Quebrando tudo

Mário Medeiros, 40, é um sociólogo, escritor e professor universitário nascido em São Paulo. É professor no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) onde pesquisa literatura afro-brasileira, periferia e questões sociais relacionadas à população negra e suas expressões culturais. É autor Gosto de Amora (Malê, 2019), coletânea de contos que foi finalista do Jabuti, Numa Esquina do Mundo (Kapulana) e o livro de não-ficção A Descoberta do Insólito: Literatura Negra e Literatura Periférica no Brasil (1960-2000).

Seu recente Caquinhos Vermelhos, coletânea de contos lançada pela Fósforo, explora um universo de personagens complexos e atormentados que enfrentam conflitos profundos nas relações familiares, o silêncio e o isolamento surgidos durante a pandemia, além das tensões cotidianas da vida contemporânea. Destaca-se o engenho na construção de narrativas cujos desfechos sempre surpreendem, a linguagem bem tramada entre o sóbrio e a gíria, e a capacidade de enxergar humor mesmo nas situações mais terríveis – como é o caso do conto que vamos ler.

PROPOSTA

Como você percebeu por este desfecho sensacional, Medeiros não tem pressa em fechar a armadilha que armou lá no começo do conto, nos deixando curiosos em relação aos motivos que levaram Cesarina a destruir sua casa a marretadas. Até que a gente descubra, ele vai se detendo na descrição de seu cotidiano, de suas agruras e suas alegrias, seu encontro mágico e trágico com o dentista – aliás muito bem descrito, com vagar -, e por fim o final imprevisto, em que um quê de cômico se mete no meio de uma infelicidade surpreendente.

Pois é isso mesmo o que você vai fazer. Vai criar uma história em que seu personagem está tendo um dia de fúria. Botando pra quebrar.

Quebrando o quê? A cara, a casa, o carro, alguém, alguéns? Mostre o ataque de fúria de seu protagonista e não economize em detalhes.

Afinal, o mais interessante é: por que ele fez isso? Como ele chegou a esse ponto?

Aí você vai ter que fazer alguns flashbacks.

Não tenha pressa.

Mostre que seu personagem na verdade é uma pessoa calma, que não costuma ter esse tipo de surto. Mostre que o que lhe aconteceu foi algo totalmente fora da curva.

Mostre que não restava a seu personagem outra alternativa do que… quebrar tudo.

Conte em qualquer pessoa – pode ser na primeira, na segunda ou na terceira, como fez Medeiros -, em uns 14 mil caracteres.

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