o lugar certo pro cara errado

Dino chegou caminhando, a rua ainda escura, o som pesado dos passos sobrevivendo um instante a mais no ar parado do fim da madrugada. A cidade logo amanheceria. Uma das portas de aço tava pela metade e deixava escapar o ritmo allegro ma non troppo de uma vassoura caipira raspando nos ladrilhos hidráulicos. Acendeu um cigarro antes de entrar, sentado nos calcanhares em frente à porta fechada, o sono ainda no rosto mestiço.

– Você veio mesmo, abençoado – disse Seu Raul, aparecendo por debaixo da porta meio aberta e ajeitando com destreza o montinho de sujeira pra vassourada final, os antebraços quase tão finos quanto o cabo de madeira. – Pode fumar lá dentro enquanto não abre.

O rapaz levantou num salto que não combinava com seu corpanzil e arremessou a guimba pra longe, no pé da árvore. Seu Raul tinha penteado o resto dos cabelos finos e grisalhos pra trás, com goma, e tava de camisa social por debaixo do uniforme azul. Guardou a vassoura na cozinha e voltou enxugando as mãos nervosamente num pano de prato. A estufa semiabastecida, pastel, mandioca, a máquina de café chiando, xícaras emborcadas no tanque de água quente. Em cima do freezer vertical uma pequena escultura em resina, São Jorge contra o Dragão, a lança, o cavalo branco.

– Vou terminar de subir as portas. Tem uma turma que chega cedo. Bom, você sabe – disse, arremessando o pano meio úmido por sobre o ombro direito de Dino, como se lhe entregasse uma tocha. – O Anísio tá terminando ali com o torresmo. Dá um toque nele quando alguma coisa acabar. Não esquece de botar o avental.

– Vai sossegado, Seu Raul.

– Eu não demoro. Se bem que o Maria Regina é fogo.

O velho recém-viúvo. A certidão de óbito da esposa pra dar entrada nos papéis da pensão. Penteou-se mais uma vez, sem necessidade, mirando-se no espelho por detrás das garrafas. Andou pra lá e pra cá, botou a cabeça pela abertura da cozinha.

– E o torresmo?

Dino nunca tinha estado atrás do balcão. Achou que a pia era baixa demais, ia sofrer pra lavar a louça. Do lado de fora tudo aquilo parecia muito diferente. Lembrou sem querer do pai e de um boteco exatamente como aquele, perto da fronteira com o Paraguai. Seu pai, um homem diminuto, bebendo traçado com uma china no colo e pagando pro menino desengonçado um pirulito do Zorro.

– Se entrar soldado serve o que eles pedirem, só não deixa abusar.

Seu Raul saiu depois do primeiro cliente, um rosto ordinário a caminho do serviço. Uma média e um pastel de carne. Os pobres coitados, os malditos, vinham mais tarde. Anísio era a cara do Chico Anísio no final da carreira, daí o apelido. Trouxe mais duas bandejas da cozinha, um cheiro maravilhoso de carne de porco frita, e as botou na estufa com pressa, sem nem olhar pra Dino. Logo o balcão tava tomado, todas as banquetas ocupadas. Fora os que preferiam beber de pé, os que nunca davam as costas pra porta, os que saíam o tempo todo pra fumar na calçada. Antes, porém, num momento breve em que esteve sozinho, Dino ficou na ponta dos pés e tirou desanimado o São Jorge de cima do freezer, enrolou o santo no pano encardido e o botou dentro dum engradado de cerveja vazio, perto do banheiro. Depois voltou pro seu lugar e viu a luz da manhã, que entrava pelo basculante.

***

Em seu interrogatório, Dino diria ao delegado que aquele porrete, de madeira de lei lustrosa e escura, um lembrete inútil de que o mundo era como era, já estava por ali, amarrado num barbante e pendurado num prego, quando ele entrou no bar naquela manhã igual a qualquer outra, disposto a fazer tudo o que fosse preciso pra ficar atrás do balcão, e confessaria que, tão logo tivesse visto o objeto, bem ao lado da caixa registradora, não tinha sido capaz de ignorar, nem mesmo por um segundo, sua maciça e manifesta presença.

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