Você já virou à esquerda e, olhando adiante, deparou-se com o que deveria estar atrás, você entendeu que o mundo virou ao contrário para não desvirar mais, enquanto resignado você se dirige para casa como se se afastasse dela… tal como aconteceu com Manfredi essa manhã: ele lembrava que tinham vindo apenas para comprar um caderno quadriculado e talvez um tênis em promoção para o Enzo, coisa trivial, como atravessar a rua ou escorregar em uma casca de banana e, no entanto, tão logo a porta automática os engoliu, Manfredi, a mulher, Cacá e, claro, Enzo, com uma porta sorridente soprando o vapor morno e perfumado de um pântano climatizado, e um aroma de alface pisada e perfume, cortesia do supermercado Lux e da loja de sabonetes que nunca tem clientes bem à frente, ou atrás, Manfredi sentiu que o Shopping Lobato era um domínio climático, uma estação do ano que não passava, uma doença lenta que comia o restinho de sol resvalando em seu couro cabeludo ainda no próximo passo porta adentro, e que ele, o quarteirão, o universo definitivamente encontravam-se naquele momento ao contrário… ele perguntou à mulher se entraram pela porta certa, e recebeu um olhar espantado, prestes a reprová-lo em matemática e geografia, enquanto a família piscava com pressa confiante, e Cacá reclamava, vamos logo, pai, rápido, você pode pegar o caderno enquanto vamos ver o tênis com a mamãe?, e após eles virarem uma, duas, três, esquinas, com sua família invisível, Manfredi fixou o olhar no brilho do piso, refletindo as vitrines que refletiam o brilho das pessoas, que refletiam, por sua vez, um brilho de si mesmas, multiplicado, quando concluiu que estava perdido, não apenas no Shopping Lobato, não de sua família, mas de um fio que o ligasse a eles e a outros, que em princípio deveria ser simples de seguir, uma trilha de farelos de pão, o cheiro do cabelo da mãe, o passo nervoso do Enzo arrastando o tênis velho, o riso breve e distante do Cacá, mas o fio desaparecera, cortado por uma mão que vivesse de cortar.
Assim, parado entre lojas de telefonia e de geladeiras que também vendem telefone, ele dizia, murmurava para si que bastava refazer o caminho: reconstituir as curvas, contar as escadas rolantes como contas de um rosário, lembrar os pontos de referência, a máquina de pegar bichinho, o fliperama com teto simulando uma noite em LEDs, mas a cada tentativa, as curvas, elas se multiplicavam como cobras, pensava, uma se enroscava na outra, e a língua afiada das cobras riscavam chãos encerados, lojas repetiam-se e mudavam de lugar, de nome, de ano: creu-se perder a sanidade e estar no meio de outro ataque de hipoglicemia, então afrouxou o cinto, despegou-se da memória e deixou-se levar pelo ar condicionado… reparou então em um homem de moletom colorido, o suéter amarrado no pescoço como uma echarpe, o rosto liso e um leve sorriso que Manfredi deixou-se achar bobo, e um olhar não distante, mas filtrado por uma vitrine: reparou outra vez, porque o homem transparecia uma obstinação de alguém em uma marcha, ou seria uma corrida, e no terceiro reparo o homem se apresentou, dizendo, não como pergunta, mas afirmação, que Manfredi estava perdido, e só então contou que se chamava Conrado, e informou-lhe, sem aparentar sofrimento, que também estava perdido ali, desde mil novecentos e oitenta e nove, quando da inauguração da nova fonte luminosa: sim, desde oitenta e nove, ele repetiu e, antecipando-se a Manfredi, Conrado respondeu que o Shopping Lobato tinha mais do que condição de manter a ele, e também a Manfredi, sãos e salvos e alimentados e satisfeitos indeterminadamente: mesmo os moletons de que ele sempre gostou, trocava a cor quando quisesse, o segredo era aprender a colher o que passava, assim, por exemplo, como a comida: quando a sirene de limpeza soa, você se mistura ao pessoal do jaleco, gesticula com pressa e leva dois, três, às vezes quatro pratos para um canto, ninguém vê, ou ninguém se importa, de acordo com Conrado, e quanto a roupas, elas descem ou sobem em carrinhos atrás das lojas, basta deixar um pedido no armazém certo, com um crachá qualquer caído do bolso de alguém, sempre tem um crachá para você pegar… Manfredi cansou-se e já esperava a hora em que Conrado lhe pediria dinheiro, ou fosse levado pelos seguranças, e para despistar disse que viraria naquela direção para procurar sua família: a sua família não está lá, ou em lugar nenhum desse shopping que ele alcançasse, lhe confidenciou Conrado, um tanto mais sério, continuando que um funcionário do shopping, seu primo, disse que o único jeito de voltar era refazer os passos desde onde veio, e que ele, Conrado, tentou uns quatro papais noéis seguidos, mas enfim passou a só, como descreveu rindo, curtir o momento, virando para a direção oposta àquela que Manfredi apontou, enquanto ele, Manfredi, seguiu, até encontrar Papai Noel, uma figura conhecida da tevê tirando fotos com crianças na frente dos elevadores panorâmicos, o que fez Manfredi imediatamente dar meia-volta e reconstituir seus passos, até a loja de telefone, pensou, apenas para não encontrar loja alguma, apenas Conrado novamente, e claramente um ponto de encontro de jogadores de RPG, com um cheiro marcante de cachorro-quente, na boca da praça de alimentação… Manfredi olhou um olhar desesperado a Conrado, dizendo estar cansado, que com um sorriso dizia que você aprende os horários das turmas que limpam e descansa nos mesmos intervalos, e, sim, há descanso no Shopping Lobato, mas não há noite, e enquanto caminhavam juntos, Manfredi percebeu que não, não havia dormido desde que se perdera, e, estranhamente, seu corpo não protestava, mantinha-se em uma vigília contínua, sem dor ou tampouco conforto, uma vigília de peixe que nunca deixa de nadar, enquanto Conrado o conduzia por curvas que voltavam sempre ao mesmo conjunto de lanternas japonesas, sob as quais moças em filas compridas esperavam por bolinhas de tapioca em chá de leite, e Conrado disse que se ficassem ali por alguns minutos veriam sempre as mesmas três meninas, um pouco mais velhas, ou mais novas, e que não se podia confiar em relógios, o que por sua vez o fez lembrar que tinha um celular, veria as horas e ligaria para casa, para a polícia, quem for: tirou o telefone do bolso na esperança de ver as mensagens da mulher, um simples “onde você está?”, uma foto do Enzo sentado na escada com a língua de fora, percebeu que a bateria estava ainda em oitenta por cento, como se a energia não se esgotasse, mas antes que tocasse no ícone verde a mão de Conrado arrancou-lhe o telefone e correu, seu moletom colorido riscando o corredor de um arco-íris sujo, e ele, primeiro, sentiu a humilhação animal de um osso tomado da boca, e ficou parado, olhando a mão vazia, como o último resquício de casa, e resolveu que precisava refazer a sequência de curvas, que voltar era mais fácil do que avançar, mas cada retorno virava um avanço travestido, e cada avanço prometia um retorno que não acontecia, e no fim de um vai-e-vem que durou mais do que os quatro papais noéis de Conrado, viu de relance, nítido como um corte, o pescoço e o cabelo do filho, Cacá, o mesmo jeito de encolher os ombros e olhar para baixo quando quer fazer-se invisível, e lançou-se atrás dele, mas na curva seguinte o menino desapareceu entre dois quiosques de capinhas de celular e camisetas de super-heroi, e arfando, Manfredi interpelou Conrado, que ressurgira sem o moletom, ou com outro moletom, agora marrom-café, a respeito do filho, fuçando no app de fotos de seu próprio celular, que Conrado segurava, à procura de uma foto recente, e com uma espécie de deferência, Manfredi perguntou por que Conrado não obtinha o próprio celular, sendo isso aqui um shopping afinal: Conrado riu e disse que não era a mesma coisa, que se comida se recolhe como folhas do jardim, o telefone exige um CPF ativo, uma conta, que você exista numa lista, dinheiro, e aqui o dinheiro é um perfume, você sente, mas não pega, e Conrado se afastou brincando com o aparelho de Manfredi, que se mantia imóvel, em um presente inamovível, e imaginou uma placa na entrada do Shopping Lobato que anunciasse: proibido entrar com esperança, e quando enfim passou a caminhar, Manfredi pouco reparava como as lojas mudavam de nome, até uma Livraria Lobato apareceu, apenas para virar Livraria Boto, com a estátua de um golfinho bicudo, iluminada pelas luzes de uma tarde que não quer acabar, seus letreiros piscavam como espasmos, e ele percebeu que o shopping não fechara nem uma única vez desde que ele se perdera, e tratou de lembrar-se de quantos natais presenciou, e quantos anos então tinham seus filhos, ou ele mesmo.
A palavra “agora” inflava como um balão de gás que se recusasse a estourar, ao lado de capitéis e colunas caídas de isopor, e em uma dessas colunas esse homem viu Cacá, seu filho, vindo em sua direção, sim, ligeiramente mais alto, mais firme. O abraço que deram foi primeiro um tropeço, depois a ancoragem dos soluços do pai no menino, que, placidamente, respondeu às perguntas como as de um agente da alfândega: tudo bem, pai, sim, me prenderam um tempo, mas consegui sair, e Cacá convidou o pai a segui-lo por duas, três, quatro curvas, que o pai reconhecia pelo cheiro: pipoca amanteigada, graxa de escada rolante, pano molhado de cone de limpeza, perguntou enfim como iam sua mãe, e o Enzo, se perderam-se também, e o menino disse não, ninguém mais se perdeu, e a mãe e o irmão têm saudades, mas estão bem, vão ficar felizes quando souberem que ele foi encontrado, e o pai sentiu um alívio curto, um alívio com medo do que viria, e o menino os conduziu virando aqui, e mais aqui, e pronto, chegaram, e diante do pai, sem pompa, um carpete cinza anunciava a porta da Administração do Shopping Lobato, uma placa acrílica folheada de tinta dourada, dentro uma mesa e um PABX: entraram, e o pai perguntou quando iriam embora, e o filho sem hesitar lhe disse que não, ele não iria embora, e com paciência burocrática, o filho explicou-lhe que ficara muito tempo perambulando, anos talvez, mas um dia encontrou essa porta, e fez um acordo com a administradora para poder voltar, trabalhar das nove às dezoito, às vezes até as dezenove em dia de rodízio, e depois voltar para casa, o que lhe era muito justo, e o pai apressou-se a dizer que faria o mesmo, assinaria onde fosse, aceitava qualquer escala, e o filho, com uma gentileza, disse que não estava em posição de oferecer o mesmo acordo, o que podia fazer era apresentar-lhe uma esperança de acordo futuro, e apontou para um banco de espera, o couro preto rachado como uma pele de elefante, sobre o qual repousavam, dobrados com delicadeza, um macacão dourado de poliéster e um chapeuzinho, o menino anunciou que o pai começaria imediatamente na fritadeira do Giraffas, entregando-lhe um termo de compromisso: o pai quis rir, não sabia fritar nada, mas a boca abriu-se para um outro riso, que não reconhecia, e o menino completou: se tudo der muito certo, daqui a alguns anos a gente vê se consegue fazer você voltar, e o pai ainda quis perguntar o que significava “muito certo”, quis saber se a mãe e o Enzo sentiriam mesmo saudade de um homem que cheiraria a óleo quente, quis dizer que tudo tinha começado com um caderno quadriculado, que não havia nada de trágico num caderno, que ninguém some por causa de uma promoção de tênis, mas preferiu recolher-se, e lembrou-se dos passos de Enzo subindo a escada de casa para buscar uma borracha, lembrou da mãe dizendo “é rápido”, do primeiro letreiro do corredor, da primeira curva, da primeira vez que o chão brilhou como água, um aviso, a poça de um céu, diz o clichê, sem estrelas, e na primeira pancada da batata congelada no óleo quente reconheceu o som, por um segundo, que lembrava o barulho do mar, ou melhor, uma chuva, e essa chuva, como tudo no Shopping Lobato, prometia durar.
