estranha confraria

Brota na minha mesa o camarada Victor Simião. A ocasião é o aniversário de um amigo em comum. O bar é a cópia exata de um botequim carioca que tivesse copiado um botequim paulista, o qual, antes disso, tinha copiado um botequim carioca. Em Maringá. Parece confuso, mas tenho certeza que você visualiza o conceito. Azulejos portugueses de mentira. Um nome que alude a uma mercearia, enquanto as mercearias mesmo morrem à míngua.

Éramos então (somos ainda) apenas semiconhecidos, em busca de escapar do constrangimento que é natural nessas situações, coroado pelo silêncio. Tentamos a maledicência – uma vez me disseram que nada pode unir mais duas pessoas do que falar mal de uma terceira (quem me disse isso era um tremendo bolha). Funciona por um tempo. Mas Victor não parece muito acostumado ao comentário maldoso. Nem eu. Juro. Tá rindo de quê? Ergo o braço e procuro algum garçom por entre as mesas, porém todos desapareceram.

– Mas diz aí, Bruno, o que você tá lendo? – pergunta o Victor, estabelecendo, com muito mais habilidade do que eu, um território em comum, algo sobre o qual podemos debater. Somos parte, afinal, desta estranha confraria, a dos leitores. Enquanto tento me lembrar dos volumes que abarrotam hoje minha sofrida mesa de cabeceira (a biografia do Oswald; Viva o povo brasileiro; crônicas do Corsaletti e do Antônio Maria; uns três do Wander Piroli, cacetada, que baita contista é o Wander Piroli, tinha que ser muito mais celebrado) e confesso que não, ainda não terminei o Anthony Bourdain, penso que as pessoas, mal ou bem, podem ser divididas assim, entre as que leem e as que não leem. Pigarreia o Simião:

– Cara, eu não consigo fazer isso, nem a pau. Leio um de cada vez. Se não for assim, acabo me confundindo todo, misturo os personagens, uma lambança.

Bom, não preciso nem dizer que isso tudo também acontece comigo. Achei que era assim mesmo. Fico em silêncio e ele continua:

– Tirando que dá uma puta ansiedade, né, você começa vários livros e depois não consegue terminar nenhum.

Hum, deve ser isso, então. Tá explicado. Vou pedir mais uma cachaça e cancelar o psicanalista. Crio uma subdivisão: entre as pessoas que leem, existem as organizadas (as obsessivas), que leem um livro de cada vez, tal qual Victor Simião, e as completamente caóticas (as dissolutas), eu. E o caso é grave.

Tem um livro na minha biblioteca que eu só leio quando chove. Na seca, fico às vezes estudando as nuvens do céu pela janela do escritório, com o coitado na mão. Tem outro livro que eu leio apenas no banheiro do trabalho, escondido. (Mas eu trabalho em casa.) Tem um pra ler andando na rua, conforme ensinou recentemente a Ana Lima Cecílio, tentando não morrer atropelado. Um livro que só leio em aeroportos, de pé, na fila do embarque. Quando viajo, a mochila leva sempre uns três ou quatro. Viagem internacional cinco. Ainda que não sobre tempo pra ler, gosto de tê-los comigo. Passeio-os por aí como bichos de estimação. Escondi, no sebo da Joubert de Carvalho, um romance de formação na seção de esotéricos, pra encontrar sempre que me perco lá dentro. Tenho um pra ler apenas quando falta energia, à luz de vela. Outro que só leio enquanto o feijão cozinha, embalado pelo xiquexique da panela de pressão. Um pra quando a Rannah e eu discutimos por besteira, que é a única coisa pela qual discutimos, e vou dormir no sofá. Durmo e sonho com um livro que só leio no sonho. Acordo e encontro um livro do qual nem me lembro, não sei em que situação o estava lendo, e cujo marca-páginas caiu no chão.

Nada disso eu conto pro Victor Simião, com medo do que ele vai pensar de mim. Ergo mais uma vez o braço e procuro um garçom por entre as mesas, porém todos desapareceram.

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