A bênção de Noé – Yan

A bênção de Noé 

Deus ouviu a minha prece. Depois de dois meninos pouco parecidos, Deus ouviu a minha prece. Camilo nasceu com cara de joelho. Um joelho esticado, que é muito diferente de um joelho dobrado. Joelho dobrado é todo redondo, face esférica, semblante plano. Camilo não, pois sim. Nasceu com a cabeça já anguladinha, dava pra fazer diferença do que era testa e do que era queixo, do que era cenho e do que era beiço. Não era ainda a minha cara nem a de ninguém, mas era a cara de um joelho expressivo. Mal saiu dos braços da mãe e veio pros meus, já me deu o sorrisinho ousante, pela dobra do dobrado, prenúncio de deboche e escárnio.

Quem sai aos seus não degenera, é o que dizem. Pouco antes de fazer um ano de idade, Camilo já era a minha cara e a minha cor. Cara inteira e desdobrada. Mais que Samuel e mais que Jeferson, parecia em tudo comigo. Menos no deboche e no escárnio, claro. Tinha os olhos de assum preto e falava um nada quase. A voz enfiada num onde não sei. Começou a andar cedo, as perninhas e os bracinhos de ser livre. Cabelo cheio e denso de se prender abelha, folha e carrapicho. Boca de carrapato nos peitos da mãe todo tempo. Passou um muito pouco, já olho comprido pras filhas dos vizinhos e pavio curto pra pirraça dos irmãos. A minha cara, sem tirar nem pôr.

Tirando só que eu, em idade nenhuma, pus algum senão nos ouvidos de meu pai. Samuel, olhos de cavalo, e Jeferson, olhos de padre, sempre foram de me dizer sim-sim. Camilo já começou dizendo meio-sim, depois sim-não, depois nunca-sim. Veja, ele não dizia nada antes. Foi só eu começar a pôr regra que tirou a voz do bolso pra me soar desdito. A mãe ouvia voz toda tristeza, eu ouvia toda atrevimento. Cresceu gostando mais do livro que do milho, mais da mãe que de mim. Largou mão do tato dos grãos e dos bichos e, nessa era de lavoura moderna, se engraçou com o trator do patrão. Disse que queria terminar a escola e estudar motor. Pense.

Eu pensava enquanto ele crescia que mais cedo ou mais cedo ia acabar restando de mim só a cara. O bigode de respeito já engrossando, a lábia com as mulheres já salivando c sempre com respeito, claro — e o olhar firme de encarar trabalho. No resto, um quase nada sempre menos. Respeitei gostar mais de motor que de terra, o importante é gostar de trabalho. Mas comigo, um nada-nada a respeitar. Falava grosso e alto, discordava do meu jeito com a mãe, marido e mulher, veja bem, juntados por Deus e que nem Deus separa ou repara. E ele botando aparo em tudo, com aquela voz que a mãe ouvia tristeza, até desamparo, eu ouvia toda atrevimento e até desafio. Até que num dia de colheita farta eu celebrei — como meu pai dizia: farra e garrafa aumenta a próxima safra. Celebrei, ceguei um pouco, serpenteei um muito, trupiquei com o Rosinha de trás do barracão das frutas. Camilo passou de trator e me viu com a boca no caju. 

O que um filho bom, que honra a cara do pai e portanto a sua, fazia? Fechava os olhos e mudava caminho, dava as costas. Ele fez foi usar a voz atrevida e endiabrada pra me chamar os nomes mais traseiros, me deu as costas e foi queixar pra mãe e pros irmãos.  Samuel, olhos de cavalo, me encontrou deitado nu no barro e me cobriu o lombo como quem sela com carinho o animal cujo lombo o sustenta. Jeferson, olhos de padre, me confessou na manhã seguinte o pecado de Camilo.

Acordei mais desgostoso que mordida em castanha verde. Meu filho caçula, minha cara, era também a sica no meu peito e na minha cabeça. Devia amar, respeitar e temer o pai sobre todas as coisas, tanto quanto a Deus ou até mais. Mas é nada. Não dava jeito falar nada, a resposta ia só vir em sorriso de deboche e escárnio, o maior deboche e o maior escárnio no maior sorriso. Não dei pisa, era capaz dele devolver uma mais bem dada e pisada. Fiz foi correr de casa. Como nunca fui de cuspir no prato que eu mesmo preparei, disse:
“Deus te abençoe e te leve pra bem longe. Tu não me volta aqui mais nunca”.

E Deus ouviu minha bênção. Ele foi-se embora pra cidade, montou oficina, consertou trator, moto, pampa e tudo que tinha roda sem ser carroça. Fez dinheiro, juntou com uma moça que Samuel, Jeferson e a mãe diziam muito boa. Casou e a mãe insistiu pra eu ir. Neguei, mas a mãe chorou e jurou que ele pediu pra eu ir. Fui, porque não tem nada que a mãe me pede chorando que eu não faço chorando. Não chorei quando vi minha cara, formosa e feliz, num terno no altar. Não chorei quando ele me olhou no fundo de seus olhos de assum preto no fundo dos meus olhos de assum preto, sorriu um sorriso com deboche nenhum e escárnio nenhum. Não chorei quando ouvi a voz com tristeza nenhuma e atrevimento nenhum:

“Muito prazer. Fica à vontade, a casa é sua”.

Não chorei, mas tive vontade. A casa não era era minha, a voz não era pra mim. A mãe falou, “é teu pai, menino”, e nada de reconhecer. Custei custoso de entender e atinar. Não era pirraça: ele não me reconhecia no tutano da verdade. Jurava que nunca faria desfeita dessa, jurava nunca ter me visto. Acabado o casório, peguei três caronas até a oficina, ele de novo se apresentou e muito prazerou. Não reconheceu. Pense. 

“Eu sou teu pai, Camilo”.

Ele pediu desculpa e disse que nunca me viu na vida. Perguntei como era o pai dele. Ele encabulou e disse que não lembrava. Pensei, se olhava no espelho Camilo também não se reconhecia? Deve ser que reconhecia, pois nasceram seu três filhos, cada uma mais a cara dele que outro, todos quase mais a minha cara que a dele, e ele bem sabia que eram seus filhos. Fui visitar cada um, cada vez ele se apresentava, se encabulava: nunca me conheceu. A mãe dos filhos dele se encabulava mais, toda vez lembrava, toda vez explicava, “é teu pai, homem”, vez nenhuma ele reconhecia.

Cresceram os filhos dele. Todos a minha cor e a minha cara. Todos quase mais a minha cara que a dele. Eu visitava na crisma, na comunhão, na consagração. Todos a minha cara, nenhum reconhecia a minha cara. Sorriam sempre todos, Camilo e os três filhos de Camilo, com escárnio nenhum e de boche nenhum. Diziam todos na voz com tristeza nenhuma e atrevimento nenhum: nunca me viram na vida, nunca me ouviram na vida. Só quem me ouviu foi Deus.

Deus ouviu a minha bênção e me amaldiçoou.

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