Os risquinhos, as voltinhas e a interferência eletromagnética

Mainha fez no batizado de todo mundo, menos no meu. Não é difícil não, mas tem que escaldar direito, sabe? O de batizado, se escalda duas vezes. Tu refoga com alho, cebola, pimentão, tomate, coentro, cebolinho, cominho, colorau, miolo de pão os miúdo tudo e vai botando água de pouquinho, até cheirar pronto.

Joca, sentado na beira da porta, conduz a Honda Hot Wheels na pista de giz que sobrou da brincadeira de ontem enquanto escuta Edineia ao telefone. Faz questão de contar essa história toda vez que o assunto é bebê novo. Dona Rosa, a avó que ele não conheceu – meio cozinheira, meio bruxa, pelo menos era assim que a mãe a descrevia -, cortava o umbigo dos bebês da família em cubinhos pra escaldar duas vezes, refogar com o  pão, os miúdos do sarapatel e servir com farinha e pimenta no almoço de batizado da criança. Quem mastigasse um dos pedaços teria saúde e boa sorte pro resto da vida. Edineia sempre finalizava dizendo que deve ter comido pelo menos um. Vê mesmo meu menino e meu marido, ouro de lei todos dois. É ou não é sorte de muita? Ela dizia com o telefone em uma mão e a xícara de café na outra. Agora o meu batizado teve sarapatel não, tu acredita? Foi baião.

O menino tava pronto, tomado banho, com o boné do pai na cabeça molhada. Simão vai sentir cheiro de sarapatel mal escaldado da próxima vez que usá-lo, duvidará da própria higiene, tomará um segundo banho e depois var dar um jeito de jogar o boné fora. É que o cabelo tá crescido, passou da hora de arrumar, não tem jeito de fazer penteado, coça. O bichinho fica com vergonha. Pediu pra cortar faz duas semanas, mas dessa vez tinha que ser no barbeiro porque queria fazer um risquinho de lado, feito jogador de futebol. E teu pai vai gostar dessa papagaiada, Joca? Pois Joca consultou Simão. Simão deixou. 

Ela prometeu que levava, mas todo dia enganchava no telefone das 4h da tarde até perto de 5h. Acabava que escurecia, ficava perigoso. E depois, daqui que chegassem, o barbeiro já ia ter fechado. Se começar agora a conversa do baião, vai ser igualzinho. Bora, mainha. Peraí, Joca. Deixa eu só contar do baião, vá dar uma voltinha que eu chego já.

Edineia nasceu no Hospital Dom Moura em Garanhuns. Dona Rosa já chegou com as dores. Foram na Belina do dono do sítio onde o marido, pai dos seus 5 filhos mais velhos, trabalhava. Rosa fez força. Não pra parir, mas  pra segurar a menina que encontrou caminho fácil de saída e quase saia antes do carro estacionar na frente do hospital. O umbigo caiu no oitavo dia, uma quinta-feira. O batizado ficou marcado pro domingo. Mas na sexta de manhãzinha, o filho da irmã de Rosa foi internado no mesmo Dom Moura. Uma asma de chiado longo e fôlego curto. Não teve broncodilatador que desse conta. De tarde tiveram que entrar com ventilação assistida. Quando o menino começou a ficar confuso, a chamar o pai pelo nome do irmão e o irmão pelo próprio nome, mandaram buscar padre Zé Inácio. 

De um lado da cabeceira o pai/irmão arranhando a garganta de nervoso, do outro, a mãe chorando e rezando Ave Maria por cima da fala do padre e da tosse do marido. Do lado de fora do corredor, os irmãos e os primos. Zé Inácio rezou um Pai Nosso, tentou entrar no ritmo da Ave Maria soluçada da mãe do doente, não conseguiu, virou o vidrinho de óleo dos enfermos no indicador, passou na testa e nos pulsos do menino e disse baixinho, quase que com vergonha da incompetência divina:  “Por esta santa unção e pela sua piíssima misericórdia, o Senhor venha em teu auxílio com a graça do Espírito Santo; para que, liberto dos teus pecados, Ele te salve e, na sua bondade alivie os teus sofrimentos”. O amém com voz de coro infantil vindo do corredor entrou rasgando nos ouvidos dos de dentro do quarto. Na saída, o padre chamou o pai de canto e lhe disse que, por via das dúvidas, talvez valesse fazer um amuletozinho pra botar no pescoço do menino. Tinha ouvido, de não podia dizer quem, que asma braba se cura com o umbigo de uma menina nova amarrado em 3 voltinhas de linha vermelha, mas tem que ser menina e tem que ser umbigo recém caído. As crianças que iam com os olhos molhados e os ouvidos grudados na porta do quarto, gritaram o nome de Edineia. O umbigo chegou ainda na sexta de noite. No domingo, Simão, àquela altura com 9 anos, o ex-morto, como chamavam os parentes, comeu baião no batizado da prima. 

Foi padre Zé Inácio mesmo quem casou Edineia e Simão. Ele com 27 anos e ela com 18. No dia do casamento, depois do vinho da hóstia, o padre contou no altar o que agora chama de milagre. Mas depois da cerimônia, à boca pequena e já com vinho de festa na mão, dizia aos mais íntimos: eu achando que tava dando receita de amuleto, acabei dando receita de amarração. Dona Rosa mandou entregar no Dom Moura um umbigo com 4 voltinhas de linha, 3 pra asma e uma pra amarrar Simão em Edineia. Deu saúde e sorte de muita pros dois.

Joca adora essa história. Só não gosta muito de seguir com cabelo comprido. Menos ainda de ver a mãe falando com ninguém no telefone sem nenhum risquinho de sinal.

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