Com os olhos vermelhos e o corpo todo injetado, Marielza varejou o vaso de porcelana chinesa pela janela. Estava exausta de chorar. Mais exausta, porém, estava de ouvir o enxame de buzinas que atazanava seu juízo desde o primeiro sol da manhã até os lóbulos das orelhas da noite, ferroando, ardendo, inflamando a cabeça, o coração e o fígado. Este último órgão costumava reger os atos de Marielza.
Era comum vê-la pelo condomínio, com sua cara branca-vermelha e os cabelos crespos oxigenados em coque, metida numa canga amarrada feito vestido, ainda que longe da praia. Gritava na sua voz pastosa de ex-fumante com as crianças que jogavam bola no pátio onde ela tomava sol e que se esfumaçavam quando a viam. Os porteiros conheciam seus gritos e corriam para abrir o portão assim que ela despontava no começo da rua. Os vizinhos conheciam seus gritos e corriam para aumentar o volume da TV assim que ela começava sua represália diária ao marido. Os bem-te-vis, sanhaços e maritacas que dominam Jacarepaguá corriam em vôo para longe de sua janela.
Sim, o fígado costumava reger as ações de Marielza. Por isso, nenhum vizinho ou familiar estranharia o vaso varejado de porcelana chinesa voando pela janela e se espatifando no pé de um dos motoqueiros lá embaixo, do lado de fora do portão. No entanto, Heitor, seu marido, estranhou. Já foram fígado demais, tanto ela quanto ele. Não era hora para nenhuma parte do corpo senão a cabeça.
Ao ouvir o crec dos cacos, as vaias e buzinas se agigantando, apequenou seu orgulho e começou a se vestir. Olhou para a farda preta pendurada no cabide de pé. Nas costas da camisa, as letras brancas: POLÍCIA PENAL. Na manga do braço esquerdo, a bandeira do estado do Rio de Janeiro; na do braço direito, a do Brasil. Heitor encarou o espelho: se viu exausto como quase sempre, só que mais que nunca; as bolsas sob os olhos quase da cor da farda, destacadas na pele do rosto, mais clara que a cor da farda.
Sempre se orgulhou de usá-la, apesar do peso, dos presos, dos soltos e do pouco valor que ele próprio tinha aos olhos da sociedade que pagava seu soldo magro e reprovava suas greves esquálidas por reajustes miseráveis. Apesar de tudo, tinha vergonha de manchá-la. Vestiu-se de civil: bermuda marrom clara quase da cor de sua pele, camiseta preta lisa estufada nos braços e na barriga, chinelos brancos metidos nos pés. Ao ouvir a sirene da viatura no portão do prédio, meteu a arma no elástico da bermuda e foi até a porta do apartamento.
“Não vai, não, amor”, disse Marielza.
“Liga pro Mazinho e explica tudo.”, disse Heitor.
Marielza, com o rosto branco-vermelho encharcado de catarro e lágrima, beijou o marido e encharcou seu rosto marrom claro.
“Deixa eu ir com você. Por favor, amor”.
Heitor se afastou e enxugou o rosto com as costas da mão.
“Você não sai daqui. Fica calma e não faz mais nada, pelo amor de Deus”, Heitor disse, deu as costas pra esposa e saiu pela porta.
Frustrada, Marielza quis varejar mais coisas no enxame lá embaixo, rachar ao menos um capacete que fosse. Quis quebrar a casa, rasgar sua pele, estraçalhar o relógio contra a parede e reverter seus ponteiros. É verdade, calma nunca foi uma prerrogativa sua. Prescindia dela em nome da prerrogativa de dar voz ao sangue que fervia dentro. Com orgulho, lembrava sempre que o seu não era de barata: era vermelho-escuro e grosso. Prova disso foram as várias demissões de muitas escolas do bairro por não afinar diante da diretoria, dos pais e, sobretudo, das crianças. Prova disso, também, foi o princípio de enfarte já no começo dos quarenta anos.
A saída foi aguardar em casa a autorização de aposentadoria por invalidez da perícia do INSS. Sem saída, o orçamento do casal minguou para quase insosso. Ela dava aulas particulares pras crianças do condomínio e da rua, muitas não resistiam à aula experimental. Heitor aumentou os bicos de segurança fora do presídio, turnos dobrados. E passou a cortar um dobrado triplo em casa, pois cabeça de Marielza vazia era oficina do fígado. Ele, porém, seguia calmo. No trato com os presos e com o diretor do presídio, com os bêbados das boates e, principalmente, com a mulher. Era uma fase ruim, mas passageira, como muitas que seu casamento havia enfrentado. Mantinha a cabeça fria, o coração batendo. E os pés metidos firmes no chão.
*
Jobson se orgulhava de, naquela semana, ter mantido a calma em absolutamente todas as vezes que tentaram o tirar do sério. Na verdade, há uns três anos, desde o fim da pandemia, evitou quase todas as tentações. Fechadas quase assassinas dos carros, folgas dos clientes, ofensas dos donos de restaurante e tirações dos aplicativos, nada tirou a sua calma.
Antes da pandemia, é verdade, não tinha muita. Brigava na escola com os coleguinhas por causa do Botafogo, ainda no ensino médio entrou na Fúria Jovem, a maior torcida organizada do Botafogo. Brigava também quando diziam que ele era tão briguento quanto o seu xará, atacante alvinegro que salvou o glorioso do rebaixamento em 2009, mas que saiu do time por problemas de indisciplina. Quando um de seus melhores amigos ficou com o rosto deformado em um confronto com a Jovem Fla, meteu o pé da vida de briga de organizada. Trampou um tempo como office boy em uma empresa de calçados, depois virou motoboy, que explorava tanto ou mais, mas pagava um pouco melhor e não precisava de roupa social.
Abraçou o slogan de paz nos estádios, mas fora deles ainda brigava. Com algum otário que olhava sua mulher na rua, com sua mulher quando olhava para outras mulheres na rua e, principalmente, no trânsito. Na pandemia, porém, veio a virada de chave. Foi no meio da primeira onda, pico do lock-down. Fique em casa pra quem podia ficar em casa. Pra motoboy era traz a comida pra minha casa. Mas choveu entrega e chuviscou um pouco mais de grana. Num dia em que ele fez nada menos que trinta entregas em três horas, tomou uma fechada violenta de um Renegade preto. Buzinou e o babaca, de vidro fechado, nem se ligou. O carrão parou no sinal, ele encostou a moto do lado. Bateu no vidro, o bacana desceu a janela, a máscara no queixo. Jobson ajeitou a queixeira do capacete, deu um cuspidão na fuça do cara e saiu saindo no randandandão.
Três dias depois, pegou uma covid porradeira que o derrubou por três semanas. Sem grana pra entrega, as contas despencaram. Assim como sua consciência, pensando que podia ter passado pro cara, pra família dele, matado uma mãe velha, infectado seus filhos, posto uma gravidez em risco ou coisa pior. Assim que tomou a primeira dose, sua própria esposa descobriu a gravidez. Prometeu nunca mais perder a cabeça dessa maneira. Parou de brigar com a esposa, com os clientes, com os donos de restaurante e, principalmente, no trânsito. E não brigava nunca com Francisco, o Tiquinho, nem quando devia. Era um pai babão em tempo integral e babou mais na última semana, quando o moleque começou a cantar o hino do Botafogo.
Às vezes se estressava com os abusos do aplicativo e as judarias da pista, mas apenas ficava posturado pra não ser feito de otário. Fugia de briga. Mantinha a cabeça fria, o coração batendo, as mãos no guidão. E o pé metido firme no pedal da moto.
*
Uma noite antes de varejar o vaso de porcelana chinesa pela janela, Marielza quis varejar um aluno pela janela. Depois que ele saiu, assustado e com uma carinha de que ia chorar pra mãe nunca mais obrigá-lo a voltar, chegou o envelope com a fatura do cartão de crédito. Esse, Marielza quis varejar e varejou pela janela. Heitor entrou em casa exausto, com o terno de segurança numa mão e o envelope com a fatura do cartão de crédito na outra.
Ao ver o marido tão exausto, destruído mesmo, Marielza por um momento sentiu vergonha de ter varejado o envelope com a fatura do cartão de crédito. Foi Heitor abrir o envelope e a vergonha passou, dando lugar para o primeiro grito:
“A Virna e o Rui já tinham reservado o Airbnb em Iguaba, só faltava a gente. Eu tinha que fazer a nossa também. Você quer que só eu fique presa em casa quando até a vaca da Andreia vai?”.
Quando Heitor reclamou da geladeira vazia, pois passou a tarde inteira com dois canapés de camarão da boate na barriga, tomou lugar o segundo grito:
“Você acha que eu sou sua empregada? Que eu passo o dia coçando a xereca?”.
Quando a vizinha gritou que suas filhas pequenas estavam acordadas, veio o terceiro grito:
“E o que é que é, futriqueira? Você também não tem xereca?”.
Quando Heitor pediu calma, explodiu o quarto grito:
“Todo mundo você defende, menos eu. Eu não tenho culpa se não tenho sangue de barata”.
Quando o porteiro interfonou avisando que a pizza chegou e que o entregador não queria subiu, Heitor foi atingido pelo grito de misericórdia:
“Nem pra fazer esse merda cumprir o trabalho dele tu serve. Tu é um banana mesmo. Não, essa não é a palavra. Tu é um frouxo”.
Enfurecido, irado, fora de si: nada disso era bem a palavra pra definir com precisão o que ele sentiu dentro naquele momento. Durante o dia anterior, quando estourou um rumor de rebelião para estourar na próxima semana, e durante a noite anterior, quando dois bêbados estouraram um espumante na cara dele na boate, Heitor manteve a calma. Naquele momento, porém, ao tentar manter a calma diante de Marielza, Heitor quis estourar. Mas estouro tampouco era bem a palavra.
Heitor estava era puto. E puto desceu com a arma na mão. Ficou ainda mais puto quando encontrou o entregador, totalmente cheio de marra, com a câmera do celular apontada pra sua cara.
“Eu já ia meter o pé”, disse Jobson. “Entregador não é garçom, não”.
“Vai, dá logo a minha parada”.
“Eu só entrego com o código, chefe”.
Puto, Heitor desceu para a portaria sem o celular. Puto, Heitor esticou o braço com a arma na mão.
“Código é o caralho”.
Puto, Heitor atirou no pé de Jobson.
O entregador não gritou. Apenas soltou um hhhhh sufocado, como quem encosta em ferro quente. Cambaleou e apontou a câmera do celular para baixo, revelando a roda dianteira da moto e um jorro de sangue vermelho escuro saindo de uma galocha preta, pintando o asfalto da rua.
“Mete o pé agora, porra”, gritou Heitor. Ele meteu a arma no elástico da bermuda, se agachou, abriu a caixa nas costas de Jobson, pegou a pizza e entrou no prédio batendo o portão.
Duas horas depois, os médicos do Lourenço Jorge envolveram a canela de Jobson em um gesso branco, sem conseguir remover a bala cor de chumbo de seu pé preto. Em seguida, foi à D.P. da Taquara registrar um B.O. Uma hora antes disso, porém, o vídeo do tiro já tinha rodado a internet. Sites de direitos humanos, deputados, artistas e a página dos Entregadores Antifascistas postaram vários textões revoltados. No primeiro sol da manhã do dia seguinte, vários motoqueiros da Grande Jacarepaguá, das imediações e até mesmo alguns de Campo Grande apareceram na porta do prédio. E toma-lhe buzina e vaia até arregaçar os lóbulos das orelhas da noite.
*
Marielza ouviu as notícias do advogado na D.P., desligou o telefone e voltou a chorar. Lembrou-se do vaso de porcelana chinesa, que tinha varejado há pouco tempo pela janela nos pés de algum motoqueiro. Lembrou que o vaso, que não era de porcelana mas que foi comprado em uma loja de chinglings no Saara, foi presente da mãe de Heitor para o casamento deles. Lembrou que a sogra morreu sem falar com o filho, porque Marielza o convenceu de que a mãe não suportava o gênio dela. Lembrou que Heitor nunca perdeu a calma com ela, nem quando a mãe morreu, nem nunca. Sentiu o sangue afinando, perdendo a cor da vergonha que sentia, mais sem cor que sangue de barata.
Chorou cada vez mais. Gritou muitas vezes que meteu os pés pelas mãos. Os vizinhos arrombaram a porta um tiquinho antes de Marielza se varejar pela janela.
