Espírito que anda

@brontops

1.Mexendo em vespeiro

Existe uma lembrança que não costumo contar. Ela é minha mesmo, não foi uma dessas memórias que se inventa, contada por terceiros tantas vezes que de repente se torna sua.

Lembro de estar em um jardim, talvez um parque ou quintal, caminhando em meio ao canteiro, as flores e os bichinhos voando de uma a uma. Não sei se fui mesmo picado. Meu pai me acudiu com tanta força que desembestei a chorar e ele me sacudia no colo, dizendo que não se mexe em vespeiro. Os bichos picam e isso dói.

Tenho certeza que essa memória é minha, pois encostei minha cabeça contra seu peito e sua voz ressoava diferente por dentro, como se meu pai estivesse em um outro quarto e eu escutando através de uma parede.

Sei que essa é lembrança é mesmo minha e não de mais ninguém. É preciso muita intimidade para se ouvir a voz por dentro do corpo. E hoje ninguém quer encostar em ninguém. Tem medo de se tatear, de se encostar, como se fosse pegar doença.

E, às vezes, é só amor. Um outro tipo de vespeiro.

2.Batman irritante

Agora, uma outra memória. Tinha três, quatro anos e eu já sabia o que era morte.

Porque eu estava de repente na casa dos meus primos. Eram dois irmãos, um pouco mais velhos que eu e que não me davam muita atenção. Tu ainda é um bebezinho, me diziam do alto dos seus oito anos.

Me emprestaram seus brinquedos, os menos importantes talvez. Carrinhos sem roda; uma coleção de cubos de madeira, em forma de torres e casas, que poderiam ser encaixados para montar uma cidade; um playmobil careca; super heróis de plástico da Gulliver.

Fiquei brincando sozinho num canto da casa. Estava entretido com a cidade e os carrinhos. Os heróis de plástico não se moviam, estavam em posições estáticas. O que mais me irritava era o Batman. Estava petrificado em uma posição muito estranha: o braço direito relaxado junto ao corpo e o esquerdo estirado no ar, em um ângulo de noventa graus. Podia se pensar em um tapa congelado no ar. Imagino que deveria haver uma capa de pano para o boneco, e o braço estava daquele jeito para apoiar a capa e lhe dar um ar de Drácula. Mas sem a capa, o boneco parecia uma espécie de crucifixo quebrado.

Enfim, fiquei ali na sala brincando com a cidade emprestada. Não sei onde estavam meus primos, eu era bebezinho para eles. Mas meu tio e minha tia estavam lá. Conversavam sem muita discrição, certos que eu não iria entender. Talvez acreditassem que o volume alto da televisão preto e branco abafaria as palavras deles. Externavam preocupações. Entendi que havia algo errado e era com meu pai. Ele havia morrido. Sem que os adultos notassem, fiquei chorando quietinho, empilhando prédios e casas e telhados e fazendo com que carros sem rodas atravessassem aquelas ruas.

Quando minha mãe apareceu para me buscar, devia ter se passado alguns dias, não sei. Achei ela mais magra. Usava uns óculos escuros enormes, como era a moda naquele tempo. Tinha lenço na cabeça. Tirou os óculos para me abraçar forte, tentou sorrir. Seu olhar congelado estava numa expressão que só reconheci muitos anos depois, quando adulto e fui eu mesmo com minhas próprias pernas para outros enterros. Me botou no colo, depois no banco traseiro do fusca e fomos para casa. Fiquei deitado olhando o céu e a fiação dos postes.

3.A comodidade trouxe um incômodo

Eu não era um diretor, mas estava em uma posição no Conglomerado que me permitia certas comodidades e uma delas era uma secretária. Mudaram o nome do cargo para soar mais inclusivo, mas é a mesma coisa. Enquanto assinava alguns documentos, ela me avisou haver um rapaz chamado G que gostaria de falar comigo. Ela fora treinada para se livrar de todo tipo de chato, mas dessa vez ela ficou na dúvida.

-… é sobre seu pai. Insistiu para uma conversa rápida de cinco minutos para se apresentar.

Deixou o telefone em um papelzinho em vez de usar o zap, realçando que não era assunto profissional. Considerei passar o número para meu advogado investigar, mas naquela noite eu estaria no Tom Jobim para pegar a ponte aérea, ponderei que poderia conceder os cinco minutos.

G era paulista, percebi pelo sotaque. Não era do mundo corporativo, mas foi objetivo. Explicou que estava fazendo uma pesquisa sobre uma revista na qual meu pai havia participado. Sabiamente, não disse sobre o que era a revista, ou o assunto poderia ter morrido ali. Eu sabia que meu pai era da área gráfica e era ilustrador, mas minha mãe só me mostrou alguns anúncios publicitários velhos como amostra de seu trabalho. A gente já não tinha mais nada daquilo.

Ele se identificou como pesquisador, por isso acreditei ser um professor ou um jornalista cultural. Naquela semana, teria várias reuniões em São Paulo. Imaginei que esses encontros me tomariam o almoço e o jantar e calculei que poderia encontrá-lo no café do hotel, teríamos uma hora para conversar. Agendamos para o dia depois de amanhã.

4.Minha família também veio da Europa

Às vezes, melhor ter alguma história para contar do que nenhuma. A maior parte dos pretos que conheço pouco conhecem a história de suas famílias. Sabe-se, quando há, do lado italiano, alemão, português… mas do lado negro existem umas direções vagas. Vieram de Minas, de Santos, do sul. Não é bem uma história, mas uma geografia.

O que me disseram é que queimaram muitos documentos em relação a escravidão… justamente para não alegarem expropriação e exigirem reparações. Então se havia algo a ser descoberto, perdeu-se enquanto queimavam as provas.

Nesse sentido, sou um privilegiado. Meu pai nasceu em Caiena, Guiana Francesa. Era filho de um homem branco, meu avô André, e de uma mulher maroon, minha avó Veronique. Quando minha mãe conheceu o sogro pessoalmente, falaram muito a respeito de mim e pouco do filho e da vida deles por lá na Guiana. Gosto de imaginar que meu avô foi para Caiena fugir do governo colaboracionista de Vichy, gosto de pensar que ele era um judeu fugido, mas a verdade é que pode ter sido algo bem mais prosaico. Nos anos cinquenta, a Guiana Francesa adquiriu status de Departamento Ultramarino e pode ser que ele tenha ido para lá fazer dinheiro, um pouco no mesmo espírito que levou tanta gente para Brasília ou para Palmas.

Lembro de meu avô André, um velho branco com a pele castigada pelo sol, muito vermelho, um verdadeiro camarão. Ele já era viúvo quando veio nos visitar e trouxe um álbum de fotos, no qual há a única fotografia de Veronique. Maroons eram os quilombolas da Guiana. A Revolução Francesa proibiu a escravidão – o que parece ser coerente, se parar para pensar – mas Napoleão a retomou para obter o apoio dos senhores coloniais a seu golpe de estado. Algo que passa batido no percurso de glórias do general. Os negros libertos fugiram para a floresta e formaram quilombos às margens dos mangues amazônicos.

Meu avô André tinha interesse por arte e levou consigo a maior parte da produção de seu falecido filho, aquilo que minha mãe não havia conseguido vender. Explicou que o filho aprendera a desenhar via cursos de correspondência, um tal de Insitut Universel Français d´Enseignement à Distance. Mandou o filho para fora, onde teria onde exercer seu trabalho. Não faço ideia porque foi para Nova York e não Paris.

Meu avô visitou o túmulo do filho e choraram juntos, minha mãe e ele. Ele prometeu enviar dinheiro para minha educação e que me visitaria sempre que possível. Eu sei que realmente ajudou a financiar meu estudo – minha mãe fazia questão de me relembrar disso – mas ele não retornaria mais. Ficou doente e morreu creio que dois anos depois, soubemos por um telegrama do Consulado.

5.Um gordinho faminto

G era um homem mais velho, uns cinquenta sessenta anos. Um tanto gordo, óculos de lentes grossas e língua presa. O cabelo ralo era penteado de forma a cobrir o que era possível. Vestia-se formalmente, mas de camisa aberta, sem gravatas. Poderia se confundir com qualquer outro profissional ali no salão, mas algo em seu jeito abobado sugeria um professor, alguém mais das ideias do que da prática. Antes de começarmos, sugeri que se servisse no buffet, por minha conta. E ele realmente se aproveitou, foi e voltou várias vezes, ocupando o seu lado da mesa com pratos e copos, frios, pães, frutas, queijos e sucos, como se não pretendesse comer até o final da semana.

Somente ali revelou que pesquisava uma revista brasileira de quadrinhos dos anos 70. Pouco circulou para além da capital paulista e tinha o nome pouco provável de Cucamonga. Precisei interrompê-lo duas vezes para me certificar: Quadrinhos? Turma da Mônica? Homem Aranha? Sim, eram quadrinhos, mas de teor adulto, sem ser pornográfico, mas sem se furtar a isto também.

Desde que saí do Colégio não pensava em quadrinhos. Em arte, de modo geral. O que se sabia de arte era para paquerar garotas. Meus colegas eram exatas demais. Depois disso, na minha vida profissional no Conglomerado, havia pouco espaço para arte. Não só porque éramos tecnocratas, engenheiros e administradores em sua maioria, mas porque aquele não era assunto para dinheiro. Cultura entre nós é mais uma forma de ostentar ou lavagem de dinheiro do que exatamente transcender, então fiquei um tanto paralisado pela conversa de G que continuou falando sem ter percebido minha pasmaceira. Explicou que a Cucamonga era uma revista de baixa tiragem e com poucos leitores, mas ali havia histórias jamais publicadas em outros lugares nem no Brasil, nem no mundo, que seus editores desconhecidos tinham contatos com russos, italianos, argentinos. Mesmo no caso dos brasileiros havia material especial:

-Alguns autores brasileiros que nunca publicaram histórias com algum brilho fizeram ali suas obras primas. Caso da versão de Zéfiro para Delta de Vênus. Ou do Necromanti com a história do Curumim no espaço. E também de seu pai, Antoine Valery, Tom Valery, com histórias não autorizadas do Fantasma, o Espírito que Anda.

6 A marca da caveira

Quadrinhos pouco circularam em casa quando criança. Não que não houvesse nada. Às vezes aparecia um Zé Carioca ou um Cebolinha. Mas geralmente quem era o responsável pela formação “gibizística” tendia a ser o pai. O pai indo na padaria, passando na banca para comprar jornal e cigarros e trazer alguma besteirinha para o filho, um gibi. Sem esquecer do próprio jornal com sua página das tirinhas, sempre ao lado do horóscopo. Mas sem meu pai e com minha mãe se virando para todo lado para tentar me criar, sem tempo ou com dinheiro contado, cresci sem contato com esse mundo.

Dito isso, eu tenho algumas lembranças de quadrinhos que li. Creio que foram memórias despertadas por G e sua conversa sobre gibis enquanto comia madeleines. Foi um pouco surpreendente, como perceber que ainda se sabe andar de bicicleta, cantar letras de ciranda ou jogar bolinhas de gude.

Recordei uma do Pelezinho, na qual as bolas de futebol adquiriam vida e se rebelavam contra as crianças que as chutaram por toda a vida. Uma outra dos Irmãos Metralhas aprontando um golpe na Grécia Antiga. E uma do Batman, essa me lembro com muitos detalhes. Batman havia sido envenenado pelo Coringa com um veneno que provocava risos incontroláveis… em três dias, ele morreria se não encontrasse o antídoto. De repente, em meio a investigação, Batman sucumbia a crises de riso. No clímax da história, o herói percebe que a droga o deixava sensível apenas a piadas muito ruins… e para resistir ao que o Coringa dizia, ele se concentrou em cenas realmente engraçadas de filmes antigos… e assim consegue vencer o inimigo e obter o antídoto.

Não sei exatamente porque me recordo especialmente dessa. Talvez já fosse um pouco mais velho, uns dez, onze anos. Não conseguia tirar a história da cabeça não somente porque ela era boa, mas também porque ela me lançou uma dúvida: o que era uma boa piada? E uma ruim? Como distinguir uma da outra? A ideia de onde aparecia o humor me intrigava. As primeiras piadas que aprendi eram todas racistas e contei elas impunemente, até o dia em que minha mãe me ouviu e me estapeou para eu parar de falar merda e se encerrou ali minha carreira de humorista. Jamais seria um Mussum ou Grande Otelo.

Já sobre o Fantasma… Lembro apenas de sua figura mascarada de colant vermelho e uma sunga listrada de preto e amarelo sobre as calças. Era um herói que vivia na África ou coisa assim. E tinha um anel que imprimia uma marca de caveira no rosto dos bandidos. G fez questão de me explicar quem era o Fantasma e toda sua importância, mas acho melhor poupá-los disso por enquanto. Reforçou que meu pai chegou a trabalhar como assistente nos estúdios da King Feature antes de vir para o Brasil e ficar por aqui em definitivo. G me perguntou se sabia porque Tom Valery quis viver no Brasil. Disse o que minha mãe contou, que se conheceram num carnaval no Rio e se apaixonaram, simples assim. Queria saber se ainda havia originais dele na família e eu acreditava que não. E então perguntou como meu pai morrera.

-Minha mãe só contou quando eu estava na universidade. Meu pai foi morto pela polícia… recusou a uma ordem de parar de um camburão e atiraram nele. Encontraram uma porção de maconha e uma arma com numeração raspada.

-E o que sua mãe falou a respeito?

-Ela não sabia o que pensar. Meu pai tinha amigos que gostavam de um estilo de vida alternativo, e ele mesmo era uma pessoa muito livre e desimpedida. Sumia por dias e dizia estar trabalhando em um projeto, em uma cenografia e aparecia bêbado em casa, falando francês, inglês e espanhol, uma maçaroca de línguas. Vivia reclamando que ilustração não dava dinheiro para ninguém, seja aqui ou seja nos Estados Unidos. Eu não me recordo dele, mas tenho a sensação vaga que ele era um homem difícil.

G refletiu um pouco antes de comentar:

-Não sei se deveria dizer isso, mas aqui em São Paulo antigamente era comum os camburões andarem com um kit-deu-merda: um pouco de droga e um revólver velho para rechear de culpa um cadáver inocente.

7 Um homem sem padrinhos

Meu tempo livre estava acabando e explicitei esse meu limite. G se comprometeu a enviar um scan da revista Cucamonga número seis. Reclamei do nome

-Tem algo a ver com a Cuca ou com a Monga?

Explicou que Cucamonga era o nome do estúdio onde Frank Zappa gravava seus discos. Perguntei quem era mesmo Frank Zappa, ele não se preocupou em responder. Pareceu decepcionado não somente com isso. Em certo ponto de nossa conversa, expliquei que ficção, que literatura, filmes, nada disso me interessava de verdade. Mas combinamos de continuar em contato, estava sinceramente curioso com essa história secreta de meu pai.

Depois dali fui para reunião do departamento de Operações Estruturadas. Deixamos nossos celulares em um armarinho, cada um com sua chave e depois fomos para a sala. Cada vez que nos encontrávamos presencialmente usávamos um edifício diferente, precisávamos fazer isso depois que nosso Departamento de Risco Corporativo considerou muito fácil o grampo em reuniões por vídeo.

Éramos quarenta. A maioria de nós, homens. Alguns eram estrangeiros, ou quase isso – viviam há tantos anos no exterior que puxavam um pequeno sotaque. Eu me dava bem com o colombiano que cuidava das atividades no Peru, era um cara muito engraçado. Sempre vinha com alguma piada racista e eu respondia com algo sobre narcoterrorismo e perguntava se aquela sombra branca sobre o nariz era pasta de dente ou coisa pior.

Ali diante do projetor, escutamos a apresentação de nosso operador paulista e seus prognósticos quanto a abertura das propostas para a obra do túnel X. A obra era polêmica, destruiria mata nativa em terras quilombolas.

Estávamos lá para planejar os métodos de convencer os articuladores internos públicos a serem mais receptivos. A maioria deles conhecíamos, exceto um homem que estava ocupando a cadeira pela primeira vez após a morte por infarto de seu predecessor. Este homem era desconectado politicamente e sem padrinhos. Era uma área técnica que não era atraente do ponto de fluxo de recursos. Apenas recentemente uma mudança na lei tornou necessária o apoio desse departamento, criando esse problema para nós. Por ser um recém chegado, era difícil apurar sua índole e considerávamos usar nossa influência para alterar o destino do parecer.

-Não seria melhor esperar o parecer? Vai que o homem nos é favorável.

Todo mundo riu do colombiano, ele inclusive. Estava sendo irônico. Se fosse para contar com a sorte, a empreiteira não precisaria de Operações Estruturadas.

8 Motivos ruins para não ir ao puteiro

Eu teria mais uma noite em São Paulo. Os quarenta colegas executivos, as mulheres inclusive, foram ao puteiro mais famoso da América Latina. Eu já havia estado tantas vezes lá nesses anos empregado no Conglomerado que não estava a fim. Usei uma enxaqueca como álibi. Pedi para cumprimentarem minha loira e fui ler a história que meu pai escreveu e ilustrou na tela do meu notebook.

G em enviou dois emails. A edição de Cucamonga número seis em pdf e a edição número nove, a última antes de encerrarem a publicação. Em cada uma havia um quadrinho feito pelo meu pai. Ele não escondeu que preferia a história da edição seis, mais elaborada, e como havia uma ordem cronológica, comecei por esta.

O gordinho disse que a história era a obra prima de meu pai. Se aquela era a obra prima, então entendi sua dificuldade de arrumar um emprego. A história começava esboçando sua origem, quatrocentos anos atrás, com o antepassado que iniciou sua atividade de herói contra o crime. Fazia um apanhado do personagem, Caverna da Caveira, pigmeus Bandar, trono, cavalo, cachorro.

G comentaria mais tarde que as histórias precisavam sempre oferecer este contexto. Não se sabia quando o guri ia ler nova revista, havia essa necessidade de retomar sempre, um pouco como as novelas e a Netflix, deixar tudo bem mastigado para o público não se perder entre uma conversa e outra. No caso ali, o consumidor final eram as crianças. Então penso que fazia algum sentido.

Fico aqui na dúvida se deveria fazer o mesmo, apresentar o contexto do Fantasma. Porque como personagem, ele me passa um certo vazio. Tudo que se sabe não é exatamente sobre ele, mas de fatos, lugares, fenômenos que o cercam. A maioria dos heróis tem uma história de vingança como origem. O Fantasma também, mas a história não começa com ele. Inicia-se quatrocentos anos atrás, com um antepassado que sofrera o ataque de piratas, piratas que fizeram o navio naufragar e seu pai morrer. O homem decide diante do esqueleto de seu pai se vingar e a lutar por justiça, determinando o destino para si e para seus filhos. Corta para G:

-Aí já temos uma diferença entre o Fantasma e tantos outros heróis, ele faz o que faz por legado, uma herança, respeito a uma tradição familiar. Todos acreditam que o Fantasma vive por séculos, sem saber que eles são substituídos por outros que continuam seu trabalho contra o crime.

Não chamaria de tradição, mas de maldição. Filhos tendo que seguir a vida dos pais, sem questionar ou procurar um outro caminho. Não se explica o motivo, mas o Fantasma é auxiliado desde sempre por uma tribo de pigmeus, os únicos que conhecem o segredo de sua família de brancos vivendo na África, num país imaginário chamado Bangala. Gostaria de comentar o que acho dessa separação e dessa submissão, mas prefiro ficar calado. Deixo G continuar, falar que o Fantasma vive numa caverna cuja entrada lembra um crânio, a Caverna da Caveira. Que existe uma montanha com o rosto do Fantasma. Que ele possui um Lobo chamado Capeto e um cavalo branco chamado Herói. Que para se corresponderem com o Fantasma, usa-se um serviço de macacos-correio. Que existe uma praia de areia dourada e uma ilha onde predadores convivem com animais herbívoros em paz.

Acho certa graça nessa coleção de brinquedos ao redor do personagem, me faz pensar no Batman com seu Batmóvel, Batplano, e uma porção de batbesteiras. Mas isso não é tudo: o Fantasma tem sua própria milícia, uma força policial chamada Patrulha da Selva, na qual ele é o comandante secreto e ainda ele tem contatos com o presidente de Bangala. Começei a ter pena dos bandidos desse país, com um único sujeito tomando conta secretamente de tudo que existe ali. Parecia que para lutar pela justiça, tinha que se começar sendo bastante injusto.

Voltando a história de meu pai: como eu nunca desenhei não tenho muito como comentar, então essas descrições elaborei com o passar dos anos, na medida em que fui entendendo o que estava vendo. Os quadros regulares, quase todos do mesmo tamanho. Os desenhos um tanto duros, esquemáticos, sem vida. Tudo isso se articulava em minha cabeça para passar a ideia que era algo bem chato, muito distante da explosão que havia no Pelezinho, na narrativa no Batman, no humor dos Metralhas. Eu não estava gostando. G defenderia meu pai, dizendo que ele estava fazendo uma paródia inteligente. Eu não tinha tanta certeza disso.

A história se passava nesse mundo do Fantasma, mas ele não era o protagonista. O chefe misterioso da Patrulha da Selva era o próprio Espírito que Anda, que jamais mostrava seu rosto, dando instruções apenas por rádio ou telefone ao seu principal subordinado, o Coronel Wotaro. Wotaro, era a maior instância dentro da milícia/força policial da Patrulha da Selva depois do Fantasma. Mas sua participação se resumia em ficar intrigado com o tal chefe sem rosto.

Na paródia desenvolvida por meu pai, Wotaro é quem caminharia com a história. O Coronel aparecia trabalhando intensamente, assinando papéis, fazendo reuniões e indo para missões, os jipes seguindo em carreata pela cidade e depois pela selva, fazendo prisões, em meio a tiroteios, indo testemunhar e prestar depoimento em tribunais, assistindo a autópsias de cadáveres encontrados na periferia de Morristown.

Em paralelo, o Fantasma aparecia em seu “lar”, a Caverna da Caveira, lustrando objetos na Sala dos Tesouros, lendo antigas crônicas da família, praticando tiro ao alvo ou indo ao seu bar predileto em Morristown para tomar leite.

Mas a história não era apenas essa comparação de rotinas entre o herói do gibi e seu associado. Ela começava com um crime, um cadáver esfaqueado sete vezes numa rua de terra numa favela de Morristown. Wotaro não participava diretamente, mas recebia informes durante o dia sobre o que estava acontecendo, incluindo aí sugestões que a Patrulha da Selva fazia interrogatórios na base da tortura: silhuetas de pessoas amarradas, fios elétricos, banheiras, troncos, punhos. Ao fim do dia, descobriam-se os culpados: sete crianças. O homem morto as usava para pequenos furtos e elas se revoltaram após ele “mexer” com uma delas. As crianças foram para o centro reformatório (Lê-se uma placa escrita FEBEM da Selva), Wotaro voltou para sua casa, com uma expressão indecifrável (um desenho ruim), o telefone tocou. Era o chefe secreto perguntando como havia sido o dia: Wotaro responde que não havia nada extraordinário a relatar.

Já a segunda história – a da edição nove – rompia com esse formato muito rígido dos quadrinhos do Fantasma e era mais curta e mais interessante. Mas não o suficiente para me fazer orgulhar de meu pai.

Ou de me fazer pensar que deveria ter ido ao puteiro junto com os demais quarenta executivos.

9. Velho ditado da selva: O Fantasma caminha invisível, mas sua presença é sentida em todo lugar.

Fiquei pensando no que meu pai havia feito: ele trabalhara na elaboração do Fantasma, tinha suas próprias ideias, ideias que nunca se expressaram ali nas histórias que desenhou, ele que não iria se defrontar contra o estúdio e o mercado, era um trabalhador. Somente ali, naquela revista pequena e independente, se sentiu à vontade para se colocar na história como deveria. Foi somente ali que seu espírito andou.

Na reunião do dia seguinte, decidiram-se planos de ação; nossos executivos iriam se dedicar na aprovação das obras do túnel X. Enquanto eles falavam sem rodeios de subornos e de influenciar agentes públicos, refleti sobre o Chefe Secreto da Patrulha da Selva, sobre aquele homem fictício trabalhando pela justiça e usando para isso todos os meios possíveis nos bastidores. Que talvez aquela ideia meio ingênua de homens mascarados buscando fazer o bem fosse o espelho gentil de outra, que acontecia todos os dias em salas de reunião como essas, em negociações espúrias sobre o destino de todos.

Pediram minha opinião sobre os próximos passos, eu que já tive tanta experiência em projetos similares. Preferi me abster, aleguei que nunca havia viajado para aquele Estado e pouco poderia colaborar. Não sei se estranharam meu silêncio, mas para ser sincero pouco importa. No final do dia, houve um jantar e apenas os mais animadinhos quiseram esticar a noite. A maioria já tinha voos marcados logo pela manhã, encontraria vários deles no aeroporto.

Quando entrei no meu quarto de hotel, tomei um susto ao acender a luz: lá estava L, assistente do Ministério Público. Estava na poltrona em meio a várias garrafas abertas vindas do frigobar, celular aceso na mão.

-Quer me matar do coração?

-Seria uma boa vingança, você quase me matou de tédio. Demorou demais, não aguentava mais assistir YouTube no escuro. Pensei que havia desistido. – bocejou e levantou-se para espreguiçar – Está aí com a caneta?

-Não sei quantas horas da reunião ela gravou, mas deve ser o suficiente.

L guardou a caneta em seu terno e foi balançando em direção a porta do quarto.

-E agora? Perguntei.

-Minhas bebidas ficam por sua conta. O resto, você espera. Vamos checar sua filmagem e considerar sua ajuda no momento de executar as prisões. Entramos em contato.

E saiu. Afrouxei a gravata, me abaixei para abrir o frigobar e ver se havia restado alguma coisa para se embebedar. Seria uma longa noite sem dormir.

Toda criança de Bangala

Toda criança de Bangala sabe que nas profundezas da floresta negra vive uma criatura sobrenatural, um homem branco que caminha entre as pessoas e observa o que elas estão fazendo. Ela já está entre nós há quatrocentos anos e muito se fala e se teme sobre este ser. Embora viva e prefira a floresta, não é raro que frequente as aldeias e habitações humanas, circulando sem jamais mostrar o rosto.

Toda criança de Bangala sabe que este homem branco está por trás de tudo, envolto nas sombras e fazendo as decisões por trás dos presidentes, pouco importa em quem se vote. Esse homem branco também está por trás da polícia e da patrulha da selva, e parece mais preocupado verdadeiramente com os animais da floresta do que com o povo de Bangala.

Toda criança de Bangala sabe que este homem branco procura uma esposa branca para casar. Apenas mulheres brancas, e as meninas de Bangala respiram aliviadas. Mas somente até certo ponto.

Toda criança de Bangala sabe que este ser possui dois anéis, um na mão direita, o Anel da Caveira e outro na esquerda, mais próxima do coração, o Anel da Justiça. Enquanto o Fantasma marca os ímpios, os patifes e os cruéis com o anel da Caveira, ele usa o anel da mão esquerda para identificar as pessoas sob sua proteção. Incluem-se aí sujeitos que eventualmente incorreram no caminho do crime por uma fraqueza ou uma dificuldade.

Por estar há quatrocentos anos circulando pelo país de Bangala, muita gente nas ruas possui essa marca impressa no rosto após um soco. O mais comum são bandidos e estelionatários que despertam após a porrada e descobrem impressa no queixo a marca da caveira, identificando-o para sempre como alguém do mal.

Se você observar há aquele sujeito ali com sete marcas no rosto. Ele não se emenda e nem vai se emendar, e não se importa. Para ele, quanto mais marcas ele tiver na face, mais vilanesco ele será; a marca da Caveira tornou-se um símbolo de ostentação. As crianças sabem que há quem implore por um soco do Fantasma.

Há também quem mande fazer a marca do Bem. Aquele pastor de igreja ali, arrancando dízimo dos fiéis: tem dezoito marcas do Anel da Justiça, as quais utilizada para difundir sua palavra entre o povo e angariar votos na próxima eleição. A gente sabe que, secretamente, ele usa um tatuador para fazer as marcas. Fez tantas marcas que o Fantasma mal tem onde acertar em seu rosto: a marca da Caveira sumiria uma dentre as outras.

Toda criança de Bangala sabe que o Fantasma é um bebedor de leite. E que o demônio o serve feito um cão. E que usa um cavalo branco como o de um dos cavaleiros do Apocalipse.

Toda criança de Bangala sabe que no fundo da caverna onde vive, o Fantasma possui uma sala de tesouros. Pois não é por ser espírito que ele não deixa de ser materialista. E dentre esses tesouros – que bem poderiam estar no Museu de Morristown –  está a Taça de Alexandre, onde Alexandre o Grande derramou algumas lágrimas pois não havia mais terras para o Europeu conquistar. Então ele precisou criar algumas, como a própria Bangala.

Toda criança de Bangala vai dormir sabendo deste fato: escolha bem o que você pretende ser – um dia o Espírito que Anda irá aparecer e, com um soco, irá marcar você com o bem ou com o mal. O adulto que conta essa história sai do quarto, certo que a criança saberá escolher sabiamente.

Mas as crianças de Bangala não se importam, elas já sabem o que serão desde sempre, o bem ou o mal não é uma questão para elas.

A verdadeira questão é: por que sempre através de um soco?

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