Meus Semelhantes 4

DOIS DIAS E UMAS FOTOS

 Um canto esquecido

Há tempos, do tríceps lateral, reparo numa balança sob a janela à esquerda da entrada. Tão esquecida que nem mesmo a faxineira tira o pó. Hoje fiz uma foto e, como fundo da imagem, o pequeno jardim interno. Entre as babosas e uma touceira de espada-de-são-jorge, um suporte vazio para enrolar mangueira esquecido como um brinquedo no quintal. Antes de ser uma academia, o lugar foi uma casa, daquelas grandes, cheias de cômodos. É mais uma representante das camadas de atividades comerciais que se sobrepõe sobre as residências. Neste caso, não mudou muito. Começou academia e continua academia. Diferente da loja de bolos, que vira borracharia e então açougue até ser alugada por uma rede de farmácias. Penso que, se houvesse mesmo uma mangueira, enrolar ou desenrolar o tubo de borracha iria fortalecer os braços do jardineiro e que a balança suja é tão útil quanto o suporte vazio. Por ali, ninguém se pesa e ninguém faz foto ou vídeos para postar no Instagram. Os poucos espelhos ficam num único trecho de parede um pouco à direita e à frente de quem chega. Não fossem os professores que usam os halteres ou um outro aluno mais evoluído nos treinos, os espelhos poderiam ficar tão empoeirados quanto a balança. Não ficam porque são muito visíveis e são limpos dia sim, dia não ou todos os dias por que só o vejo nos meus três dias sim. Poucos se miram, mas qualquer olhadinha distraída seria capaz de notar o pó. Por lá estão sempre limpos, garanto sem fazer foto. Não pegaria bem qualquer espécie de autorretrato no espelho.

Nas academias,  os espelhos são utilizados para permitir que as pessoas corrijam a postura durante os exercícios,  para criar sensação de amplitude e iluminação e servir à motivação quando o praticante observa seus progressos. Aos menos dedicados,  esta última função pode exercer um efeito contrário. Olha eu ali do mesmo jeito. Na prática, servem bem mais como cenário para fotos e registros, função, que não poderia ficar de fora nestes nossos tempos de imagens. Que arrojo, uma academia sem espelhos ou que tragédia um espelho estilhaçado refletindo corpos disformes com espécies de escamas.

Como ninguém faz fotos, o medo de ser flagrada resultou em algumas imagens estranhas e possíveis. Carregar o celular durante o treino foi um estorvo parecido com transportar as anilhas de vinte quilos com um braço só.

 Uma pista

Com um zoom pude ver melhor a poeira, a marca da balança, a sombra, luz ,  de novo a sombra formando listras no piso. A poeira no vidro preto, no entanto, tinha a marca de uma sola. Pensei errado. A balança tem utilidade e talvez  seja só eu que nunca tenha visto alguém usando. A marca é recente. Alguém do horário anterior, alguém do meu horário.  Estranho que não são marcas regulares. À direita, todo o desenho da sola, à esquerda uns traços mal definidos como se ao pisar, o usuário tenha desistido com medo de encarar os números.  O que é o ideal? Pesar antes? Pesar depois? Pesar vestido vale? Que desconto dar para a roupa e para os tênis? Pesar sem os calçados dá mais trabalho, mas não parece  uma atitude indiscreta a menos que as meias estejam furadas ou os pés tenham mau cheiro.  Só de meias, a balança ficaria mais limpa. Não tenho vontade de me pesar. Faço isso em casa, no segredo do banheiro.

Coisas redondas

 Antes do recorte que fiz na foto para preservar o Moço da Barba Ruiva, o que mais se via na cena eram objetos circulares: as muitas anilhas, as peças de decoração na parede, os óculos do John Lennon na camiseta da Legítima Francesa. O recorte empobreceu o que a imagem sugeria de mais interessante. De quadrado, só o relógio de ponteiros indicando quase o fim da aula.

Coisas à venda

       Descobri que os handgrips organizados numa caixinha não eram objetos à venda no dia que vi o Homem da Máscara Cirúrgica apertando e soltando a mola. A cor de cada uma determina a intensidade da força que se deve usar. Na minha planilha de treino, este aparelhinho não entra, assim como  outros e um específico que lembra as asas de um pássaro e sem muita surpresa recebe o nome de “flying”.   A máquina é bonita e deve proporcionar uns movimento interessantes. Nunca vi ninguém usando. Bem que eu queria e queria também ter feito uma foto, mas impossível  ser discreta com um equipamento tão grande. Ele me passa a sensação de que os movimentos se assemelham àqueles feitos no chão por um pássaro grande antes da decolagem.

 Furos

        Não há qualquer nome mais técnico para os furos que determinam a distância dos encostos das cadeiras. Os furos se chamam furos e estes da foto são os nove que determinam a minha distância para usar a cadeira adutora e abdutora. As pessoas altas, precisam de poucos furos e esta foi a foto mais fácl de fazer.

Deixe um comentário