Dúvida

Roberto Efrem Filho

Como é, Madalena? Tu quer que teu filho fique morando aqui comigo?

Arlindinho vai seguindo os carros com o dedo indicador da mão direita. Mas só os que saem do Derby em direção ao centro da cidade. Eles aparecem na cabeça da Conde da Boa Vista e vêm descendo devagar, carro grande, carro pequeno, tem Kombi também e rural. Quando cruza a Soledade, o ônibus elétrico, preso no cabo, faz um barulho de fim de mundo, ameaça desmanchar. Ô motorista, se nós fosse gado o senhor dirigia com mais cuidado, nera não? Do lado de fora, uma senhora bate na lataria quente, quer entrar. Do lado de dentro, a gritaria é tanta que, do décimo andar, na janela do apartamento de Elisabete, Arlindo é capaz de escutar a rebu. É uma massa informe e peguenta, mais mormaço que som. 

Madalena, isso não dá certo. Eu sou puta, Lena, P U T A, puta.  

O menino não compreende, é verdade, mas gosta de assistir. Mal o ônibus acelera, um carro laranja canta pneu na esquina e ultrapassa o sinal, parece que advinha, um instante antes de um caminhão atravancar a avenida de um canto a outro. A carroceria do bicho é alta e se prende no sinal, que segue arrastando junto a barraca de uma mulher, eita bexiga, que vai doida correndo no meio da avenida, os dois braços pra cima rogando a Jesus, perigo a ambulância atropelar. Arlindinho pensa que ela é crente e, curvando o corpo no parapeito pra ver melhor, aponta cumprido o dedo pra confusão, como quem tenciona mostrar. 

Madalena, eu nunca criei nem cacto, como é que eu vou dar conta, sozinha, de uma criança de oito anos? 

Minha nossa senhora, Arlindinho, desça daí, desça. Cair daqui de cima é morte certa. Te apruma, pelo amor de deus. O menino desce do sofá e dá as costas pra janela. Madalena vê o filho contra a luz. Que hora é essa, mainha? Já vai dar quatro. Tá com fome, né? Arlindo encara a mulher sentada ao lado de sua mãe. Uma hora atrás, quando ele e Madalena entraram no apartamento, Elisabete disse muito prazer, Arlindo, eu sou tua tia. Arlindo estranhou. Era a primeira vez que vinha no Recife. Não conhecia ônibus elétrico, nunca tinha visto uma avenida, quanto mais esse monte de carro, um atrás do outro, gente pra dar cum pau, barraca voadora e uma tia de que ele nem tinha notícia, no caminho pra cá existia só um tio e priu. Agora essa mulher que ele não entende se levanta, monta ligeiro na cozinha um prato com feijão, arroz, ovo estalado, e torna pra mesa. Coma aqui, Arlindinho. Mais tarde eu faço algo melhor pra vocês. O menino fecha a mão direita em torno de uma colher e se enverga sobre a comida. 

Me diga, vá. Nessa vida que deus me deu, dentro dessa quitinete do tamanho de uma caixa de fósforo, como é que uma criança vai morar comigo? 

Ô Lena, e aconteceu mais o quê? Aconteceu que nós juntou uns duzentos morador e bateu na porta da delegacia de Gameleira. Eu pedi pro rapaz chamar o delegado e acho que ele se assustou de um jeito que atormentou o hômi. Veio todo desconfiado, disse nem bom dia, queria logo saber se era greve, sindicato, liga camponesa rebentando de novo. Eu tomei a palavra e disse que não, senhor, é que teve um tiro no canavial. Um tiro como? Um tiro, dotô, um tiro de revólver. Vocês tudo vieram aqui pra dizer que teve um tiro no canavial? Dotô, é que quem atirou foi Seu Afrânio. E Afrânio atirou em quem? 

Não, Madalena, tu me vê sentada nessa mesa fazendo tarefa de casa, por um acaso?

Eu vinha com Arlindo na mão, escondido atrás da minha saia, gaizo, tremia de medo. O menino era o único ali que tinha visto o morto ainda vivo, mas uma dúzia mais de morador viu o morto já morto. Assim que a gente chegou montado no sítio de Seu Ataíde, vizinho nosso, a história do tiro correu e, com uma hora, tinha já uma comissão entrando no canavial. Tudo o que Arlindo me dizia é que Seu Afrânio tinha atirado num rapaz. Corre, mainha, corre, mainha, corre, mainha. E chorava. Na frente do delegado, nem isso ele quis dizer, nem eu achei que ele devia, nem ninguém mais resolveu falar. Caso é que o delegado achou a história mal contada e mandou nós deixar pra lá, ir pra casa. É dia de feira em Gameleira, a cidade vem cheia e sempre tem bronca pra polícia resolver. Vocês tão falando de crime, crime tem que ter materialidade, minha gente, se Afrânio atira, isso por si só não é crime. Foi aí que o menino mais velho de Seu Ataíde contou que tinha um corpo. Materialidade é isso, dotô? Um corpo de homem nu no canavial. 

E se o menino adoecer? E se pegar sarampo, catapora, papeira? Sei nem pra onde vai, Madalena. 

O cadáver tava nu, Lena? Eu mesma não vi. Mas os filho de Seu Ataíde viu. O delegado, depois que voltou na viatura, disse que viu também. Foi então que, perguntando a um, perguntando a outro, ele descobriu que quem sabia certo o que aconteceu era Arlindo. E explicou que precisava de um depoimento. Por conta disso, eu entrei mais o menino na delegacia. Tu já entrasse numa delegacia, Elisabete? Entrei sim, Lena. A primeira vez foi quando mataram pai. Ainda envergado sobre a comida, a colher na mão direita, Arlindinho gira o olhar para a tia. A pior coisa é a pessoa sentir que tão duvidando de você, minha irmã. Alguém matou alguém, tu quer dizer o que tu sabe, e ali, na frente da polícia, a dúvida que colocam na gente é tanta que é quase como se não tivessem matado. O corpo tá morto, ninguém matou. E se a gente insiste na verdade, se luta pra dizer quem matou e lembrar quem morreu, é como se a gente mesma tivesse matando ou roubando. Arlindo come e escuta, come e escuta. 

Madalena, veja, não tem nem onde Arlindinho dormir. Eu não consigo dar ao menino a vida que tu e mãe dão a ele no sítio. Aqui não tem mangueira, abacateiro, jambeiro, cavalo, vaca, bode, porco. Como vai ser a vida dessa criança sem tu?

O delegado pergunta a Arlindo se ele viu o tiro. Eu ouvi só o barulho, só. Do outro lado da mesa do delegado, o menino se enfia na cadeira de madeira feito preá se esconde na terra. O delegado pergunta a Arlindo por que então ele inventou que foi Afrânio quem atirou. Eu inventei não, dotô. O delegado bate pesado a mão na mesa e pergunta a Arlindo, já entre os dentes, como ele sabe que foi Afrânio quem matou. Dotô, eu sei porque Seu Afrânio tava armado e o moço tentou pegar a arma dele. O delegado levanta da cadeira, circula a mesa, aproxima-se de Madalena e pergunta a Arlindo o que caralho Afrânio e esse morto faziam no canavial. Eu não sei, dotô, mas penso que meu pai queria me matar. Teu pai? Madalena intervém. Ele tá falando de Afrânio, dotô. O delegado senta no tampo da mesa de mogno, põe a mão sobre o ombro da criança e pergunta a Arlindo por que um pai mataria o próprio filho. Acho que porque os dois tava pelado, dotô. Madalena se assusta. Os dois? Sim, mainha. Seu Afrânio e o moço. Os dois tava pelado. 

Tá certo, Madalena, tá certo. Deixe o menino aqui. É uma chuva, eu cuido. 

Elisabete, é assim que é pra te chamar, né? Pois pronto, Elisabete. Olhe, eu não ia bater na tua porta se não tivesse precisada. O delegado mandou eu desaparecer com o menino, disse que a polícia de Gameleira não tinha como proteger Arlindo. Nós juntou uns trocado com os morador, eu peguei o que sobrou daquele dinheiro que tu mandou pra mãe no tempo do São João, tomei o trem e trouxe o menino pra cá. Aqui Afrânio não chega. Ele nem recorda que tu existe, nem sabe que agora tu é mulher. Fora que no Recife, com toda essa gente vendo, é mais difícil ele fazer qualquer coisa contra meu filho. Tu cuida dele. É só por um tempo. O delegado explicou que ia mandar o corpo pro IML, por causa de negócio de perícia. E que depois nós vê como fica. Eu merma só sossego quando Afrânio for preso. Volto pro sítio pra ficar com mainha e ver de perto o que a polícia tá fazendo. 

Arlindinho, você passa uns dias aqui com Tia Elisabete? Tu já foi num cinema? Aqui perto de casa tem cinema que só. Bora? Depois a gente vai comer pizza na Padaria Imperatriz. Tu já comeu pizza? 

Ô, tia, posso fazer uma pergunta? Madalena arregala os olhos. Arlindo, eu disse pra não se meter na vida dos outros. Vai, Lena, deixa o menino. Pode perguntar, amorzinho. Quer saber o quê? Arlindo desvia o rosto para a janela. A confusão da avenida deve ser mais fácil de entender. Fale, meu filho. Fale sem medo. O menino retorna. Tia, e o que é que a gente faz quando não é o polícia que duvida? Como assim, Arlindinho?  O que é que a gente faz quando não é o polícia que duvida da gente? Elisabete franze a testa. O que é que a gente faz quando a gente duvida da gente mermo? Quando a gente não sabe o que a gente viu?

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