Tinha perdido Rafael de vista no primeiro cruzamento da Santa Rita e agora, a dez minutos das cheias, precisaria esperar dentro do Bar do Cabelo até que a rua esvaziasse de novo. A avenida não era tão extensa quanto os nativos alardeavam, mas a superfície ondulada por pequenas ladeiras tornava a paisagem disforme, escondendo a procissão em camadas entre seus declives. Rafael se desgarrara dele na fila do banheiro químico, quando foi atrás de um professor da faculdade que passava cambaleando, escorado nos ombros cambiantes da multidão. Marcelo chegou a ver Rafael se fundindo ao fluxo e não pode afastar a imagem dos pedaços de osso e cartilagem bovinos achatados por chapas no fim de uma esteira, onde viravam hambúrgueres no frigorífico Las Vacas Gordas, do também gordo Jesús, cabeça da maior gangue do seu país. Dizia-se que os restos de carne dispostos na linha de produção do frigorífico não eram só bovinos, mas ninguém deixava de comê-los, inclusive Marcelo, que os conseguia de graça por causa de seu irmão mais velho, Augusto. Outra imagem que ninguém é capaz de apagar é a de Augusto chegando em casa e deitando o coldre com o revólver na mesa de metal com a logo da cerveja Barena – trazida do bar Perla Negra, desapropriado pelo próprio Augusto a mando de Jesús – antes de abrir a mochila e despejar as dezenas de discos de hambúrguer que trazia do trabalho toda sexta. Depois era só fritá-los na panela com óleo que estava sempre ali, dentro do fogão, e metê-los dentro dos pães e abrir a garrafa de dois litros de Coca-Cola, que matavam entremeando longos e prazerosos arrotos na noite caribenha.
À medida que descia a porta de metal, Cabelo aumentava, com a outra mão, o volume da televisão pregada na parede do bar. Já estavam acostumados com as cheias naquela época do ano, no entanto o barulho das patas e dos guinchos continuava aterrador. Estava protegido, mas era melhor não ouvir o que acontecia lá fora – no que acontecia com Rafael, se não tivesse conseguido abrigo nos outros bares da rua. Tinha tentado ligar para o amigo, mas não havia sinal lá dentro. Restava esperar. Em meia hora, como acontecia todo ano, as manadas de ratos teriam seguido para a próxima cidade e os caminhões-tanque da prefeitura começariam a limpar a rua com seus jatos d’água, escoando os animais mortos para as canaletas. Em seguida, as ambulâncias recolheriam quem não conseguiu abrigo a tempo e foi pisoteado ou mordido – em geral os muito bêbados – e a procissão voltaria a se juntar. A linha de frente ressurgia com a imagem da santa e a acomodava na caçamba do carro e a multidão puxava o canto. Os ambulantes acompanhavam os fiéis tentando equilibrar os carrinhos-de-mão no piso de pedra da rua, erguendo as latas de cerveja e as garrafas de cachaça acima das cabeças. Em cada quadra que passava, a corrente humana absorvia os espectadores das casas vizinhas, carregando o ar de álcool e suor. Dentro do bar, os ventiladores tentavam extirpar a umidade, mas o ar quente só se mudava de um canto para outro, pois a menor fresta já seria suficiente para os ratos comuns entrarem.
Marcelo encontrou uma mesa vaga nos fundos e se sentou. Pegou uma garrafa de cerveja no freezer, um copo e acenou para o Cabelo anotar na comanda. Do outro lado do bar, debaixo de uma luz pálida, quatro sujeitos em volta de uma mesa jogavam truco. Viravam doses de cachaça e batiam as cartas na superfície enferrujada, produzindo um estampido metálico que ecoava no teto alto, trançado por vigas de madeira. Reconheceu um deles, Diego, o magrelo de cabelos chupados num rabo de cavalo. Ele acendia o cigarro de palha toda vez que baixava uma carta. Trabalhava no departamento como secretário de coisa nenhuma – tudo o que fazia era vagar pelo prédio de setor em setor, filando o café açucarado das secretarias dos cursos. Mas já deve ter visto Marcelo andando com Rafael nos intervalos das aulas e talvez tenha trombado com o amigo na procissão antes de entrar no bar. Levantou da cadeira com seu copo de cerveja para abordá-los, mas parou no meio do caminho. Dizer a Diego que se perdeu de Rafael talvez complicasse ainda mais a sua vida. Diego, porém, tinha parado de jogar e olhava para ele no meio do salão. Os colegas de carteado também encaravam Marcelo com os olhos apertados de quem joga com os segredos dos outros. Como se sua condição algum dia tivesse sido, desde que chegou fugido na cidade, um segredo para alguém.
Fala, mexicano, Diego disse, puxando um cigarro novo do maço. Que ideia, pensou Marcelo, que ideia me enfiar aqui. Se até hoje não acertam meu país. Serviram mais cachaça e firmaram os copos na mesa, que começavam a se mover com o avanço das manadas lá fora. Vai ficar parado aí que nem um dois de paus, Diego gritou por cima das cartas. Marcelo avançou mais um pouco, até ficar a um passo da mesa. Estou procurando o Rafael, disse, com a voz menos hesitante que encontrou. Porra, mexicano, respondeu um outro, sentado ao lado de Diego, um homem velho com um boné de propaganda vermelho. Quer dizer que o doidinho escapou. Os quatro sujeitos riram e o que riu mais alto foi o próprio velho. Diego foi o único a fechar os olhos, numa contrição falsa. Deve ter contado tudo aos colegas quando viu Marcelo se sentando perto deles: Este aí é o mexicano, a babá do doidinho filho da professora, leio seus relatórios de bolsista e sei que não escreveu nenhuma linha. Marcelo já tinha ouvido esse tipo de conversa nos corredores do departamento. Ele passava com Rafael e as pessoas desviavam o olhar, cochichavam. Este aí é capaz de se formar sem saber português. Marcelo sabia português, tinha aprendido a se virar em menos de um ano, mas, de fato, quem traduzia e reescrevia os relatórios era Rafael, um aluno brilhante quando não estava em crise. Diziam que Rafael tinha uma tia louca vivendo amarrada num quarto de uma das casas da família, ninguém sabia qual. A loucura era hereditária, estava na família do amigo há várias gerações, como o mal das gangues na sua. O caso de Rafael era pior, pois um louco em potencial é sempre mais perigoso.
Enquanto virava sua cachaça e batia as cartas na mesa, o velho continuava a encará-lo. Marcelo terminara de beber a cerveja, mas algo o mantinha ali de pé, diante do carteado e dos mosquitos que os rondavam, pesados de sangue e fumaça. Que dupla, o maluco e o mexicano. Não sei quem é pior. O velho ria e cutucava Diego. Ainda faltava um tempo até as cheias passarem e o trabalho de limpeza começar. Marcelo pensou em Augusto, se era esse o tipo de coisa que lidava no Las Vacas Gordas, afinal ninguém vai para um frigorífico armado se o maior perigo for um coice de boi ou de máquina de modelar hambúrguer. Devia encontrar sujeitos como aqueles, acostumados a jogos de sorte e azar, a gritos, risadas vulgares e estampidos metálicos. Se tivesse amigos como Rafael talvez não precisasse trabalhar para Jesús e, naquela noite mesmo, depois de sair do Bar do Cabelo, fosse encontrá-lo num supermercado para comprar seus próprios hambúrgueres.
O pior era não saber. Como acontece nestes casos, uma noite Augusto não voltou para casa. A certa altura da noite, Marcelo ficou com fome e comeu dois hambúrgueres sobrados no congelador. Em pensamento xingou o irmão, que devia estar com alguma puta numa palafita qualquer cheirando cocaína e atirando para o céu. Teve que comer os hambúrgueres sem a Coca-Cola que Augusto trazia. Quando o próprio Jesús o acordou de manhã e o levou num carro apenas com a roupa do corpo, entendeu que o irmão começava a se tornar uma lembrança. No dia seguinte chegava ao Brasil, carregando um maço de dinheiro suficiente para um mês e um documento de identidade que nunca tinha visto.
Está esperando o quê, mexicano, a mãe voltar da zona, continuou o velho, enxugando outro copo de cachaça. Agora os outros jogadores não riam com ele. Olhavam para Marcelo com alguma reserva, talvez por causa do copo que apertava na mão direita. Na parte da frente do bar, assobios e gargalhadas anunciavam os intrusos correndo pelos cantos do piso. Cabelo abaixou o volume da TV e saiu detrás do balcão com um porrete. Os ratos se embrenhavam debaixo das mesas, enlouquecidos, e algumas pessoas subiam nas cadeiras enquanto Cabelo marretava os infelizes que não achavam uma rota de fuga. Marcelo dirigiu as palavras a Diego sem tirar os olhos do velho: Faz ele calar a boca. O carteado parecia arrefecer, lentamente, como se o ar tivesse faltado dentro do bar, mesmo aquele ar fétido e viscoso que os alimentava desde o início das cheias. Manda ele parar, Marcelo repetiu. O velho abriu um sorriso amarelo e olhou para os colegas. Fez menção de encher o copo de cachaça, mas a garrafa estava vazia. Por fim, gargalhou da sua própria sorte. Já não dizia nada quando Marcelo avançou gritando: Por Deus se não vai calar a boca.
