Com a boca seca, o corpo completamente encharcado, a alma um tanto quanto úmida, Martim amanhece em seu colchão viscoso de mucosa e sal. Amanhece é uma palavra imprecisa, que atende sobretudo à precisão de reconhecer o tempo que existe fora de sua casa, fora de seu colchão viscoso de mucosa e sal, fora de sua parede filtrante de sedosos e cerdáceos pilares de marfim, fora de seu abobadado teto de palato, em cujo cume há um orifício que vez em vez vaza vestígios vertiginosos e derivantes de luz. Martim amanhece, anoitece, entardece sempre e nunca, e o líquido que escorre ao seu redor, por cima e por baixo de si, percorre sua pele, permeia seus pulmões e ossos, seu escalpo calvo liso em limo, seu púbis repleto de alga e plâncton, seu molusco macilento e espiralado feito amonita no meio das pernas, todos os seus membros, e permearia e escoaria até mesmo por sob suas unhas se ainda as tivesse. Seco apenas dentro de sua boca, seca sua língua de lixa, secas suas gengivas com 32 cavidades de onde brotaram e pereceram e caíram e se perderam e se afundaram em seu colchão viscoso de mucosa e sal seus 32 dentes. Dentro de sua casa é todo tempo e tempo algum e, portanto, Martim simplesmente desperta.
Desperta com a boca seca, o corpo completamente encharcado, a alma um tanto quanto úmida, ao som que vem de seu abobadado teto de palato, onde, para além do cume com o orifício que vez em vez vaza vestígios vertiginosos e derivantes de luz, badala a úvula maior que o maior sino da maior catedral do mundo. Ao primeiro badalar da úvula, Martim se levanta de seu colchão viscoso de mucosa e sal, vasculha o chão do colchão, encontra restos resolutos de krill e outros projetos de camarão, os enfia na boca seca e os despenca pela garganta sem auxílio ou esperança estéril de saliva. Ato contínuo, cola o corpo no rodapé de mucosa de dois pés de altura entre seu colchão viscoso de mucosa e sal e sua parede filtrante de sedosos e cerdáceos pilares de marfim, de muitos mais pés de altura, se esfrega contra a mucosa, faz brotar um líquido dela e o sorve com sua boca de ventosa a água não salobra da saliva da casa. Ato contínuo, expele por seus dois orifícios inferiores líquidos de distintos tons de marrom sob os vestígios vertiginosos e derivantes de luz. A úvula badala outra vez, mais firme, badalante e ressonante que antes, abalando todo o chão sob seus pés. Ele interrompe a sucção de sua boca de ventosa e enterra o rosto em um sulco em seu colchão de mucosa e sal onde antes houve carne de sua casa e que foi sulcado por uma faca que antes houve, no longínquo momento em que tomou posse de sua casa, um momento tão longínquo quanto a origem do mar.
A porta de sua casa se abre e toneladas de água salgada invadem sua soleira, seu chão, seu colchão viscoso de mucosa e sal, e lavam e levam seus líquidos de distintos tons de marrom para o fundo profundo de sua casa, para além de seu teto abobadado de palato e para além da úvula, que não mais badala. Justamente nessa hora da manhã, da tarde, da noite, de todo tempo e tempo algum, badala a úvula pela segunda vez e Martim crava os dedos em seu colchão de mucosa e sal e crava o rosto no sulco em seu colchão de mucosas e sal. Enquanto o que parece ser todo o mar do mar encobre sua casa, suas costas, suas orelhas e sua nuca, Martim expele apenas de sua boca seca, pois suas narinas são recifes de algas e musgo, um bafo abissal e aspira o único ar seco, pois não inundado, embora implacavelmente úmido, que resta no sulco de seu colchão de mucosa e sal, sulcado por uma faca que há muito foi lavada e levada pela água do que parece ser todo o mar do mar. É o que Martim faz, todo o tempo e tempo algum: porém justamente agora, que não é nem todo tempo nem tempo algum, algo se solta. Ele espera a água do que parece ser todo o mar do mar escoar, retira seu rosto do sulco em seu colchão de mucosa e sal, sulcado por uma faca que há muito foi lavada e levada pela água do que parecer ser todo o mar do mar, e percebe que algo foi trazido. Estirado em seu colchão de mucosa e sal, está, inerte, terreno e aterrador, um corpo estranho que destoa de toda a sua casa, destoa de todos os poucos vestígios vertiginosos e derivantes tons de luz que vazam do orifício no cume de seu teto abobado de palato.
O corpo de uma mulher. Não se vê escalpo calvo liso em limo, apenas cabelo. Seu púbis não está repleto de alga e plâncton, tampouco se vê molusco ou concha. O corpo está coberto por uma roupa de borracha. Na pele do pescoço, das mãos e dos pés, apenas gotículas de água. Grudado na roupa de borracha, na altura do peito, um colete salva-vidas. O corpo totalmente inerte e, na mão tesa, um remo de madeira. Martim subitamente se sente seco. Levanta e quase se afoga em lembranças de algum tempo que não mais existe. Mas que se encontra estirado no meio de sua casa. Martim salta sobre o corpo da mulher. Aperta muitas vezes seu peito. Abre sua boca úmida de saliva doce e sopra nela com sua própria boca seu bafo abissal. A mulher convulsiona, tosse e cospe. Martim finalmente pensa que nunca quis tanto ver água como agora. Martim finalmente pensa. Mais que isso, imagina. A mulher vai falar, vai reensiná-lo a ouvir e a falar. Vai lembrá-lo que essa não é a sua casa. Vai usar o remo para escancarar a bocarra e retirá-lo desse bicho. Vai embarcá-lo em sua canoa e levá-lo a uma praia com sol. O sol vai secar suas algas, sua cabeça calva, sua alma. E a mulher vai lhe apresentar uma canção cantada em uma voz com cheiro e gosto de jardim:
E ele diz que se chama Jonas
E ele diz que é um santo homem
E ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria
A mulher cospe mais e tosse mais. Abre os olhos. Seus olhos são olhos de terra. Vê a figura esverdeada de Martim. Arregala os olhos. Tosse. Treme. Morre. Seus olhos não são olhos de terra. Seus olhos são olhos de peixe.
Com a boca seca, o corpo completamente encharcado, a alma um tanto quanto úmida, Martim não amanhece mas desperta em seu colchão viscoso de mucosa e sal, posto que estão restaurados todo tempo e tempo algum, não sendo preciso sequer tentar precisar o tempo que existe fora de sua casa, pois nada deve existir fora de sua casa. Dentro de sua casa, badala a úvula e Martim enterra seu rosto no sulco de seu colchão de mucosa e sal, sulcado não importa como, muito menos quando, e respira o resto de ar seco embora implacavelmente úmido do sulco enquanto a água do que com certeza é todo o mar do mar inunda, lava e leva seus líquidos de distintos tons de marrom, os restos de krill e plâncton, o remo de madeira, o corpo da mulher içado pelo colete salva vidas e toda e qualquer miragem de sonho de viver à deriva, perdido e desamparado, fora de sua casa. A água escoa e lança todos os restos pela garganta de sua casa, mas martim permanece entre a gengiva e o lábio, e Martim volta a se deitar em seu colchão de mucosa e sal e Martim volta a dormir, tranquilo, tendo como único pensamento que: seu lar é sua âncora.
