Ai, como ela é lúdica

– Bora brincar?

– De quê?

– Pega-pega congelou.

– Não posso. Travei as costas e além de não dar conta de correr, ficar parada por muito tempo também dói. Sentada ou deitada. Em pé, nem pensar, só se for meio dobradinha. Sigo portanto assim, a meio mastro, fabricando a próxima queixa: dor no pescoço. Que é abre alas da dor de cabeça, que puxa pelo braço a insônia, que puxa a irritabilidade, que puxa o desejo de doce e todo aquele trenzinho fantasma dos 40+. E com esse tanto de puxadas, se brincar, já já tô com o ombro troncho. Depois, tem os movimentos bruscos e laterais. Se eu desviar do pegador brusca e lateralmente congelarei por uma eternidade mesmo que o desvio seja um sucesso. Como não será, vão me pegar.  Congelada, perderei para sempre a capacidade de esticar o corpo, assim como a capacidade de dobrá-lo, curvá-lo, sentá-lo, deitá-lo ou movê-lo, de maneira que seguirei uma estátua de gelo para o resto da vida. Nesse caso, não, obrigada. 

– Bora brincar?

– De quê?

– Telefone sem fio.

– Não posso. Desde algum São João que não vou saber precisar qual São João, perdi alguns por cento da capacidade auditiva. Fogos. Isso ainda menina. Depois teve o walkman, e os shows da adolescência pernambucana e os da vida adulta em São Paulo e os áudios no 2X e os podcasts e a estação Pinheiros da linha amarela do metrô sendo construída na janela do trabalho antigo e o trabalho antigo e as reformas de cima, de baixo, de um lado e de outro na pandemia e a construção do prédio que subiu no terreno vizinho do consultório e o novo que tá subindo na outra esquina e a avenida Angélica e as motos e os ônibus da avenida Angélica. De maneira que passarei adiante apenas um leve chiado já na primeira rodada. Nesse caso, não, obrigada. 

– Bora brincar?

– De quê?

– De jogo da memória.

– O que é que tu perguntou mesmo?

– Bora brincar?

– De quê?

– Cama de gato.

– Não posso. É o movimento de pinça, sabe? O de pinça bota o polegar respondendo ao mindinho, o anelar ao indicador e o médio meio besta sem saber muito o que fazer. A mim nem um dos 5 responde. Fora a intolerância. Ao frio porque endurecem, ao calor porque incham, ao tédio porque estalam, à vida social porque não suportam o aperto dos cumprimentos. Tem também aquela coisa toda da paciência, né? Da paciência e das perguntas de coach. E o propósito, perguntaria a minha mão? Pra quê ficar enlinhando e deselinhando linha? Pra quê? De maneira que agora fiquei até pensando em outros pra quês e pode ser até que tenha dado uma mini deprimidinha. Nesse caso, não, obrigada. 

– Bora brincar?

– De quê?

– De jogo da velha.

-Ah, Posso.  De maneira que sim. Nesse caso, bora!  

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