Bisbilhoto um grupo de whats, só de homens (shame on us). É quarta-feira de manhã e dois amigos, de bobeira, jogam conversa fora. Eu acompanho, quieto. Um pergunta se o outro não se sente menos brasileiro por não gostar de beber café. Podemos sempre contar com os verdadeiros amigos pra esse tipo de provocação. Mas eu nem leio a resposta. Nesse momento já deixei de prestar atenção na conversa, porque percebi que o meu café, aquilo que faz com que eu me sinta menos brasileiro, é não torcer pra nenhum time de futebol.
Considero uma falha de caráter gravíssima, sim. Sinto inveja dos torcedores, inveja verdadeira, porque sinto que eles é que vivem mesmo a vida, o futebol, enquanto eu juro que também gosto de futebol e tento escrever esta crônica. Mas também sei que é tarde demais. Em que momento uma pessoa deve se descobrir torcedora? Bom, não aconteceu comigo. Vai ver tava distraído, futucando a sujeira do umbigo. A Rannah tem uma teoria: filho bonzinho torce pro time do papai. Se fosse verdade seriam dinastias, não torcidas. Ela só diz isso porque é palmeirense que nem o Preto, meu sogro, muito embora não seja nada boazinha. Meu pai era Flamengo, mas não era do tipo que veste camisa. Seja como for, não quero culpá-lo, chega dessa brisa errada de culpar os pais. Tenho um primo que se fez flamenguista por influência do velho Zé Roberto, ou seja, se serviu pra ele, podia ter funcionado pra mim. Não foi o caso.
(O pai do primo flamenguista é palmeirense e, quando eu era toquinho, me deu de presente uma camisa do Palmeiras, claro, sem qualquer segunda intenção. Eu, que ainda não atinava pra rivalidades profundas nem pra regras de conduta e trato social, pedi, por gentileza, pra que ele fosse até a loja e me trocasse a camisa alviverde por uma do Corinthians (era uma época bastante confusa). Minha mãe (são-paulina) rodou a baiana. Me mandou imaginar aquela cena, o tio entrando na loja arruinado, contrariado, um farrapo humano, e pedindo pra trocar a camisa do time dele por uma outra, do rival. Eu imaginei, que não sou de desobedecer mamãe, e o resultado foi que chorei por uma semana.)
Mas em Maringá talvez eu não pudesse ser flamenguista, nem se quisesse. Tem algo que acontece por aqui, vou tentar explicar. Esses dias aprendi com o Gregório Duvivier (torcedor do Fluminense) que, em Portugal, não se pode batizar uma criança com qualquer nome: é preciso respeitar a Lista de Nomes Próprios. Assim, Sofia, Sofía e até Sófia são permitidos, mas Sophia de jeito nenhum. Da mesma forma, no interior do Paraná, só se pode ser corintiano, palmeirense ou são-paulino. Há, ainda, um ou outro santista (cada vez mais envergonhado), alguns gremistas foragidos, uns colorados expatriados. Mas o que não há, de jeito nenhum, são torcedores dos times do Paraná. Apenas em Curitiba é que existem atleticanos, paranistas, coxas-brancas. Aqui, nem pra remédio.
Eu aceitaria de bom grado ser o primeiro paranista do interior. O primeiro coxa-branca, visto que minhas coxas já o são. Seria até da organizada, seria meu pior inimigo, não saberia o que é sair de casa de chinelos. Mas a verdade é que estaria me enganando. Vejo meu filho Tomás jogando bola na varanda e gritando “gol do Palmeiras!”, por influência de vovô Preto (vovô é papai duas vezes), e sinto inveja até mesmo dele, que pode ser palmeirense se quiser. Eu, ainda que queira, já não posso. Volto ao grupo de whats e àquela conversa sobre ser brasileiro e gostar de café, pra ver o que o outro respondeu, afinal. Me lembro então do Ariano Suassuna (rubro-negro doente, que até inventou o traje “Sport fino”: a camisa vermelha com paletó preto, infalíveis) e de como ele tomou café durante cinquenta e sete anos, mesmo sem gostar, por “falta de personalidade”. Até que um dia descobriu que não gostava e parou de tomar.
