flores. De cactos.
Frei Keller não era tonto. Escolheu ali as nascentes porque quem controla a água no deserto tem poder. Os incas já haviam feito isso antes dele e ele só continuou a tradição. Para ajudar o povo a esquecer dos velhos donos, Frei Keller criou festas de santos nos equinócios e solstícios para apagar a memória das tradições. Apesar de irem às missas e festejarem o Natal, os povos da terra continuam chamando Casália de Aracmasin.
Talvez Casália/Aracmasin tivesse ficado esquecida e nunca passasse de uma aldeia esperando para ser comprada por um resort para esquiadores se não tivessem descoberto uns veios de ouro. Por todo século XVI e XVII, milhares de índios e pretos cavaram a montanha como vermes escavando carne sem sal. E isso teria durado até hoje se não fosse A Noite da Grande Avalanche. Houve um terremoto e toda a cidade deslizou e desapareceu deixando um rasgo na montanha.
Tudo isso aconteceu meros meses após a independência do país, o que fez muitos dizerem que era a Maldição dos Espanhóis, como se não bastassem todas as outras. Casália, contudo, se reergueu sobre a ferida na montanha, mas ainda hoje se teme que tudo poderá ceder novamente no futuro.
Inverno 2
Depois do trigésimo ano de redução da população, sem filhos para entrar em guerra ou para consumir ou para pagar a previdência, os gerontocratas da capital decidiram implementar a Semana Nacional do Cio. Convocam-se os jovens solteiros a irem para a colônia matrimonial de Casália, onde encontrariam parceiros necessários para a continuidade da nação.
A maior parte dos convocados chegam nas estações de trem e pelos teleféricos. Existem vagões e horários delimitados para que um sexo não se encontre com o outro para evitar o acaso de se apaixonar fora dos trâmites adequados e segundo o Código de Práticas Interrelacionais do Ministério da Natalidade.
Dentre os meninos que acabam de chegar, podemos localizar facilmente Torias: óculos de aro fino e pele muito pálida em relação aos demais, o que lhe conferia certo ar inglês, em especial com o uniforme da escola católica. Funcionários do governo organizam os grupos em filas com apitos e megafones.
Depois do desembarque, as crianças – pois neste país ser adulto depende do estado civil e não da idade ou da capacidade intelectual – são encaminhadas para alojamentos vigiados por guarda de eunucos – quimicamente castrados. Meninos e meninas ficam em diferentes locais, separados não apenas pela distância, mas também pelo frio e neve. Isso seria pouco necessário, uma vez que a maioria deles parece estar desinteressada em sexo ou tímida demais, apesar dos hormônios supostamente em ebulição. Torias olha através da janela a paisagem cinzenta entrecortada de bandeiras, flâmulas e milicos. Há um homem solitário de bigode varrendo o pátio.
A recepção do Alojamento Masculino está um caos de gente, uma balbúrdia que gritos e campainhas dos inspetores tentam abafar. Enquanto esperam ser direcionados para seus quartos coletivos, telas apresentam um vídeo em modo repeat. É discurso para os recém-chegados do líder máximo do país: Dom Hernando Fector. A repetição da fala em diferentes telas não sincronizadas deixa tudo mais caótico, mas ninguém quer prestar atenção ao que o velho diz. Conhecem bem seu governante, vive aparecendo no noticiário, um homem com o carisma antipático dos autênticos. Sua fala misturava termos em espanhol, português e quéchua. Vestia-se como sempre, com seu uniforme de gala militar; sua testa proeminente brilhava feito um espelho alisado com botox. Como se não bastasse o caos geral, o próprio discurso de Dom Hernando Fector soava estranho:
-A relação santa entre homens e mulheres não é uma parceria. Não, também não é uma paixão. A relação santa entre homens e mulheres não pode, nem nunca será uma relação entre iguais. Pois a trepada é uma relação de poder e se há poder, alguém tem que se submeter ou ser submetido.
Torias ouvira dizer que Dom Hernando estava ficando gagá. Nos alojamentos femininos, o discurso era outro, emitido pela Primeiríssima Dama, Dona Lasara Minera Fector, uma mulher cujo rosto original ninguém mais se recordava após sequências ininterruptas de cirurgias estéticas. Porém, ela era vinte e dois anos mais nova, certamente mais inteligente. Estava pavimentando o caminho para ser a próxima Líder Máxima.
O primeiro evento público acontece no Salão dos Encontros. Serve como um primeiro contato, para convencer os jovens a interagir presencialmente. Estão todos com fome e há um enorme banquete. As mesas possuem nomes associados aos signos do Zodíaco, com exceção de Câncer, considerado mau agouro no país – ninguém registra os filhos entre junho e julho. Mas para se servir nas mesas, é necessário estar de posse de dois cupons que precisam ser combinados entre os dois sexos. Só se janta acompanhado. Quem é tímido demais ou quem não dá a sorte de localizar o seu correspondente acaba ficando com fome.
Torias é um dos tímidos. Apesar disso, ele teve sorte: recebeu um cupom de pentagrama, um dos raros, que permitiria ele acessar a desejada Mesa Aquário. Um sujeito grande se aproxima e diz que a garota dele está com um pentagrama e ordena que ele troque de cupom com ele. Faz ameaças. Torias se encolhe e passaria de bom grado seu bilhete mas é impedido por Fulídea, uma moça volumosa e aloirada, descendente de suíços e usava um batom preto. Apesar de todos ali terem idades aproximadas, Fulídea é uma das poucas com tatuagens. Ela torce o mindinho do grandão e o manda ir passear. Fulídea puxa Torias, ela também está com o pentagrama.
-Fui com sua cara. Você parece o Harry Potter.
Ele já ouvira dizer que as pessoas do litoral são mais despachadas. Está feliz por ter encontrado alguém e agora podem ir se conhecer enquanto jantam camarões.
Infelizmente Torias era alérgico e só percebeu isso depois da garganta fechar.
Primavera 2
Torias sobreviveu, mas não o seu encontro. Fulídea o acompanhou até a enfermaria mas não por muito tempo. Preferia alguém menos sujeito a doenças.
-Se for para tomar conta de alguém, é melhor alguém que não morra.
O rapaz de óculos acabou acatando o resultado do sorteio final, quando aqueles que não são atraentes ou interessantes acabam designados a uma pessoa. Torias acabou se casando com Iquenda. Curiosamente, ela era tão volumosa quanto Fulídea, mas ao contrário da outra, absolutamente calada. Tinha olhos pequenos e indecifráveis e cheiro de urina na cabeleira.
No início até que as coisas foram bem. Apesar de Iquenda não ser nada atraente, ela gostava de aguardente de milho e se transformava quando estava bêbada, tornando-se fogosa e lasciva. De garrafa em garrafa, conseguiram cumprir a determinação do Ministério: quatro filhos. Dois dos quais doados a Creche Bélica, onde se tornariam soldados para o Líder Máximo.
Iquenda sóbria, entretanto, não o suportava. Esse desamor irrompia em agressões e críticas que nem sempre faziam sentido. Torias se refugiava nos filhos. Ele gostava mais deles do que eles a ele. Supôs que isso acontecia em toda paternidade e achava isso justo. Nenhum pai deve ser âncora para suas crias.
Verão 2
Os anos passaram. Conforme esperado, Dom Hernando Fector foi deposto, mas os gerontocratas da capital escolheram outro velho em vez da Primeiríssima Dama que foi presa e passou a ser designada Primeiríssima Puta conforme Ato Constitucional.
Iquenda morreu após tomar uma bebida falsificada com etanol. Sua família deixou para o viúvo todas as decisões quanto ao funeral. Torias a cremou e levou suas cinzas para jogar em Casália.
Dirigiu sozinho durante todo a distância do Departamento de Planalto até a cidade. Seus filhos que não foram requisitados pelo Estado já não viviam mais neste país. O menino foi para o Pacífico trabalhar em plataformas submarinas de extração mineral. Lamentou a morte da mãe, mas não poderia atravessar as profundezas sem passar as semanas de descompressão. Já a menina estava em Europa. Fora trabalhar em um Cafuné´s Bar. A filha lhe explicou que era um lugar onde os clientes, homens e mulheres, vão para beber, fumar, receber cafuné e chorar em posição fetal. A natalidade em Europa decresce também em ritmo acelerado. Talvez a menina esperasse casar com um gringo, mas Torias duvidava de suas chances. Era poucos sorrisos. Como a mãe.
Casália estava vazia. Os muros repletos de pichações feitas por gerações de crianças, xingavam o governo. Qualquer governo. Ao jogar as cinzas pela balaustrada do Mirante do Caolho, o viúvo murmurou para o vento:
– Eles que me deram, eles que a tomem de volta.
Na estrada de volta para a capital, o veículo furou o pneu no meio do deserto. Descobriu-se que o estepe estava murcho. Mesmo assim, Torias fez a troca, sabendo que teria que parar no próximo posto, na esperança de um borracheiro.
Dirigiu devagar pela estrada sem movimento – os caminhões de lítio usavam uma rodovia mais moderna ao sul – até finalmente avistar umas casas mirradas e o logotipo de empresa distribuidora de combustível.
Enquanto fazia a curva para acessar o terreno, Torias ignorou a presença de uma cruz no acostamento, com fotos e brinquedos de plástico. Julgou que era parte do lixo. O estabelecimento era coberto por telhas finas de zinco, ancoradas contra o vento por pedras pesadas. Foi recebido por uma série de vira-latas sujos e peludos antes de ser atendido por um indígena de meia idade chamado Eriandro. Ele mancava um pouco enquanto fazia o conserto do pneu. Explicou que perdeu um dedo para o frio nas montanhas, mas não detalhou as circunstâncias. O senhor sugeriu que fosse até a lanchonete em frente, tomar um chá de coca, para não ter que esperar ali em pé.
A lanchonete ficava do outro lado da estrada, os dois estabelecimentos separados pela pista. Lá também havia pedras sobre o telhado. Um punhado de lhamas encardidas e enfeitadas com fitas coloridas esperavam para ser fotografadas pelos turistas por uns trocados míseros.
Torias atravessou a estrada calmamente e foi acompanhado pelo olhar das lhamas. Elas pareciam crianças antigas, tinham uma curiosidade desimpedida pelo que estava ao redor. O viúvo entrou pela porta da lanchonete atravessando as miçangas como um caubói entra num saloon. Mas só havia prateleiras com produtos baratos e próximos do vencimento. Na parede, sobre a geladeira de bebidas, um retrato de um curumim sorridente. Quem o atendeu no balcão envidraçado foi a esposa de Eriandro, uma mulher indígena de longos cabelos grisalhos e ar melancólico, chamada Elimane.
Eles se entreolharam e a paixão foi imediata: só poderiam ser felizes um com o outro. Mas já estavam velhos e acomodados demais para fazerem qualquer coisa. Até mesmo para um cafuné. Era uma paixão que não avassalava nada, não fulminava nada. Ambos sabiam disso.
Torias pediu que ela ficasse com a gorjeta. Elimane aceitou as moedas com um sorriso triste, mas as separou das demais para depois fazer um brinco para si.
