
Meu prato está vazio, mas não limpo. Guarda uns vestígios do lombo de porco, frito na panela de ferro com a própria gordura e um pouco de óleo, e seu molho espesso. Se olhamos o prato com atenção, fica evidente que sou um pouco desastrado. Sempre deixo queimar. Culpo-me menos do que deveria. Há nesses corpúsculos pretos o testemunho do descuido, mas também uma forma de perdão. O Instagram não publicaria essa imagem: a marca do garfo, o rastro de um pão, o arroz que irá parar no ralo da pia. Eu sim.
Escrevo “eu”, mas sei que não sou mais o mesmo que cozinhou. José Lancelote tomou meu lugar à mesa, comeu em meu corpo e me deixa o dever de narrar. Não, insiste em meu dever de narrar. Ele diz que literatura nasce da digestão, que o texto seriam os gases do espírito. Nesse movimento interno, também químico, o pensamento encontraria a ficção, segundo Lancelote.
Ele me lembra que, mesmo se eu e ele nos falamos, um de nós apenas de fato executa a coreografia de comer e de escrever, enquanto o outro se deixa escrever. Lancelote me insta no entanto a, por enquanto, deixarmo-nos enganar mutuamente.
E José, meu heterônimo, por fim se despede: “comida carbonizada não faz bem para a saúde, mas vai e escreve, te peço, e não te preocupes com teu cólon imaterial, meu caro. Tudo aquilo que entra há de sair, mesmo as palavras.”
O prato, agora frio, ainda me olha. Será que José Lancelote não sabe cozinhar? Nunca parei para pensar se daquela casa de vila em que ele vive desde o século XX saem mais do que os churrascos que ele insiste em fazer no quintalzinho da frente.

O tapete está enrolado e dobrado, encostado em um canto, do lado de um armário Rubbermaid. A chuva o endureceu, o sol o desbotou, e há mordidas na lateral. Como já voltou a chover, o tapete também está mofado. Agora mesmo o lixo espalhado por uma ventania passou a dividir com ele o chão. Costumava passar por esse tapete sempre que tirava o lixo, mas desta vez não posso continuar a fingir que não o vejo.
José Lancelote continua na minha cola, e considera o tapete uma metáfora barata, mas necessária, e que meu destino será jogá-lo fora. “És tu o tapete”, ele me diz, “enrolado sobre ti mesmo, dobrado e mofando sob o sol.”
Rio, mas não desminto, vejo o que reconheço ser meu estilo em Lancelote. Como choveu, o tapete pesa tanto que não consigo tirá-lo do chão. Repito o gesto de arrastá-lo, como quando o tirei de casa. Uma despedida reencenada e inútil. Degradar-se parece insistência do próprio tapete.
José, colecionador de pequenos dramas, anota mentalmente. “Pó de diversos chãos, farelos de bolacha, pelos e passos diversos, a matéria enrolada se rebela na uma textura deslocada e revivida em muitos quintais. Quem virá para o tapete do quintal, que não o próprio tapete”
José insiste que eu jogue o tapete fora logo, e exige que eu passe enfim a escrever a história de Hortênsia. Ela se passa em 1089, entre Al-Andalus e o Reino de Leão, e se trata das aventuras de uma menina, de seu grande segredo, e do fim da escravidão.
Mas Lancelote, e não eu, sou o autor.
“Repara”, ele diz, “teu tapete é um campo de batalha. Já o jogaste fora uma vez, da próxima vez há de ser mais fácil. E depois passas a escrever.”
Não, um tapete mordido, mijado e, agora, mofado é o que me resta . Não sou eu o autor da história de Hortênsia. Só o dono de um quintal, de um tapete velho. De um destino um tanto comum.
No fim da tarde, o vento o muda um pouco. Uma dobra se desfaz, parte do lixo rola por sobre o tapete. Um movimento mínimo, que me obriga a olhá-lo de novo. Mesmo se não esquecido, continuo a decidir deixá-lo para trás.

Esta ponte não existe mais. Tirei a foto de dentro do carro, em um por do sol nublado, atravessando de San Francisco para Oakland. Parte da ponte desabou no terremoto de 1989. Consertaram-na então, mas construíram uma ponte nova em 2013.
Saí do país há tanto tempo que trocaram até as pontes. Já José Lancelote continua a viver em São Paulo, e escreve sobre um presente que eu mesmo não alcanço. Se me lembro de motoboys, enchentes, da umidade da Marginal Pinheiros depois da chuva, apenas Lancelote pode observar inúmeras vezes a escola de surfe que abriram lá, e imaginar todo o lugar inundado pelo aquecimento global.
José concorda comigo, mas só para jogar a batata quente para mim. “Vês, é uma história de mil anos atrás, ou só uns 50, se olharmos direito, e do outro lado do mundo.”
Ele insiste que Hortênsia nasceu de mim e é minha responsabilidade, mas eu já começo a suspeitar que seja o contrário, que José Lancelote legou-me uma história por preocupar-se comigo.
Em um certo vilarejo em Al-Andalus, uma garotinha moçárabe de não mais de 11 anos, de vestido preto, avental de renda, e lenço na cabeça, acaba de chegar desacompanhada e montada a cavalo. Hortênsia senta-se em uma mesa de madeira ao lado de sua égua, Boneca, que bebe água em um balde.
Outra criança se aproxima, curiosa. Logo começam a falar do que falam todas as crianças de 11 anos. “Que cavaleiros trovadores você acompanha?”, ela pergunta a Hortênsia, que abre um sorriso largo. As duas meninas trocam suas impressões até a conversa virar uma disputa de gritos:
“Ronnie von Trappen!”
“Caetano Furioso!”
“Ronnie von Trappen!”
“Caetano Furioso!”
…
Outros olhos voltam-se para a disputa, enquanto Boneca acha um feixe de capim seco. Surgem três rapazes, Carlinhos Marx, Miltinho Friedman e Gui Hegel. Os amigos não resistem a uma boa discussão, e chegam contando que VULGUS apareceu pela região. Terror dos viajantes, libertador de cativos, VULGUS é um ser sobrenatural, espreitando as noites em busca de vítimas, com seu capuz e sua espada negra.
Penso em José, que nunca deixou São Paulo, e em mim, que talvez nunca tenha chegado aqui. Lembro-me que já pensei em VULGUS cruzando a mesma ponte, e que Hortênsia, como VULGUS, fala um latim que entendem todos os andaluzes, os árabes Amorávidas e os súditos de Leão.
Passando a pela ponte nova, o carro vibra em cada segmento de concreto, como um coração batendo. As torres se afastam, o nevoeiro engole o retrovisor, e o mundo se move.

A foto está atrás de um vidro, no museu, e é atribuída a Paul McCartney. É uma foto dos bastidores do Ed Sullivan Show, antes de eles entrarem no palco. Um instante que precedeu a história, em uma imagem feita pelo seu protagonista, vista agora através da lente do meu celular.
José Lancelote me provoca. “Você não olha o que está diante de você”. Pergunto se ele se refere a uma fixação com o passado.
”Não!” Ele retruca. “O Paul está nessa foto. Olha o contrabaixo canhoto do lado do George. Então não foi ele quem tirou! Desculpe-me por desapontá-lo. Nosso herói tinha uma câmera, e pelo jeito ela rodou o estúdio todo aquela noite.”
Mas de VULGUS, uma garotinha, uma criança indefesa, como ela diria em algum momento, pode-se exigir um desempenho, convenhamos, mitológico. Uma das leis naturais da história é que ela é o maior espadachim que já existiu. Lancelote parafraseia, com o fervor dos convertidos:
“VULGUS é uma menina, é o nascer do sol, o sonho de poetas, a alegria da eterna juventude!”
Eles persiste “foste tu quem a nomeaste!” E é verdade. Chamei a garotinha de VULGUS, uma corruptela de seu latim vulgar universalmente compreendido, e também o nome de um jogo de Atari.
Na história que José me conta, ninguém menos que o próprio Ronnie von Trappen cerca o vilarejo e aprisiona seus habitantes. Carlinhos, Gui e Miltinho são capturados. Hortênsia, dizem, estava no banheiro quando tudo aconteceu, como é conveniente. VULGUS surge do escuro da noite, com sua espada negra. VULGUS humilha Ronnie, todo seu exército e os obriga a recuar. O vilarejo se salva, mas Miltinho é levado junto como refém. Ou escravo.
“Não percebes?”, José escreve de novo, em outro e-mail. “É tua história também. Tu és como o vilarejo, com seus próprios VULGUS, Ronnies e Hortênsias”
“Escreva você, se sabe tanto.” Eu me irrito.
“Não posso”, ele responde já sem emoções, “é uma história para ti.”
Vejo eu e José nesse impasse como o Lennon e McCartney de um livro que nunca existiu. No reflexo do vidro, avisto meu rosto e o de José, talvez apenas o meu (ou o dele) multiplicado.
Penso em Miltinho, ainda apresado por Ronnie von Trappen, e saio do museu imaginando como ele ou José poderiam estar se sentindo.
“VULGUS te espera!” Provoca José. “Farei isso a despeito de teus protestos.”

A foto é simples: trata-se da sombra de meu filho na parede do quarto, e, ao lado seu lado, a sombra de um brontossauro de pelúcia. A luz vem do abajur, que muda de cor. É hora de ir dormir, e de histórias. Meus filhos corrigiriam logo: “Pai, não chama mais brontossauro, esse nome não existe mais. O nome correto é Apatossauro.” Dizem com a paciência científica de crianças quando explicam coisas a adultos distraídos.
Um menino e um animal extinto, revividos para a eternidade na imagem de suas sombras.
José Lancelote, meu heterônimo teimoso, acredita que, se nós dois podemos escrever a história de VULGUS, que seja eu. Ele andaria muito ocupado com as aventuras de seu grupo de estudos de política e robótica, que se encontra aos finais de semana e em eventuais noites na sua casa de vila. Diz ele que irá realizar o projeto do Grande Escritor. O leitor, se não adivinhar antes, logo descobriria quem é o Grande Escritor, ao saber que Lancelote por um tempo tornou-se conhecido por tirar famílias de surtos de fervor político online, e que ele se autodenominou um “exorcista asimoviano.”
Eu rio novamente, mesmo se o escuto mais claramente ainda desta vez. José, de alguma forma, é um pedaço de mim que acredita em se indignar. Não tem filhos. Escreve, debate, corrige, programa computadores (claro), arranja tempo para fundar os mais estranhos clubes e agora mesmo me cobra movimento. “Ficas parado demais aí!”, me escreve. “Enquanto isso, Hortênsia já está a caminho do Reino de Leão.”
José diz que vamos chegando no fim da história, que o grupo foi surpreendido no meio da noite por Ronnie von Trappen e sua Jovem Guarda Real, quando ninguém menos que VULGUS entra em seu caminho.
Fazendo coro com as crianças, VULGUS diz, “Pára! Você não é Ronnie von Trappen nada!” Indignado, ou achando graça, Ronnie pára para conversar.
Descobrem então que o vilarejo, os meninos, e VULGUS (mas onde estaria Hortênsia?) enfrentaram um pirata que vem se fazendo passar por von Trappen. Imagine, Ronnie von Trappen se imiscuir com a captura de escravos.
Precisaremos acompanhar Hortênsia perseguindo esse Ronnie von Pirata, a conveniente ajuda de VULGUS, e também seguir VULGUS quando ele pleitear junto a El Cid, o Rodrigão, uma audiência com o Rei.
José jura que essa história fui eu que lhe contei. Digo mais uma vez que não. Ele começou a escrevê-la enquanto eu olhava para o meu tapete enrolado, dobrado e mordido. Mas ele insiste: “foi tua fome que a inventou.”
Os meninos dormem. Volto à foto de instantes antes. A sombra do brontossauro se dissolve na parede, e penso no que inventamos: José, Hortênsia, VULGUS, Ronnie, as pontes, o tapete todos a sombra de um movimento que agorinha havia testemunhado, para que eu me lembre e os outros acreditem.
José me escreve uma última vez, do jeito que faz quando sente que algo está terminando.
“VULGUS chegou a ao Reino de Leão. Foi falar com o Rei. Ela veio pedir pela abolição da escravidão.
O Rei lhe diz ‘você parece ter muitas emoções. Temo que nem a Jovem Guarda Real ou todos os meus soldados seriam capazes de separar meu pescoço de sua espada. Você sabe também que não adiantaria nada.’
VULGUS dirige-se a Rodrigão, e diz ‘o Rei tem razão, vou para a Provença’
‘Mas por quê?’ Perguntava, perplexo, El Cid.
‘Preciso de Caetano Furioso, que ele convença o Rei. Da última vez, soube pelos menestréis que Caetano parou seu cavalo em Avignon.’
Agora, continua. Criei-te apenas para isso!”
