Joca está diante da geladeira dos próximos a data de validade no Bom Preço de Caetés. Procura um iogurte que dê pra pagar. Só se der pra pagar, Joca. E olha a data. A preferência é pelo Chambinho, mas sendo cor de rosa, já tá ótimo. Ele descola o adesivo com o preço remarcado quase sempre colado em cima da data, enquanto imagina todos os potinhos de calça justa e peito nu cantando em rebolados “e o que me importa é não estar vencido”.
Bora, Joca. Simão tem pressa, acumulou aos trabalhos do sítio e à busca de trabalho fora do sítio, o almoço, o jantar de casa e o cuidado com Edineia. Edineia não levanta desde que voltou do Jardim das Oliveiras. Já vão 5 dias. Alega fastio toda vez que o marido e o filho oferecem alguma coisa. A água que lhe deixaram do lado da cama de manhã cedo, capaz de criar dengue de tão parada que permanece. Fora fastio, a única coisa que disse até agora foi quero não.
– Quer tomar um banhinho?
– Quero não.
– Deixa eu ligar o ventilador.
– Quero não.
– Abra o olho, vá.
– Quero não.
– Aqui, um espacinho na rede.
– Quero não.
Simão e Joca esolveram o sábado no centro. Voltaram pra casa pelas 11h, o pai cozinhou, o filho botou a mesa, Edineia, nada. Sentaram. Um comeu, o outro enrolou e a outra quis não. Joca tinha acabado uma bandeja de Chambinho no carro, com o dedo mesmo, e meio que perdeu a fome do almoço. Deu pra comprar duas bandejas. É que eu tenho que comer tudo hoje, painho. Amanhã presta mais não, entendesse? Simão deixou o menino encomendado de jantar o prato que não almoçou e de não tirar o olho da mãe até ele voltar. Os dois Duralex cheios (o de Joca e o de Edineia) foram pra geladeira cobertos por um guardanapo aberto.
– Eu posso ir ver Maculoso?
– Oi?
– Glorinha. Eu posso ir ver Glorinha?
– Só quando eu voltar. Tem que ficar olhando tua mãe.
– Olhando mesmo assim com o olho grudado?
– Grudado, grudado não. Mas é melhor ficar no quarto dela. Leva tuas coisas pro quarto. Tu fica brincando lá, faz tua tarefa lá e tudo.
– E Glorinha?
– Glorinha o que?
– Posso levar pro quarto também?
– Não, né, Joca.
– Quando eu chegar tu vai ver Glorinha. Não vai tá de noite ainda não.
Simão estalou um beijo no menino e uma encostada de boca cheia de cerimônia recém adquirida na cabeça da mulher. Joca estalou um muxoxo, pegou a mochila e as motinhas no sofá e foi pro quarto da mãe. A ideia de ficar uma tarde inteira trancado no calor de dentro de casa – que até o ventilador tava incomodando Edineia – era melhor morrer. Quer brincar, mainha? Quero não. Ela deitou. A cama já ia até com o formato do corpo enlutado. Joca sentou no chão pra desenhar a pistinha das motos no caderno, sábado não tem tarefa. Desenhou uma curva preguiçosa, quase reta, alcançou a primeira moto sem nem escolher qual, deitou a cabeça em uma mão e com a outra botou a moto pra estrear a pista. Tão devagarzinho.
Sentiu um sono quase que do tamanho do sono sem fim da mãe. Capaz de cochilar. Olhou pra Edineia de olho fechado meio com força, testa franzida de aperreio, quis acreditar que ela já tinha dormido e correu pra cozinha pra adiantar o lanche. É que o Chambinho vencia mesmo dia 4. Hoje era 3. Mas vencia 4 de setembro, sabe? Hoje era novembro. Ele viu o 04/09/2025, associou 9 a novembro e pronto. Simão, aperreado, nem checou. Pois que enquanto essas 7 frases explicavam o engano, deu tempo de Joca acabar com os 8 potes de Chambinho, voltar, checar o olho da mãe, deitar a cabeça em um braço e usar o outro pra continuar o passeio da moto. Cochilou.
De setembro a novembro, declinou a população de bactérias lácticas, igualzinho ao que aconteceu com a população dos sítios vizinhos. Levedura, fungos e outros microorganismos se desenvolveram no Chambinho e encontraram na barriga de Joca, lugar perfeito pra se instalar. Quando Simão chegou, encontrou Edineia acordada como não via há uns dois anos. Levava e trazia o bichinho do banheiro, passava pano molhado no pescoço do menino, segurava no colo, dizia que ia passar, tome só um golinho da água, meu amor. Quero não. Correram pro Luiza Pereira de Carvalho que não ia dar tempo de chegar no Hospital Dom Moura. O menino pegando fogo.
Foi cuspindo o caminho todo. O diagnóstico de dona Rosa não lhe saía da cabeça: insuficiência tricúspide. Imaginava a avó tão velhinha, fraca, incapaz de cuspir 3 vezes pra evitar a própria morte. Mas o caso de Joca era intoxicação alimentar – leve até. Pros médicos. Pra Edineia, que viu a enfermeira espetando a agulha do soro no bracinho fino do filho, a agulha fazendo furo no mesmo lugar do braço furado da mãe, Joca meio branco de desidratação, foi subindo um ódio do Bom Preço, da Nestlé, de médico, de enfermeira, de hospital, dos potinhos vermelhos, o mesmo vermelho aberto da unha da mãe no velório, não era vermelho aberto, era Carmim. Mainha usava Carmim.
Ela só esperou Joca fechar o olho de cansaço e de remédio. Perguntou se Simão ficava. Tu fica com ele? Passou pela porta do Luiza Pereira de Carvalho fazendo vento, pisou duro na Melquíades Borrego em direção à José Frazão, 280 metros sem nem sentir a passada, juntou os cabelos em 3 voltas de coque, pegou um grampo no bolso da frente da calça, prendeu como que se prepara. Mais 130 metros. Virou à esquerda na rua Um, cruzou a José Severino, cruzou a Assembleia de Deus, fez sinal da Cruz mesmo não sendo da igreja e já entrou no Bom Preço gritando cadê. Cadê o demônio que quase mata meu filho? Quem é que vende pra uma criança um negócio podre? A mulher do caixa quase quebra o pescoço pra acompanhar a confusão e ela quebrando o vidro da geladeira com a barra de ferro que viu da altura da padaria encostada no cantinho do portão. Só desistiu da geladeira quando viu voar inteiro o branco e o cor de rosa dos danones. Todo mundo se encolheu prum lado, ela cresceu pro outro. Foi derrubando a prateleira de enlatado feito Joca quando brincava de furacão na pista de moto. Acabou com Coca-cola, óleo, cream-cracker, caixa de chocolate. Gritaram pelo pastor, o homem correu, tentou dizer qualquer coisa de demônio, responderam que sim, ela tinha falado no demônio mesmo. O povo rezando, o homem exorcizando, Edineia estourando melancia pra todo lado. Até que cansou. Olhou pra trás, viu os esmaltes no caixa, meio ofegante de esforço, escolheu um rosa, cor de Chambinho, chegou bem perto do pastor, riu pra Padilha e cuspiu 3 vezes.
Joca melhorou rápido, ainda deu tempo de ver Glorinha antes de escurecer. Ela não ligou muito pra história não, mas Maculoso ficou impressionado com Edineia. Pegou o rosa, foi?

Os risquinhos, as voltinhas e a interferência eletromagnética
