De pai pra filho – Yan

Somos todos homens fortes e saudáveis, os da nossa família. Todos criados a mingau de inhame com mel da vovó e água de poço. Dizem que os homens da nossa família têm peito estufado e pavio curto. Pode até ser, mas só alguns explodem. Todos os homens da família morrem de infarto. Minto, nem todos. A doença só é transmitida por linhagem paterna e somente aos meninos. Todos tiveram como último diálogo uma discussão com uma mulher.

Vô Marinho infartou durante uma briga com a filha, quando descobriu que ela estava grávida de um homem nenhum; tio Orlando ia matar a esposa e infartou um logo antes; tio Landinho matou a esposa e infartou um logo depois; tio André parou de pulsar três dias após nascer, berrando com o mamilo que não lhe dava leite; e meu pai falhou de peito enquanto batia boca com vovó sobre minha mãe. Mas o caso mais famoso, sem dúvida, é o do biso Ubiraci. O patriarca dos nossos Jatobá.

Vovó dizia que, antes do biso, os homens filhos de homens de nossa família morriam de tudo que era jeito. Queda de cavalo, gripe, tiro, tuberculose, afogamento, fome. Os pais dela quase proibiram o casamento quando conheceram seu futuro sogro. Era um caboclo enorme do Recôncavo, da cor da maçaranduba, que vovó diz que era branco da Bahia. A bisa era uma polaca que (acho) não nasceu na Polônia. Ganhava a vida na Vila Mimosa, no Mangue do Estácio, e frequentava a Gamboa e o cais do porto. O biso Ubiraci trabalhava como estivador e lá eles se conheceram. Não sei se chegaram a ser cliente-prestadora de serviço.

Mas antes de conhecer o biso e largar a vida, a bisa teve um amante. Um marinheiro com cheiro de onda que chegava e partia em dias de espuma. É como diz o dito: mulher de viajante, coração na mão. Por isso a bisa foi com o marinheiro fazer uma tatuagem no braço, parece que um coração atravessado por uma flor. Vovó não chegou a ver, nem poderia. O biso Ubiraci apagou a tatuagem com sal grosso na noite do casamento. No braço direito da bisa só tinha uma grande cicatriz amarelada. Vovó diz que a bisa era uma mulher mirradinha e calada. Trabalhou na máquina de costura até não poder mais e suas costas encolheram aos poucos depois de cada vestido entregue, de cada bainha feita, de cada buraco remendado.

Meu pai já tinha nascido e tio Landinho estava na barriga da vovó quando o marinheiro apareceu. Enrugado pelo sol, pouco estranhou os dez centímetros a menos da bisa e o envelhecimento que lhe deram a curta e intensa juventude como mulher da vida e a longa e branda vida como esposa do lar. Eles se amaram como podiam, às pressas, em quartos de cortiços da região portuária. Sabiam que a espera fora longa e o tempo era curto.

O biso encontrou os dois nos fundos de um cabeça-de-porco no pé do morro da Providência. Estraçalhou o marinheiro com a perna de uma cadeira do quarto. O homem ficou mais amassado que sardinha enlatada e parece que morreu apanhando. Aí o biso começou a brigar com a bisa, firme, até sentir uma dor insuportável no peito. Não se sabe se por infarto ou pelo punhalzinho que a bisa lhe enfiou — mas de qualquer jeito seu coração parou.

A bisa morreu no Pinel e o biso Ubiraci vive até hoje na história da família. Todos os filhos homens dele morreram do coração. Todos os filhos homens desses filhos homens morreram do coração. Meus primos, filhos das irmãs do meu pai, gritavam “uh, vai morrer!”, quando queriam me irritar. Eu sempre saía no braço com todos.

“É por isso, filhinho, que tens que ser menos nervoso”, vovó dizia. “Estás facilitando pra doença. Assim ela te leva, numa dessas vezes que gritas comigo, sem teres tempo de me dar bisnetos”.

“Não enche o saco, vovó”, eu dizia e a mandava me trazer meu mingau.

Os dias sempre passaram lerdos no sobradão do Santo Cristo, onde crescemos eu e meus primos. Os filhos das irmãs do meu pai chamavam o sobrado de a casa dos órfãos. Eu não ligava, exceto quando Nael começava a chorar; aí era porrada até vovó aparecer com o fio de ferro na mão. Ele e as duas irmãs eram filhos de tio Landinho e órfãos completos, moravam com vovó desde sempre. Eu era só meio órfão, mas também morava com vovó desde muito pequeno. Lembrança da minha mãe era coisa pouca, que vinha mais forte depois de sonho, coisas assim. Ela penteando meu cabelo, igual ao dela, fazendo tranças, coisas assim. Vovó encharcando meu cabelo com gel e passando pente de ferro, até o dia em que resolvi mantê-lo sempre rapado. Coisas assim.

Mas lembranças de sempre são com Nael. Meu melhor amigo. Fazíamos tudo juntos. Taco, gude, bafo, pião, pipa, baralho — criamos e matamos um pintinho juntos. E apostas. Apostar quem chegava primeiro, quem tinha coragem de andar pela casa inteira no escuro, quem subia mais alto na mangueira do quintal, quem tinha coragem de colocar barata dentro do vestido da tia.

“E se a gente apostar quem morre primeiro?”, ele me perguntou com bigode de manga quando ainda usávamos calças curtas.

“Como quem?”.

“Eu e você, ué. Qual coração vai parar primeiro”.

“Não, disso eu não brinco”, eu disse.

“E por quê? Tá com medo, é?”.

“Porque quem ganhar, perde. Não tem graça”.

Nael foi acumulando tempo de vida, musculatura, ficou enorme, bonito. Ganhou de mim em tudo. Foi pra São Paulo pra ser juiz ou desembaçador ou algo que o valha. Casou com uma paulista, mas enquanto esteve por aqui teve várias namoradas e por meio de uma delas eu conheci minha esposa. Na praia, ela descendo a pedra do Arpoador em direção à areia, o cabelo subindo ao céu, o corpo um próprio sol, me olhando de cima, de cima a baixo. Quando a levei ao sobradão pra jantar pela primeira vez, senti uma vergonha horrível pela forma com que foi tratada e a levei embora antes da sobremesa. Vovó estava muito velha e mais cruel que nunca.

“Queres compensar a falta de tua mãe, filhinho. Mas tens de deixá-la ir, porque ela foi embora”.

Vovó falava e esfregava minhas cuecas brancas no tanque, a água sanitária ressecava e fazia bolhas em seus dedos. Meus próprios dedos estavam fechados e presos na palma da mão, porque senão tremiam. Falei qualquer coisa e ela levantou a voz. As galinhas que ela matava também gritavam nesse tom, antes de terem o pescoço quebrado.

“Não tens que provar nada pra ninguém, meu filho. Procura uma outra moça”, ela disse. “Tu mereces”.

Respirei fundo três vezes pra não perder a cabeça. Peguei minha velha pelos ombros e a sacudi violentamente.

“Olha, vovó. A senhora não vai me matar igual fez com o meu pai, ouviu?”. A crueldade, antes de tudo, é coisa que se aprende.

Sua expressão congelou por alguns segundos, deixando-a com cara de louca. Soltei-a e deixou escapar uma lagriminha sem vergonha que secou antes de chegar ao queixo.

“Está bem, meu filho”, disse e me mandou sentar à mesa pro desjejum.

“Vou comer na rua”, eu respondi antes de sair. “O cheiro dessa merda de mingau me embrulhou o estômago “.

Era mentira, passei o dia inteiro com fome de mingau e nenhuma porcaria de restaurante ou lanchonete resolveu. Já no dia seguinte, comi duas tigelas cheias e minha esposa passou a frequentar a casa. Vovó mostrou fotos minhas quando criança e a ensinou a fazer o meu mingau de inhame com mel. Nenhuma das duas jamais admitiu, mas sei que se gostavam muito.  Prova disso é que muitas vezes, depois de nos mudarmos pruma casinha em Vila Isabel, minha esposa era quem falava de fazermos uma visita.

Quando contamos que esperávamos um bebê, vovó me surpreendeu.

“E você botou a colher debaixo da cama?”, perguntou à minha esposa.

“Botei, sim senhora”.

“Que colher, vovó?”.

“Uma colher de pau com uma fita de cetim rosa amarrada. Debaixo da cama do casal que quer engravidar”.

Vovó sempre foi cheia de simpatias prum monte de coisas, de expulsar visita chata até abrir o céu e tirar o sol de trás das nuvens. Eu fechei a cara.

“Mas nós nem estávamos planejando!”.

“Eu sei”, vovó disse. “Por isso mesmo dei a colher pra menina no dia em que vocês se mudaram. Melhor prevenir que depois chorar. E tu podes desamarrar este bico. Agora precisamos fazer o teste”.

Aí começou outro circuito enorme de simpatias: fazer um pêndulo com um fio de cabelo da grávida e uma aliança, pôr almofadas em cima de um garfo e uma colher e mandar a grávida sentar em uma delas, tirar cara ou coroa com uma hóstia e mais outras tantas (sempre em números múltiplos de sete). Todos os resultados deram menina. Minha primeira filha nasceu saudável e recebeu o nome da vovó. Minha segunda filha nasceu com um probleminha de respiração, mas com coração também saudável. Minha terceira nasceu prematura, mas virou a maior e mais forte de todas. Minha quarta filha nasceu morta e fechamos a fábrica.

Vovó seguia presente em todas as gestações, mais velha do que nunca. Foi a São Paulo acompanhar a das gêmeas de Nael. Foi a São Paulo brigar com a segunda esposa e mãe da terceira criança, que só ia em médico indiano e pra quem determinar o sexo do bebê era um processo invasivo e antinatural. Vovó desceu na rodoviária, foi até a casa deles, abriu a porta com uma cópia da chave que fizera em segredo, pôs a colher de pau embaixo da cama e voltou ao Rio no mesmo dia.

Uma vez perguntei a ela se não a incomodava que o nosso sobrenome fosse sumir.

“Como sumir?”.

“Se só tivermos filhas meninas, não vai ter nenhum Jatobá pra levar o nome pra frente”.

“E teus primos, filhos de tuas tias?”.

Aqueles idiotas molengas, pensei. Iam ter netos Jatobá enquanto eu ia ter netos com o sobrenome de um bunda-suja qualquer.

“Mas eu também”, vovó me interrompeu com um suspiro pesado.

“Os homens pensando na estirpe e as mulheres pensando em sobreviver. Assim que as coisas são”, vovó disse e me lançou um olhar de faca por trás da catarata.

Ela estava cada dia mais velha, mais cega e mais crente de que não iria morrer antes de garantir que nossa doença não fosse transmitida a outra geração. Acreditava de olhos abertos que meus netos não teriam filhos com a doença, que a transmissão só acontecia por linhagem paterna. E morreu com essa fé bem viva, porque nenhum fruto macho nasceu de minha semente ou da de Nael. E porque também nunca soube do meu caso com a filha de um meu colega de trabalho. Teve apenas uma única vez, em que ela veio procurar o pai bem depois do fim de seu expediente, eu era o último a sair e a fechar a loja. Depois disso só a vi três meses depois, com um sorriso idiota na boca e uma ultrassonografia na mão.

“Tá vendo? Aqui? É o pipizinho dele”.

Não deixei a menina em paz até vê-la engolir o Citotec. Depois do hospital, onde estancaram a hemorragia interna, fui ao cemitério pedir perdão ao túmulo de vovó. Foi como se eu a ouvisse ralhar comigo através do vento, ao mesmo tempo que voz nenhuma me soprava aos ouvidos: o que não tem remédio, remediado está.

O tempo passou e minhas filhas me deram netas. E netos. Todos fortes e saudáveis. Mas quase todos não queriam saber do mingau de inhame com mel.

“Não quero essa gororoba, vovô, não quero”, diziam e lançavam as tigelas, emporcalhavam as paredes, o inhame grudava e minha hérnia doía pra diabo enquanto eu me curvava pra desgrudar as manchas esbranquiçadas.

“Tem que comer, meu filho. Pra ficar forte com muque igual ao meu”.

“Teu muque é murcho, vô”, e riam e mais tigelas na parede.

Só Rudá gostava do mingau. Do mingau e de mim. Vivíamos grudados e o ensinei tudo (que presta) que sei. Pra ser um homem Jatobá com jota maiúsculo: lavar as mãos antes de mijar, que é mais importante do que lavar depois; contar as cartas no jogo de buraco e ganhar quase sempre; saber quando concordar com o que a mãe mandar pra não ter dor de cabeça; e, claro, como fazer seu próprio mingau se nenhuma mulher o fizer. Os outros se queixavam, diziam que eu não dava atenção igual a todos os netos. Mas Rudá não era meu neto favorito, longe disso — meu neto favorito era o pretinho de olhos puxados. Rudá era meu ser humano favorito. Minha pessoa favorita no mundo todo, meu Jatobá favorito de antes e depois.

Por isso tomei como dever, enquanto vivesse, ensiná-lo tudo pra ser um homem Jatobá e criar seus filhos pra também o serem — coisa de que o frouxo do pai dele jamais seria capaz. Tarefa que só cabia a mim, ainda mais depois que Nael infartou durante uma discussão com a quarta esposa. Sei que esse foi o motivo, e não o miliciano julgado por ele que mandou metralhar seu carro. A partir dali eu era o único dos nossos e dediquei toda minha atenção a Rudá.

Quando ele começou a passar muito tempo no banheiro e sair com a cara cheia de espinhas amareladas de pus, eu que conversei. Levei-o à Vila Mimosa e lá ele foi inaugurado como homem Jatobá, talvez perto de algum lugar em que a bisa trabalhou. Logo depois que minha esposa morreu, surgiram as namoradinhas. Dei conselhos, essa não, essa não também, faça o curso que quiser mas nunca deixe faltar nada aos seus, coisas assim.

E ele virou um rapagão bonito, até sensível, vivia com o violão pendurado, artista, tocava pra mim todos sábados, depois em todos os meus aniversários, depois em todos os meus aniversários por telefone. Cresceu e foi ganhar o mundo. Sumia muito, o danado. Mas eu mandava minhas filhas não reclamarem: homem de verdade tem que desrrumar primeiro pra depois tomar rumo certo. Viver a vida desregrada sem pudor, o quanto puder, antes de acabar com dor nos ossos preso numa casa cheia de mulheres que não param de reclamar.

Reclamavam o tempo inteiro, papai isso de colesterol e cantadas descaradas às amigas de minhas netas, vovô aquilo de dentadura na panela do coletor não sei de quê, toda manchada de vermelho, reclamavam sem parar. Eu as chamava de maritacas, sempre em bando, sempre piando perto do filhote. E o filhote era eu, veja você, que situação. Gritavam tanto que não estranhei quando acordei com a barulheira no meio da madrugada. Na verdade, acordei no meio de um sonho em que uma loira que era a bisa enfiava um punhalzinho em mim, que era o biso.

Gritavam, choravam, puxavam os cabelos, “calem a matraca, suas malucas”, mandei enquanto saía mancando do quarto. Aí lembraram que eu existia, me fizeram sentar, me trouxeram água com açúcar, um rosário de Nossa Senhora e outras palhaçadas. Nada me deixa mais nervoso do que ser tratado feito criança.

“Falem logo, porra”.

Deram mil voltas, alguma festa de jovens usando um monte de porcarias, um show, sei lá, artista é um bando de perdido mesmo, enfiam essas merdas até pela bunda se puderem e morrem, isso, de overdose, Rudá tocava guitarra com eles, Rudá andando com um bando de imbecis não fazia sentido, Rudá, no meio dos idiotas, influenciado com certeza, não sabia onde estava pisando, meu menino ingênuo, overdose, parada cardíaca, Rudá morreu.

Não tive tempo de gritar, de xingar uma das mulheres que me olhavam com as caras inchadas e meladas de catarro, de cuspir no chão, de amaldiçoar deus. Meu próprio coração parou logo depois e já pude ver tudo acontecer, de longe. E desde que minhas filhas e netas ligaram pro socorro, dentro da ambulância e aqui nesse quarto de hospital, estou o tempo todo contando minha história ao pé do seu ouvido.

Digo, do meu ouvido, que seja. Agora que acabei, achei que alguém viria me buscar. Talvez vovó, talvez o biso Ubiraci, não sei. A demora pode ser porque já abria a boca pra praguejar os céus quando infartei. Ou porque essas coisas são demoradas mesmo. Ou porque minhas filhas não deram autorização pra desligar as máquinas.

De todo jeito, espero por aqui. Agora, com o perdão do trocadilho, não tenho pressa. O tempo está igual ao meu coração.

Deixe um comentário