Embora estejamos todos na Bienal, aquele verniz de cultura – “O que tu fez esse fim de semana?”, “Quem? Eu? É comigo? Ah, passei o sábado na Bienal, você já foi claro, né? Não foi? Nossa, tem que ir”, – estamos na fila do banheiro. E fila de banheiro é fila de banheiro na Bienal, no carnaval, na rua, na chuva ou na fazenda. Pois bem, eu, uma menina de uns 15 anos na minha frente e uma de uns 30 e poucos na frente dela. Atrás de mim para uma mulher meio que da minha idade. Ela faz menção de checar o tamanho do problema, se inclina para um lado, se inclina para o outro. Somos só nós 3 mesmo.
Prontamente, a doida de 30 e poucos faz que venha. “Senhora, pode passar na minha frente, a senhora é preferencial”. Ela ama a palavra “senhora”. Isso dito assim, balançando um rabo-de-cavalo de quase um metro, com bastante volume (não de cabelo, deve ter no máximo uns 10 fios, volume de voz mesmo). Aquele silêncio de exposição e “Senhora, se a senhora for esperar essa gente toda, capaz da bexiga da senhora não aguentar”. A mulher fica tão indignada com a chamada que a própria bexiga levou que obedece. A de 15 também não sabe o que fazer mas sente com vergonha de discordar. Aos 15, passou de 40 é tudo senhora.
Aquilo me entra rasgando o ouvido. Porque, veja, fila de banheiro tem regras muito claras:
1. Preferencial é preferencial e ninguém precisa dar lugar. A pessoa passa na frente a acabou; 2. Mas se ela for tímida ou discreta, quem está na fila, dá só uma afastadinha que nem a gente faz no trânsito com ambulância; 3. Só que preferencial, se for por idade, é depois dos 60, isso pra banheiro ou pra qualquer outra coisa; 4. Ninguém tem que sair de casa pra ficar tentando adivinhar a idade de seu ninguém, a regra número 2 só vale se for tipo Mun-rá ou Matusalém, uma coisa assim que não deixe nenhuma dúvida, nem uma vírgula de dúvida; 5. Cada um cede seu próprio lugar na fila, meu lugar é meu, teu lugar é teu. Você só manda passar na frente quem está atrás de você; 6. Não se menciona a bexiga de ninguém em público, a não ser que você seja urologista e esteja no seu consultório, e essa também vale pra banheiro ou pra qualquer outra coisa; 7. Não se faz barulho de água corrente com a boca e se lava a mão bem, mas rápido. A depender do tamanho da fila, bexigas de fato podem precisar fazer grande esforço para se aguentar. Não foi o caso, mas achei que valia a menção.
Tudo isso pra dizer que conheço a mulher que foi forçada a furar a fila, acabou de fazer 50 anos, festão. Sigo a danada no instagram, é fisioterapeuta do assoalho pélvico. Das melhores. Essa bicha deve ter uma bexiga 10 vezes mais forte do que a da rabo-de-cavalo-ralo-ai-como-ela-é-boa-gente, do que a minha, do que a tua e se brincar do que a da menina de 15 anos. Ah, sabe? Faça-me o favor. Deixem as bexigas dos outros em paz, mas pratiquem exercícios do assoalho pélvico, certo?

