Ao vê-la caminhando do outro lado da rua, continuou andando na outra direção, reduzindo a velocidade dos passos até chegar na esquina, onde parou e lentamente foi virando o tronco, tentando decidir se a relação tinha acabado bem ou mal. Haviam se conhecido na faculdade e engataram um romance logo no primeiro período, durante as provas finais, quando a disposição para o álcool aumenta e as más decisões, também. Apesar de Silvia não ter sido uma má decisão, ele agora opinava. Lembrou dos cabelos castanhos e lisos cobrindo as laterais do rosto redondo, deixando entrever as pontas das orelhas de abano que ela prometia consertar quando sua irmã terminasse a especialização em cirurgia plástica. Era o único ponto, nas palavras de Silvia, que a incomodava no seu rosto. E as orelhas fazem parte do rosto?, ele provocava, ou são independentes?, e assistia aos riscos na pele da bochecha de Silvia se abrindo acima do sorriso. Por tabela, talvez, também os olhos se transformavam em fendas, afundando com certa graça no rosto, sobretudo quando dava longas tragadas no cigarro. Não, não tinham terminado mal. Embora não lembrasse das circunstâncias do rompimento, quando há coisas muito ruins, nesses casos, a gente sempre se lembra.
A miniatura de Silvia apontava quase no fim da avenida, e ele apertou o passo para alcançá-la. Estava parada em frente a uma banca de revistas, antes do semáforo que regulava os cruzamentos. Atrás das nuvens, o sol líquido tinha um aspecto de clara em neve, e sua luz passava através de um filtro leitoso para chegar nos pedestres. Silvia protegia os olhos com as mãos enquanto guardava na bolsa o maço de cigarros que acabara de comprar, com certeza o Camel branco que sempre fumou. Ia atravessar a rua quando uma voz gritou na sua direção e, dois segundos depois, o dono daquela voz encostou a mão no seu ombro.
Silvia, tudo bem?
Ela se virou para ele, deixando um gemido assustado escapar. Não mostrou nenhuma covinha nas maçãs do rosto, nem seus olhos se apertaram joviais e contentes. Sua face carregava a mais honesta apreensão.
Não, você está me confundindo.
Ele olhou bem para o rosto da mulher, o máximo que pode sem parecer um tarado, antes de ela recuar um passo e endireitar o corpo para seguir caminho. Mas ele estava convicto.
Silvia, é Daniel. Fomos namorados há uns vinte anos.
Ela não pareceu impressionada.
Amigo, não sou essa Silvia. E estou atrasada.
Atravessou a avenida e dobrou a segunda esquina, na direção do centro da cidade. A barra do vestido preto ondulava na altura das panturrilhas à medida que seus passos incisivos pisavam a calçada. Daniel observou sua silhueta desaparecer na rua arborizada onde talvez trabalhasse. Ali havia agências de publicidade, mídia e áreas afins, se é que Silvia continua atuando no ramo. Se é que Silvia era Silvia. Tinha a mesma voz e o mesmo jeito de se surpreender, ele lembrava. Nem parecia que envelhecera vinte anos, talvez nem dez. No entanto, havia verdade na sua recusa, ela não fingia não ser quem era. Ou, quem sabe, ele não a tivesse conhecido tão bem – afinal, não tinham nem vinte anos de idade na época – e ela fosse uma boa atriz tentando se desvencilhar de um quase estranho. Pode ser que tenham terminado mal e ele não se lembrasse com exatidão.
Passou o dia na secretaria distraído em frente ao computador, checando e-mails e adiando as revisões dos textos, pensando no episódio com Silvia. Ela usava um corte de cabelo similar, só um pouco mais curto, na altura do queixo, como as mulheres de trinta e poucos da cena alternativa da cidade com quem ele costumava sair. Na época não tinha tatuagens, hoje era quase certo que tivesse alguma no antebraço ou na coxa. O vestido tinha mangas, embora fizesse calor, e disso podia concluir que trabalhava em um lugar com ar-condicionado, o que não ajudava muito. Antes de entrar no trabalho, enquanto fumava o último cigarro na rua, deve ter contado para alguma amiga, às gargalhadas, sobre o maluco que encontrou na rua jurando que a tinha comido vinte anos atrás.
No ônibus, voltando para casa, mandou mensagens para os amigos mais próximos, mas ninguém sabia de Silvia. As últimas vezes que a tinham visto datavam da época em que se formaram, mais precisamente nos vários eventos da formatura, entre churrascos, festas à fantasia e solenidades. Um deles ouvira, há uns anos, que Silvia tinha se mudado para São Paulo, mas não sabia dizer quando nem de quem. Aquilo não significava nada, ela podia muito bem ter voltado e não ter dito para ninguém, afinal a turma da faculdade já não era mais tão próxima. Foi dormir com a dúvida na cabeça e na manhã seguinte já tinha se esquecido.
No fim da semana aconteceu de novo. Andava até o ponto de ônibus quando viu a mulher atravessando a avenida na direção da rua arborizada em que desapareceria depois de uns metros. Desta vez correu na calçada paralela, certificando-se de que ela não o percebesse, até ultrapassá-la para poder atravessar e conseguir vê-la caminhando de frente. O cabelo estava mais escuro, quase preto, com uma franja comprida cobrindo toda a sua testa. Vestia calça jeans justa e camiseta de uma banda que ele desconhecia. Teve certeza de que era ela quando a viu sorrir, falando ao telefone, e as covinhas saltaram das maçãs do rosto e os olhos se apertaram em riscos de satisfação.
Silvia, sou Daniel. Lembra?
Como?
Daniel, seu ex-namorado. Eu sei que é você, Silvia.
Ele suava e ofegava. Não estava acostumado a correr e a situação o deixava ainda mais nervoso. Por que ela estava fazendo aquilo?
Moço, não te conheço. Você deve estar me confundindo.
Não é possível. Nós conversamos anteontem ali no cruzamento, eu sei que você lembra de mim.
Você está me confundindo. Meu nome é Manuela e eu nunca venho aqui.
Ele deu mais um passo na direção dela e fez menção de tocá-la no braço, que de fato continuava sem tatuagens.
Não encosta em mim. Ou chamo a polícia.
Disse a última frase em um volume mais alto, de propósito, e um homem que olhava a vitrine de uma loja de eletrônicos se virou para os dois. Daniel se afastou e a deixou passar. Os dois se encararam e ele teve, mais uma vez, certeza de que era Silvia que o olhava. Continuou observando o caminho que ela fazia, tentando juntar mais elementos para sua investigação. Mas agora eram dois os homens que se viravam na sua direção, além do flanelinha que trabalhava no estacionamento ali perto. Achou melhor voltar ao percurso original e, atordoado, acabou pegando o ônibus errado para o trabalho. No fim do dia, precisou compensar a hora perdida, e durante todo esse período afirmou para si mesmo que não voltaria ao assunto, nem se a encontrasse de novo.
Mas àquela altura a danação já havia se aprofundado. Na terceira vez que a viu, ficou observando de longe. Estava no supermercado, na fila do açougue, quando uma mulher entrou empurrando o carrinho pelo corredor dos enlatados. A princípio não a reconheceu – a saia larga, até os joelhos, e a blusa de estampa florida não faziam seu estilo –, mas os passos firmes, apesar de lentos, não deixaram dúvida e, depois de pegar conservas de palmito e de ervilha, Silvia passou bem na sua frente, olhando a vitrine dos cortes bovinos. Tinha os cabelos empilhados num coque no topo da cabeça, uma cabeça grande demais para o seu corpo, assim como as orelhas, envelhecidas e curvadas sobre as mandíbulas. Enquanto ela retirava uma senha no balcão, Daniel deixou a sua cair no chão e saiu andando em linha reta até sair do supermercado, as mãos espalmadas nas têmporas como viseiras. Quando chegou em casa, fechou todas as janelas, cerrou as cortinas e ligou o ar-condicionado, largando o corpo na cama e abraçando o escuro.
Não conseguiu dormir nem conseguiria nos próximos dias, porque é o que acontece a alguém que está sendo perseguido e, por intuição, reconhece a ruína instalada. Não entendia as razões, Silvia nunca tinha sido das namoradas mais memoráveis. Pensou em procurar ajuda psicológica, mas o que ia dizer? Que sua ex-namorada de vinte anos atrás o assombrava pela cidade e insistia que não era quem parecia ser. Não tinha histórico de transtorno mental, era uma pessoa equilibrada e tinha uma vida comum, um funcionário público padrão. Revisava textos, era atento a detalhes, a regras, sabia o que existia e o que não existia.
Mas em nenhum momento aquilo importou. Continuou acontecendo.
No ônibus, indo para o trabalho, precisou saltar dois pontos antes, pois viu Silvia procurando o cartão na bolsa para passar na catraca; deixou de ir aos restaurantes na hora do almoço, com medo de encontrá-la, como acontecia pelo menos duas vezes por semana; convenceu o porteiro a pegar seus pedidos por aplicativo para não correr o risco de interagir com a entregadora Silvia; deixou de frequentar a academia do bairro, por motivos óbvios; deletou suas redes sociais e parou de assistir a filmes e programas de televisão, cujos rostos das artistas eram comuns demais para confiar. No trabalho, começou a perder os prazos e a entregar os textos com erros. Ao cabo de dois meses, conseguiu um laudo num consultório indicado por um amigo afastando-o por estafa mental. Naquela noite, sonhou com o rosto de Silvia saindo pela tela do celular.
Zonzo da noite mal dormida, Daniel acordou quando as batidas na porta se tornaram insistentes e mais fortes. E então, ao ouvir seus passos se aproximando, uma voz de mulher surgiu do outro lado.
Bom dia, é a agente da dengue.
Ele já sabia o que ia encontrar, mas não havia outro jeito de mandá-la embora. Qualquer comportamento intempestivo só atrairia mais gente, mais rostos. Vestiu uma camiseta e se aproximou devagar do olho mágico, sentindo o corpo esquentar. Já imaginava que o colete azul e o boné da prefeitura cobrindo os cabelos seriam distrações para reconhecê-la, mas não era Silvia quem estava ali. Era de fato uma estranha para quem ele abria a porta, e a sensação de alívio que buscava desde a primeira aparição da ex-namorada fez seus ombros, rígidos na altura do rosto, descerem um centímetro até sua posição original.
Mostrou a ela que não tinha plantas nem animais de estimação na casa, mostrou as pias sem vazamento, os baldes vazios, abriu o dispenser da geladeira. Ela pingou um remédio nos ralos e na privada e, enquanto ele vasculhava o armário em busca do pote de café para enfim começar o dia, a agente da dengue elevou a voz para perguntar, do banheiro, onde ele deixava a ficha de acompanhamento das visitas. Neste momento sentiu a pressão despencar e todo o alívio desvanecer, pois não era a agente a dona daquela voz. Espremeu-se entre a geladeira e a parede da cozinha ouvindo os passos da mulher atravessarem a sala na sua direção e, quando o perfil de Silvia entrou no cômodo, Daniel a surpreendeu com um tranco de lado e correu para a porta do apartamento, tapando os ouvidos para não ouvir o estrondo que o corpo da mulher produziu ao cair sobre a bancada e, em seguida, no piso gelado da cozinha.
Alternou trechos de caminhadas rápidas e corridas desesperadas, à medida que Silvia povoava os rostos da rua e da sua memória, como sonhos ressuscitados na carne, até chegar na rodoviária, meia hora depois. Parou no caixa eletrônico e sacou o limite do dia, comprou a passagem do primeiro ônibus a sair do terminal, dali a cinco minutos, sem olhar o destino, comprou também um boné enorme que cobria metade do rosto, óculos-escuros falsificados e uma garrafa de água mineral. Quando tentou embarcar, o motorista o advertiu sobre sua falta de documentos. Também perguntou por que estava descalço e suando, o rosto todo encardido. Se queria que chamasse o segurança e se estava acompanhado. Daniel pensou por um segundo, mas um segundo era tempo demais e, entre a barba malfeita do motorista e suas olheiras escuras, um rosto familiar começou a surgir da pequena fenda que se abria na altura dos lábios.
