Chove sem parar

László Krasznahorkai era um nome que aparecia em todas as listas do Nobel dos últimos 20 anos. Não li outros livros, mas só por SátánTangó (trad. Paulo Schller, Cia das Letras) dá pra dizer que o prêmio está em boas mãos. Principalmente por um quesito: é literatura pura, no nível mais alto, tanto na forma quanto no conteúdo.

Lançado em 1985, quando o autor tinha 45 anos, o Tango de Satã parte de uma premissa radical: a narrativa é ambientada em um lugar onde não pára de chover. Às vezes garoa, noutras vem tempestade, depois é uma chuva fininha e contínua… o livro é permanentemente úmido, ora quente ora frio. A água é condição essencial para amoldar a linguagem e as variadas tramas que vão se superpondo – alguns períodos escorrem como enxurradas, ocupando às vezes mais de uma página, em longas frases coordenadas, com muita musicalidade.

O “assentamento” anônimo onde se passa a história tem poucos habitantes – um médico, um diretor de escola, um taverneiro, um fazendeiro, algumas mulheres e crianças – e todos querem loucamente escapar do lugar, mas não conseguem. Parecem estar presos em um pântano, andando em círculos numa lagoa de areia movediça. A sensação, advinda da chuva continua, é de que se movem sem sair do lugar.

A trama em si não é o mais importante, e sim a forma como é contada. Um tal Irimiás, vagabundo que já viveu neste assentamento, foi tido como morto e agora trabalha no governo, volta com promessas de redenção para aquelas almas perdidas. Não sabemos se Irimiás é um louco, um idiota, um salvador ou o próprio diabo. Sua mera aparição faz com que os assentados mergulhem numa devassidão embriagada, destruindo o resto de respeito que tinham por eles mesmos.

O livro já foi lido como uma alegoria da derrocada do mundo soviético (afinal quando foi lançado a Hungria ainda estava sob o jugo da URSS) mas aos poucos começou a ser visto como uma grande metáfora do juízo final. Muito influenciado por Beckett e Kafka e seus personagens atormentados, a escrita de Krasznahorkai tem, no entanto, muito senso de humor, lirismo e ambiguidade. Suas longuíssimas frases – todas empacotadas em um único parágrafo por capítulo – são escritas em um discurso indireto livre que se infiltra na consciência das personagens, causando o efeito de uma polifonia bêbada. Uma leitura aponta o médico, que aparece tanto no terceiro quanto no último capítulo, como o possível narrador de todo o romance.

O que se precisar deixar claro é que o livro proporciona uma experiência fora do mundo: à semelhança de livros essenciais tipo PanAmérica ou Finnegans Wake, ele não se interessa só por contar uma história, e sim criar um universo simbólico.

Sugiro demais este artigo do crítico James Woods sobre Krasznahorkai na New Yorker.

PROPOSTA

A premissa é narrar sua história em uma paisagem radical. Os elementos do ambiente irão moldar a sua narrativa e o modo como você vai contar sua história.

Alguns outros exemplos tirados de outros livros:

  1. J. G. Ballard — romances como The Drowned World (O Mundo Submerso) e The Burning World (O Mundo em Chamas) são matrizes de “paisagens extremas”: cidades inundadas, desertos de sal, mundos derretendo.
  2. Italo CalvinoAs Cidades Invisíveis cria cidades-limite, muitas delas existindo em paradoxos físicos (como uma cidade suspensa no ar ou outra construída sobre o próprio esquecimento).
  3. Ursula K. Le Guin — seus livros imaginam sociedades em ecossistemas extremos (planetas congelados, desertos mentais, arquiteturas vivas).
  4. Andrei Tarkóvski — no cinema, Stalker e Solaris são referências potentes: paisagens interiores, zonas contaminadas, chuva ácida, lama e ruína.
  5. Anselm Kiefer — exemplo de como as artes visuais podem inspirar a sensação de uma natureza radical, dissolvida, sublime ou em colapso.

Ou você pode se inspirar em paisagens radicais reais, aquelas que já existem no planeta, mas que parecem ficção por sua intensidade, isolamento ou aparência quase inumana. A seguir, 10 exemplos verossímeis, cada um com um breve retrato atmosférico e o tipo de narrativa que ele poderia inspirar:


1. Wadi Rum, Jordânia — o deserto vermelho

Planícies de arenito e granito queimadas pelo sol, onde o vento esculpe falésias como catedrais. O silêncio absoluto cria uma sensação de outro planeta.
🜂 Evoca: solidão, rituais, sobrevivência.


2. Península de Kamchatka, Rússia — o território dos vulcões

Mais de 160 vulcões ativos e geleiras convivendo num mesmo horizonte. O chão fuma, a neve derrete em enxofre.
🜄 Evoca: isolamento, catástrofe, comunhão com o mineral.


3. Vale da Morte, Califórnia (EUA) — o deserto que respira calor

Temperaturas de 55°C, lagos de sal seco e montanhas de areia colorida. A aridez parece viva.
🜁 Evoca: resistência, miragens, o limite da percepção.


4. Salar de Uyuni, Bolívia — o espelho do céu

O maior deserto de sal do mundo. Após a chuva, vira uma superfície perfeitamente reflexiva: não há chão, nem céu.
🜄 Evoca: dissolução da identidade, o real como miragem.


5. Ilhas Lofoten, Noruega — o frio que respira

Picos afiados emergem do mar glacial; vilas de madeira colorida resistem sob o sol da meia-noite.
🜁 Evoca: melancolia, perseverança, solidão luminosa.


6. Deserto do Atacama, Chile — o lugar sem chuva

Algumas regiões não veem uma gota d’água há séculos. Céu absurdamente límpido, silêncio total.
🜂 Evoca: introspecção, secura existencial, pureza extrema.


7. Lago Natron, Tanzânia — o lago que mata

A água alcalina transforma animais mortos em estátuas calcificadas. As cores são de pesadelo: vermelho, rosa, ferrugem.
🜄 Evoca: beleza venenosa, o limite entre vida e petrificação.


8. Trenó dos ventos, Antártida — o continente branco

Campos infinitos de gelo e vento a 200 km/h. Nenhum som além do estalo do frio.
🜁 Evoca: o nada sublime, o humano reduzido a respiração.


9. Floresta de Białowieża, Polônia/Bielorrússia — o último bosque primordial

Um dos poucos lugares da Europa onde a floresta nunca foi tocada. Árvores mortas sustentam vida nova.
🜃 Evoca: ciclos, memória orgânica, o tempo vegetal.


10. Mar de Aral, Cazaquistão/Uzbequistão — o desaparecimento de um mar

Antigo lago gigante, hoje reduzido a poeira e esqueletos de barcos. Uma paisagem da perda humana.
🜃 Evoca: colapso ambiental, memória e arrependimento.


Você vai narrar um dia na vida desta paisagem radical.

Seu personagem precisa realizar uma operação corriqueira – por exemplo, ir até o mercado – mas os elementos da natureza não colaboram.

Escreva no discurso indireto livre, em uns 13 mil caracteres.

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