Cartas não de amor

Elsa Triolet não estava a fim de Viktor Chklóvski. Nem por isso largava o osso o formalista – melhor amigo de Maiakóvski, aliás amante da irmã de Elsa, Lilia Brik, casada com Óssip Brik. Mesmo exilado em Berlim, para onde foi nos anos 1920 fugindo dos pitbulls stalinistas, que não gostavam de seu estilo futurista e hiperbólico, Chklóvski seguia mandando cartas apaixonadas para Elsa. Que lhe ordenou: só te respondo se você me mandar cartas não de amor. Desvairadamente apaixonado, ele obedeceu (mais ou menos).

O resultado é Zoo ou Cartas Não de Amor (trad. Vadim Nikitim, 34), um clássico do romance epistolar, uma das obras mais originais da literatura russa. Um clássico porque, pra começar, o formalista, aceitando o desafio proposto por Elsa, acaba não falando de amor, mas de vários assuntos ao redor do amor, e acaba por criar um retrato dos artistas e intelectuais russos exilados na Alemanha depois da Primeira Guerra e da Revolução Russa, que eram milhares. Os russos moravam perto do zoológico e viviam passeando por lá, por isso este livro se chama Zoo.

Antes, uma palavra sobre o formalismo russo, que influenciou os estruturalistas franceses e, mais tarde, os concretistas brasileiros.

O formalismo russo é um movimento de teoria literária que surgiu no início do século XX e que defendia que o objeto de estudo da literatura deveria ser a sua “literariedade“, ou seja, a forma como a obra foi construída, e não seu conteúdo ou a biografia do autor. 

O conceito central da teoria de Chklovski é o estranhamento ou desfamiliarização (ostranenie, em russo).  Para Chklovski, a finalidade da arte não é imitar a realidade. E sim fazer com que percebamos o mundo de uma forma nova. Ele argumenta que o hábito e a percepção automatizada fazem com que as pessoas parem de “ver” as coisas de verdade, pois elas se tornam rotineiras. O estranhamento, então, é o artifício utilizado pelo escritor para “desautomatizar” essa percepção, apresentando objetos, eventos ou ideias de uma maneira incomum, forçando o leitor a olhá-los com atenção renovada. 

Exemplos de estranhamento:

  • A descrição de um objeto cotidiano de uma forma inusitada, como se estivesse sendo visto pela primeira vez.
  • A narração de eventos de uma perspectiva incomum para romper com a percepção comum da realidade.
  • A utilização de uma linguagem poética para descrever situações prosaicas, tornando a linguagem não mais transparente, mas um objeto a ser apreciado em si mesmo. 

Chklovski detalhou suas ideias no ensaio A Arte como Procedimento, de 1917, no qual explicava que a obra de arte se distingue da comunicação cotidiana justamente por sua forma, que é o resultado de uma série de “procedimentos” estilísticos e composicionais. O objetivo desses procedimentos é dificultar a percepção, aumentar a complexidade e a duração do ato de ler ou observar, permitindo que a pessoa vivencie a obra de arte plenamente.

Você já deve ter intuído que os formalistas russos influenciaram também bastante o OuLiPo, o movimento que deu origem a este Submarino. Tais procedimentos moldaram as contraintes, ou restrições, usadas por Italo Calvino e Georges Perec. De certo modo, os oulipianos colocaram em prática o que os teóricos russos haviam proposto: uma recusa à inspiração e uma ênfase na materialidade do texto.

O formalismo de Chklóvski defende a autonomia do texto literário. Para ele e os outros formalistas, a forma não é algo separado do conteúdo, mas sim o que dá significado à “matéria” da obra. Em outras palavras, o sentido da obra reside na forma como a linguagem é organizada, e não em uma “verdade” exterior ao texto, como a intenção do autor ou a realidade histórica. 

PROPOSTA

Vamos brincar em cima dessa forma: o romance epistolar.

Mas não como em Drácula de Bram Stoker ou As Ligações Perigosas de Choderlos de Laclos.

E sim como em Chklóvski e Triolet.

A premissa do seu texto será a do mal-entendido entre duas pessoas que se correspondem.

Pode ser:

  • um cara convidando uma mina para um encontro, ou o contrário;
  • um chefe cobrando seu funcionário, ou vice-versa;
  • um amigo pedindo um dinheiro emprestado pro outro;
  • ou, como o casalzinho acima, alguém se declarando para outro alguém, que declina e muda de assunto.

O que mantém a tensão da história?

No caso dele, a esperança de que o mal entendido será superado. Até o fim do romance, Chklóvski acredita que Elsa irá sucumbir à sua escrita engenhosa e aceitar ser seu par.

No caso dela, amizade, falta do que fazer, empatia, pena?

Você também precisa se decidir sobre o que vai manter a tensão de seu caso epistolar.

E como vai se dar a troca de mensangens?

Cartas, emails, mensagens de whatsapp, DMs de Instagram, áudios, bilhetes ou outro tipo de comunicação?

Outro ponto importante: por que eles se comunicam por cartas? Por que estão afastados? Qual o motivo da distância? Separação geográfica? Algum tipo de obstáculo (por exemplo, a mulher é casada)? Exílio? Necessidade de formalizar por escrito a situação?

Escreva, claro, dois personagens, na primeira/segunda pessoas, em até uns 13 mil caracteres.

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