27/11/2025
As gêmeas se chamam Maria Lucília e Maria Lúcia. Maria Lucília é a Irmã Um e Maria Lúcia, a outra a quem só consigo identificar por Irmã Dois. Hoje tive a certeza de pagam honestamente dois boletos, bem como tive a quase a certeza de que um dos brincos prateados de Maria Lucília se encaixa na tarraxa que encontrei há dias. Descobri como cada uma se chama ao ver as fichas sobre o balcão dos escaninhos, no entanto, saber os nomes em nada me facilitou a identificação à distância.
A presença da Irmã Um no Press Peitoral de mesmo número me obrigou a dar meia volta e a buscar o Press Peitoral 2 na parede dos fundos. Ao ver a Irmã Dois ocupando o aparelho, voltei a cabeça para o Press 1. Tão parecidas. Respirei fundo antes de recalcular a rota e escolher outro aparelho. Foi a ausência do brinco prateado em Maria Lúcia que me fez confirmar que eram duas.
Do Gêmeos, o Homem Grandão repetia o termo varmengo para o Japonês de Máscara. A palavra irônica que une o VAR (árbitro por vídeo) ao nome Flamengo se refere aos supostos benefícios que a tecnologia tem proporcionado ao time carioca. O Homem Grandão parecia confiante ao dizer que dessa vez não ia acontecer a ajudinha na final da Libertadores. Nada muito novo. O assunto Palmeiras domina a sala e as vozes masculinas idem. As mulheres treinam, as mulheres ouvem, as mulheres se concentram. Nenhuma deve ser palmeirense.
Há também homens que treinam em silêncio e não embarcam nas conversas lideradas pelo Homem Grandão e o Falso Francês Miúdo. O Japonês de Máscara aparece mais como um coadjuvante. Entre os calados, um outro japonês, a quem vou chamar de O Mais Calado Dos Calados se sobressai por ser o mais calado dos calados. O Casal Tartaruga também fala pouco, nada entre eles e quase nada com os outros. Calados e lentos. Demoram o dobro em cada aparelho, não terminam as séries e se auto enganam que fazem tudo. Ninguém percebe ou se percebem, deixam quieto. Há corpos tão sedentários e travados que mínimos movimentos já proporcionam bons resultados. Deve ser o caso deles e suponho que acrescentando movimento mínimos ao sedentarismo, em uns 80 anos de vida, a pessoa consiga acrescentar mais algumas semanas. Quem poderá medir isso com precisão?
29/11/2025
Anilheira é o nome do suporte para as anilhas. A mim, bastava a palavra suporte ( su por te), mas há um léxico particular para os exercícios físicos assim como na medicina, no direito, nas vendas imobiliárias, na odontologia, na gastronomia, na mecânica, na fala repetitiva dos influencers e coaches. Já me acostumei com os nomes dos aparelhos, dos movimentos e às referências às panturrilhas, internos de coxa, glúteos, peitoral, escápulas, endorfina, dopamina, serotonina e outros. As pessoas se sentem verdadeiramante parte de um grupo quando dominam o jargão da sua panelinha. O mesmo jargão que aproxima, às vezes, afasta e talvez viva aí a função maior das palavras especializadas. Dos termos aqui na academia, minha preferência ou estranhamento particular é com a palavra anilha, objeto que, por mais que pese ou ultrapasse vinte quilos só me faz lembrar o anelzinho de identificação atado ao pé das aves. mais especificamente os pombos e mais especificamente os pombos correios. Aves, pombos, pombos correio, solto os pesos, olho a Flying. Nenhum papel sob a máquina. Se serviam a alguma comunicação, deve acabado.
Foi um aviso na TV da parede que me chamou a atenção para a palavra, a mesma TV que depois ignorei durante a aula de um modo diferente do sábado passado quando as notícias da prisão preventiva do ex-presidente tomavam, vez ou outra, a atenção de todos. A semana trouxe mais notícias sobre o assunto e culminou na prisão definitiva do acusado. Uns dias para respirar aliviados até uma próxima surpresa, de preferência boa para combinar com o espírito natalino.
O clima mais abafado desta época se mistura ao clima das festas de fim de ano não tem neve falsa que refresque o calor embora a sequência de várias manhãs com temperaturas perto dos 12 graus esteja estranha para a época.
Por aqui, entre os frequentadores, começam a aparecer mais bermudas, shorts e camisetas leves. Hoje notei uma das colegas varáveis dos sábados , pouco mais velha que eu, usando shorts presos a uma saia curta. A roupa trazia uma jovialidade que contrastava com a pernas bronzeadas com textura de papel crepom. Não sei dizer se gosto ou não gosto e se há roupas que devem se adequar às idades.
02/12/2025
Ao meu lado, logo ali nos Gêmeos, um professor conversa com a Aluna da Camiseta de Kombi, hoje ela usa uma branca , sem estampas. E a mulher me diz tão pouco que só mesmo a camiseta de Kombi a torna diferente. Eles falavam de corrida. Ela contou que já tinha feito muitas provas e três São Silvestre. “Tenho vontade de voltar”., ela comentou. “Você já pode”, o professor respondeu e acrescentou que, com os músculos das coxas reforçados, os joelhos não iam sentir. Hoje é sábado e Manoel não é o seu professor oficial. A Aluna da Camiseta de Kombi até demosntrou alguma expressão no rosto apagado e sorriu como se tivesse tido uma espécie de epifania. “Vou tentar”, ela disse. “Faz isso e começa devagar. Não tem como saber se não tentar.”
Terminamos juntas as séries de movimentos e a perdi de vista quando fui para o abdominal. Sobrou em mim o interesse em também voltar a correr.
Pertos dos espelhos, há um espaço com halteres e pesos muito maiores que o restante dos aparelhos. É um lado mais selvagem que ainda vou explorar.
A Irmã Um , hoje ficou claro, faz aula no meu horário. Forma de novo os brincos que me ajudaram a identificá-la. O Falso Francês Miúdo observou q ue a sala estava mais vazia e perguntou ao Pierre, que é o Pedro, o porquê? “ Não tem explicação. Chega o fim do ano e o movimento fica mais diluído”. O Falso Francês Miúdo não continuou a conversa.
Também no fim do ano, logo na entrada, ao lado do balcão dos escaninhos, aparecem duas caixinhas de contribuição: uma tradicional com a fenda para colocar notas ou moedas e outra fechada só para servir de suporte ao papel impresso com o QR code das contribuições digitais. Ainda não vi ninguém contribuindo.
A Aluna da Camiseta de Kombi veio hoje, ela nem sempre aparece, ela faz aulas em outros e vários períodos. A Aluna da Camiseta de Kombi contou a Reinaldo, o supervisor do período, sobre o seu retorno às corridas. E diferentemente do professor do sábado, ele recomendou cautela. A Aluna da Camiseta de Kombi pareceu aborrecida.
Algumas das frequentadoras mais jovens, sempre mulheres, as que tem quase cinquenta ou só um pouco mais, frequentam esta academia porque acompanham as mães ou pais que fazem fisioterapia no andar térreo. Descobri por acaso quando buscava algum livro de interesse na estante de doações ao lado do café. Não achei nada. Ao lado da estante , no café, ouvi a conversa da Moça do Top de Um Ombro Só com uma fisioterapeuta a respeito da sua mãe que tinha caído na cozinha. A moça dizia que a mãe era teimosa. Não ouvi o resto da conversa, mas descobri que isso de que outros filhos acompanham seus pais.
04/12/2025
A sala tem ar-condicionado e ventiladores, mesmo assim há quem se abane com a ficha de acompanhamento e controle. O gesto costuma acontecer quando o abanado em questão aguarda a sua vez num aparelho ocupado e expressa muito mais enfado que calor. Às vezes também serve como muleta a quem está parado no meio da sala e não sabe o que fazer com as mãos. Quem me chamou a atenção para o comportamento, foi o Homem Magro de Jeans. Com aproximadamente um metro e noventa, sente mais de perto o vento fresco do ar-condicionado, mas acho que se apega à ficha por uma espécie de timidez que o uso das calças jeans em vez das de agasalho revela. Nunca ou vi com uma bermuda ou roupa de esporte. Nos pés, sim. Ele usa tênis. Quando solta uma das mãos dos aparelhos para cumprimentar aparenta menos timidez. O rosto é tão fino como todo o corpo e os óculos de armação de metal devem ser os mesmos de quando descobriu a miopia importante. No mínimo ali, arrisco uns cinco graus.
Em tempo, o nome mais técnico para a ficha que serve de abano, dentro do jargão da academia é Planilha de Acompanhamento de Treino.
