Coágulos no ar

Em poucas horas começa meu turno na Homicídios. Apesar de ter desaparecido há dois anos, Ana toma banho no meu banheiro. Ouço o chiado do chuveiro ligado no máximo, embora não tenha ninguém lá dentro. Quando penso no bilhete que ela deixou, já não penso no conteúdo, mas no poder do ato, como se o bilhete enxertasse de carne o seu fantasma. Vejo Ana andar com a toalha de rosto enrolada na cabeça e a de banho amarrada na altura do peito, os ombros vermelhos, escaldados da água quente. Quando retorna ao banheiro para estender a sua toalha em cima no box, é certo que embola a minha, que secava no seu lugar e agora continuará molhada. Levanto da cama e vou atrás do seu rastro fumegante e úmido. Encontro minha toalha esticada e o vaso destampado emite um cheiro de mijo seco.

Desde o início, a cama foi testemunha. A fumaça que toma a cidade no fim da tarde ainda parecia um futuro distante quando assistimos, no jornal da noite, uma matéria sobre a construção da Central. Há vinte anos o Grupo Terra tinha anexado o centro da cidade, desativando o porto e começando a aterrar a baía, e o anúncio do início das novas obras chegava para comemorar a data. O banco de areia cercado por alambrados agora seria ladeado por muros. Em vez do nada, haveria uma enorme estrutura com dezenas de galpões, cobertos por telhados retangulares de vigas metálicas. A palavra oportunidade foi mencionada seguidas vezes pelo apresentador do telejornal, enquanto relativizava as últimas duas décadas de queda na economia da região depois do desmonte do porto.

Terminada a matéria, Ana levantou a cabeça do meu ombro e pegou o computador em cima da mesa. As pintas marrons trilhavam um caminho nas suas costas brancas, acesas no escuro, e eu podia ver uma camada de suor seco cobrindo seus quadris. Eu tinha voltado para a cidade há menos de um ano e ainda estranhava as noites quentes, pioradas desde o aterro. A nudez de Ana não era só luxúria ou capricho, embora todo movimento do seu corpo tivesse esse caráter para mim, mesmo quando fotografava os cadáveres que nos reuniam quase todas as noites, ela pelo jornal, eu pela polícia. Nossos padrinhos, ela dizia, passando as fotos no visor da câmera. Naquele dia ela leu na cama as notícias sobre a Central, o notebook tapando o sexo. Na matéria do telejornal tinham ignorado as explosões, ela disse, justo o que mais se comenta depois do fim do mar. As fagulhas brilhavam no céu noturno duas ou três vezes todas as noites, na área acima do aterro, como fogos de artifício sem som. Uma lembrança nítida da minha infância é assistir da janela o ponto de luz cortar o teto do aterro durante a madrugada, quando eu não conseguia dormir, imaginando discos voadores. Com o início das obras na Central, elas iriam cessar, Ana lia em voz alta. Se soubesse, teria ficado acordada ontem à noite para ver. Concordei, poderíamos ter colocado um alarme por volta das duas, o horário de maior ocorrência na média, falei. Mas a verdade é que eu nunca mais tinha visto uma explosão. Quando acontecia de estar no plantão, preferia não olhar, mas nunca cheguei a dizer.

Do outro lado do quarto, Ana bate o polegar no filtro do cigarro e deixa as cinzas caírem no chão, rente aos pés da cadeira de vime que trouxe para o apartamento, além das malas e das câmeras, como seus únicos bens – bens que deixaria para trás ao desaparecer. Tateio seu rosto à distância, tentando dissipar a fumaça instalada nos seus olhos ou nos meus. Ela inclina a cabeça na minha direção, mostrando suas feições borradas, enquanto na televisão dois carros colidem numa reta e explodem no ar, caindo lentamente de uma ponte até seus destroços afundarem no mar. Apesar do rosto turvo, reconheço suas intenções. Quando curva o tronco e prende o cigarro nas pontas dos dedos, deixando a outra mão livre para ajeitar a franja logo acima das sobrancelhas, sustentando alguma seriedade nos olhos viperinos, Ana quer brigar ou foder. Daqui não posso ver seus olhos, mas sei que me lança o mesmo olhar de dois anos atrás, quando me viu no saguão estreito do Hotel Prata.

Eu tinha voltado para Vitória depois de quase vinte anos. Seguia Miguel pela sequência de fotos emolduradas nas paredes, sem me deter realmente em nenhuma delas, enquanto ele conversava com os conhecidos encontrados pelo caminho. Ana era uma delas, e Miguel foi até o balcão do bar para cumprimentá-la. Bebia vodca com gelo num copo bojudo. A luz baixa destacava a boca fina e as veias azuis, submersas na pele branca, embora eu não me lembre dessa cena. Depois da fumaça expelida pela Central, a cidade vem adquirindo um caráter de embuste, e as pessoas e as suas histórias se dissipam cada vez mais rápido. As fotos no celular me dizem como era seu rosto, que passei a fotografar desde nosso primeiro encontro naquela noite, no quarto 34 do Hotel Prata, como uma provocação íntima. Mais tarde eu também a perseguiria no meu apartamento com sua câmera nos minutos imediatos após o gozo, tentando aprisionar seu corpo nas lentes. A maioria das fotos ficava desfocada, escura, estourada. Mais umas dez ou quinze dessas e monto uma exposição, ela dizia. Repetíamos o ciclo algumas vezes, do sexo às fotos, e no fim eu jurava que apagaria as fotos. De madrugada eu abria a janela para dissipar o calor entranhado e, quando a manhã finalmente invadia o quarto, fumávamos o primeiro baseado recostados no travesseiro, assistindo ao primeiro jornal do dia.

Nesta altura da noite já se foram dois terços da garrafa. Olho para a fachada do Hotel Prata, a luz morna destacando as cortinas avermelhadas. Ninguém na rua além dos farrapos que orbitam pelas casas vazias ao redor da praça. Entro no hotel. A recepção é um balcão de mogno e um abajur. Atrás deles, o funcionário me espera com a chave do quarto 34, sabendo que, no dia seguinte, um envelope com algum dinheiro o esperará em cima da cômoda, antes do turno da única camareira do hotel. Subo as escadas segurando as chaves dentro do bolso, sentindo o metal frio dos dentes nos dedos. Sensação regurgitada, um gosto ácido esquecido nestes meses de dedicação à garrafa. Bebia e olhava para o teto, bebia e olhava para a parede vazia, projetando filmes aleatórios passados na cabeça. Imagens casuais, pedaços de casos, mosaicos, simulações. Hordas de farrapos embaçados na fumaça preta da Central. Incursões amorosas dissipadas na memória, os traços perdendo-se nos anos. O mundo devia ir para algum lugar, mas eu não precisava me mexer. Podia me trancar nos escaninhos da Homicídios, no meio dos casos sem resolução, dos corpos sem nome. Ou no quarto do Hotel Prata e me tornar um relógio, uma espécie de ampulheta da própria vida.

Nos fundos do corredor um facho de luz amarela vaza por baixo da porta. Dou dois toques na madeira antes de abrir. A mulher expele a fumaça do cigarro em direção à janela e se ajeita no lado da cama e faz menção de sorrir. Vagamente. Há certa saudação das duas partes. Ela amassa o cigarro no cinzeiro e abre a gaveta da mesa de cabeceira. Tiro os sapatos, deito na cama e desabotoo os primeiros botões da camisa. Saco a arma do coldre. No cabo da pistola, preso por um elástico, aparece um canudo de metal. A mulher abre o envelope pardo e retira duas pequenas esferas e as dispõe sobre a cama. Olho para elas por um tempo antes de pegá-las. Abro e fecho o punho direito, sentindo-as massagearem as linhas da pele. São finas e ásperas com fios de uma membrana rochosa agarrada à superfície e cabem na palma da mão como os olhos, dois olhos ensanguentados.

Uso o envelope para forrar a mesa de cabeceira e ali deposito as esferas. Bato com a ponta do canudo e, depois da primeira fissura na pele vermelha, dou mais uns toques. Há um estalo e a esfera se estilhaça. Os pequenos meteoritos são como brasas no fundo pardo. Penso no céu da cidade, um pano preto esmaecido desde que a Central começou a operar. Para ver algum astro era preciso atravessar a fronteira da região, talvez uns dez quilômetros para o norte. Dobro o envelope na metade, cobrindo os cacos antes de triturá-los contra a mesa. Inspiro a galáxia despedaçada até o último grão.

A ardência corre do rosto até os pés, congelando as veias, contraindo os músculos. Depois desligam-se os olhos e todo o peso do mundo cai sobre mim. Nomes e almas. Sugam a água quente que brota da minha pele com línguas de gelo. Dentro surge um vácuo e é inevitável mergulhar, desertar o corpo. À direita, o vulto da mulher se desenvolve como uma sombra ondulada na cortina. Detrás dela uma forma vai surgindo, primeiro como uma extensão do movimento da sombra, depois avulsa, imóvel ao lado da mesa de cabeceira, recostada na parede dos calcanhares ao topo da cabeça, retilínea. Nem a mulher deitada do meu lado nem a sombra parecem se dar conta da presença uma da outra. Por dentro, eu flutuo num abismo morno e viscoso. Ouço estalos à direita. Ela tenta usar um isqueiro, pois prefere fumá-las. Se você cheira, se pica ou enfia no cu, dá na mesma, me disse Jaime quando comprei as esferas pela primeira vez. Estávamos dentro do meu carro, em frente à catedral, a poucos metros do Hotel Prata. Jaime vestia calças sociais e terno preto e pendia da sua mão anêmica uma maleta, como fazem os executivos. Tirou do bolso um papel alumínio e virou de costas para a janela, tentando esconder as esferas do sol. Elas não gostam de luz, disse.

Ouço agora os choques abafados dentro do cigarro que a mulher fuma, os lamentos estridentes ante a combustão. A sombra ergue o tronco e caminha para o meu lado da cama, o rosto sem feição carregado pelo corpo esguio de Ana. Agacha muito próxima do meu ouvido e diz: “abro a porta de um quarto vazio, e de repente me esqueço.” A voz é límpida. Os gestos são econômicos. Ouço um barulho de torneira aberta. Levanto da cama e sigo Ana até o banheiro, deixando meu corpo na cama, paralisado pelo ar viscoso que toma o quarto, a mulher do seu lado com os lábios pregados no seu pescoço. Sinto que seu corpo tenta sair do poço movediço que a esfera inaugurou. Vejo Ana abrir a porta do banheiro, estou no rastro da sua sombra, e vejo a mulher na cama delineando minhas vértebras com os dedos até chegar dentro da calça. Enquanto entro no banheiro escuro com Ana, a mulher aperta e estrangula meu pau. Fodem, ela e meu corpo, e vão fazê-lo mais algumas vezes durante a noite, saindo do torpor para o êxtase e retornando à inércia e à medida que alternam os estados do corpo o gozo diminui e então se esvai. Fecho a porta do banheiro, acendo a luz e a sombra de Ana se dissipa e então vejo as centenas de gotas vermelhas cobrindo a pia, que está envergada, como se algo a tivesse deslocado. Tento fechar a torneira, mas alguém apaga a luz.

Desperto de manhã, recostado na parede do banheiro, a pia sem sinal de sangue. Olho por um tempo pela báscula o caminhar indeciso dos pombos na praça, como se rompessem coágulos no ar.

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