Copo Stanley – Yan

Estão me sacudindo como se eu fosse semente de coité dentro do maracá. Falaram que é pra me deixar tonto, esses putos.

Bato a cabeça em cima, em baixo, em todos os lados desse tronco de cilindro gelado de alumínio. E ainda molhado pra piorar. Cabeça desprotegida, chacoalha o cotoco, claro que dói pra caralho. Desse jeito vão acabar quebrando a minha perna. Um dos escrotos, o brancão, na língua escrota dele, pergunta se sou um duende ou um diabrete. O mais escroto deles, o branquinho, responde que sou tipo as duas coisas – não basta prender, tem que esculachar.

Se eu saio daqui ele tá fodido na minha mão. Mas nem ele, que me prendeu agora, nem os escrotos que me prenderam antes, nem o primeiro escroto que prendeu o primeiro dos meus séculos atrás são donos do meu ódio. No máximo uma inhanha pouca. Meu ódio é só pro maior filho da puta que já existiu.

O maior filho da puta que já existiu morreu alguns meses antes de eu nascer. Se Nhanderu, Anhangá, Deus, o Tinhoso, Nkosi, quem mais quer que seja e, principalmente, se a minha malandragem permitir, eu ainda vou voltar pro Brasil. Volto só pra poder cagar no túmulo desse cara. Antes disso, preciso lidar com esses merdas

Porra, a noite estava ótima até ali. Eu já tinha pifado várias máquinas da Febo, queimando os croquetes. Já tinha queimado várias luzes vermelhas das vitrines dos puteiros. Já tinha feito um grego prender a salsicha no zíper quando ia queimar a rosca de uma puta. Já tinha enfiado meu vape no cu de um turco enquanto ele queimava a rosca de outra puta, saiu até fumacinha pela boca dele.

Já tinha passado pó de mico nos selins de várias bicicletas, pra queimar o rabo de quem sentasse. Já tinha arrebentado cadeados e jogado algumas bicicletas dentro dos canais. Já tinha azedado as salsichas da Hema e dado caganeira em turistas do mundo todo. Ou seja, a noite estava maravilhosa. Só faltava queimar um bom fumo. 

Os coffee shops ficam lotados de maconheiros do mundo todo que sabem o quanto é caro um baseado em euro. Por isso, não dão mole e eu evito esses lugares. Entrei ventando no Cannabis College, que  não vende bagulho, só dá cursos de cultivo e fica bem vazio à noite.

A porta fechada, com placa de estamos fechados e tudo, mas tudo que eu preciso é uma janela aberta. Tinha um brancão e um branquinho, de cabelos loiros ensebados, e um mulatinho de cabelo rapado, todos de casacos peruanos fedendo a marola. Crachás de funcionários no pescoço. Dividiam um dedo de macaco e bebiam algum marafo ruim, já que aqui nunca achei cachaça.

Entrei ventando, botando pra quebrar. A vida é boa demais nessa terra que não costuma ter redemunho, só moinho. Ninguém se benze nem chama por Deus, no máximo fecham a janela. Derrubei um vaso de lemon haze, um bong de cristal colorido e uma máquina do vaporizador Volcano 3000. Um dos brancões fechou a janela. O mulatinho se assustou quando eu meti o pacote de tabaco pra dentro do redemunho. Botei o tabaco no vape que peguei de um gringo, meu cachimbo quebrou na travessia.

Eles estavam mais chapados que misto quente, sem entender porra nenhuma. Um barato. Eu ria, ventava, pitava meu vape, quebrava as coisas em pedacinhos e botava pra quebrar no pedaço. Não sinto saudade da minha terra, minha terra é qualquer terra com otário dando mole. E aqui tem otário de monte. O único problema é o frio, mas eu peguei o casaquinho de um boneco de madeira, dou meus pulos pra me esquentar, e pau no gato.

O mulatinho, na língua escrota dele, chora que o haxixe sumiu. Virou história no meu vape e risada no meu beiço. O brancão, na língua escrota dele, gritou que um fantasma tinha entrado. Eu rachei o bico desses otários. Mas o mal do malandro é achar que todo mundo é otário. O branquinho falou na língua escrota deles pra se esconderem no porão. Antes disso, ele falou no português escroto dos caipiras:
“Misericórdia, um saci”.

Eu prestei atenção nisso? Claro que não. Vividão pra caralho, cria de Bangu, vou ter medo de caipira? Continuei botando pra quebrar. Pitei de tudo um pouco no meu vape, derrubei os quadros de maconha da parede, arregacei o lugar. Os três cagões iam sujar as calças escondidos no porão, de manhã alguém abria a porta e eu saía saindo. Enquanto isso, a noite era uma criança, uma criança holandesa rosada toda minha, sem reza de preta velha rezadeira pra proteger. Eu tava tão feliz que nem vi a hora que me fudi.

Nem ouvi a hora que a porta abriu e os cagões saíram do porão. Nem vi o branquinho escroto jogando alguma coisa no redemunho. Só percebi que me fudi quando o redemunho se desfez, minha perna ficou presa como se tivesse dado um nó na outra perna, como se eu tivesse a outra perna pra dar um nó na única perna. 

Fiquei preso numa peneira de metal. Puta que pariu. O branquinho não estava se cagando no porão. Estava era costurando as peneirinhas de vários dichavadores numa grandona, prendendo com duas varetas que usavam pra firmar os pés de maconha e fazendo uma peneira de cruzeta.

O branquinho mandou o mulatinho e o brancão segurarem os lados da peneira, enfiou a mão dentro e malocou meu gorro. Fiquei como?  Mais descaralhado que aquele bicheiro de Quintino que teve o pau tesourado pela mulher traída. Aí o branquinho colocou o tronco de cilindro de alumínio dentro da peneira. Não teve jeito, tive que entrar. Ele fechou bem rápido o troço com uma tampa de acrílico transparente e desenhou uma cruz em cima com o marca texto que usavam pra escrever os tipos de bagulho nos saquinhos. 

O filho da puta me prendeu dentro de um copo Stanley.

E agora estão me sacudindo como se eu fosse semente de coité dentro do maracá. E ainda molhado pra piorar, porque dentro do copo Stanley tinha um restinho de gelo com Jenever. Depois que fiquei bem tonto, eles conseguiram me ver pela tampa de acrílico.

O mulatinho rezava em outra língua, uma até bonita, pedindo proteção contra o espírito maligno, que era eu. Só rindo. O brancão riu da minha cara, me chamou de Zwart Piet perneta e perguntou na língua escrota dele o que fazer agora. O branquinho, com o meu gorro na mão, respondeu que agora eu era o escravo deles. É foda, meu irmão. Só chorando.

“Saci”, o branquinho disse no seu escroto português caipira, “nós te prendemos. Você vai servir a gente?”.

“Com todo o respeito, mestre”, respondi, “vai tomar no meio do seu cu”.

O branquinho ficou mais branco. O brancão não entendeu nada e continuou branco como antes. O mulatinho, mesmo sem entender, entendeu e rezou mais forte.

“Nós te prendemos, agora você serve a gente”, o branquinho disse. “Foi assim que eu aprendi”.

Eu sei quem ensinou essa porra pra ele. Foi o maior filho da puta de todos os tempos. Também é filho da puta pelas mentiras que contou, mas principalmente pelas verdades.

“Tu aprendeu errado, meu chapa. Eu só ajudo com um acordo pra tu me soltar”.

“Então arruma esse merdeiro que você fez. Se arrumar, a gente chega num entendimento”.

“Pode enfiar o galho dentro. Eu só arrumo com acordo de soltura”.

O branquinho fez cara de cu e foi pra um canto conversar com o brancão e o mulatinho. Falaram na língua escrota deles, que não falo. Eu só falo português, nheengatu, avanhé e um pouco de quicongo. Mas entendo qualquer língua do mundo. O brancão fala holandês e inglês, o mulatinho fala holandês, inglês e reza em saramacano, um dialeto crioulo dos maroons do Suriname. No meu ouvido, cada uma soa mais feia que a outra. Mas na minha cabeça é tudo a mesma merda. O branquinho fala um escroto português caipira e também inglês, como bom lambe-saco de gringo que é.

Eles ficaram cochichando num canto em inglês. Não sabiam que além de entender qualquer língua, eu escuto bem pra caralho. Melhor que perdigueiro, meu parceiro. E nessa eu ouvi o branquinho:.
“Se ele não for solto na primeira noite, fica sete anos na garrafa e depois vira um cogumelo mágico. Imagina a onda que vai dar”.

É mole? Foi a porra  dum cracudo gurmê que me prendeu. E já sei com quem ele aprendeu essa porra também. Mas não tá todo errado. Eu realmente viro um cogumelo, só que não depois de sete anos. Eu viro um cogumelo se estiver dentro da garrafa no meu aniversário de 77 anos. Que é bem amanhã.

Ou seja, se eu não sair essa noite, fodeu de vez.

Vou virar champinhom na cabeça de estrogonofe de uns grigos safados e de um brasileiro mais safado. No máximo, vou dar uma caganeira. Mas nem que eu deixasse eles piroca das ideias, nem que matasse, não servia. Eu não posso morrer antes de voltar pro Brasil pra cagar no túmulo do maior filho da puta de todos os tempos. Eu quase não como e cagar já não cago há anos, estou guardando tudo pra esse dia.

Foi graças a ele que eu fui preso agora e também das outras vezes.

A primeira foi um pouco depois que saí de casa, lá em Varre-e-Sai, nos fundilhos do estado do Rio. Todo saci nasce num taquaral e passa os primeiros sete anos dentro de um nó da taquara, até ficar forte pra reinar no meio dos pé-rapados. Eu não tinha nem oito anos, ou seja, nem um ano reinando, quando uma professora me capturou enquanto eu espalhava com meu redemunho bosta de vaca no pátio da escola rural. Ela me deu pra seu aluno favorito, que adorava ler e me usava pra colar nas provas de aritmética, o merdinha. 

O moleque foi pro Rio estudar pra advogado, encheu a cara assim que chegou na Lapa, quebrou a cara e a minha garrafa. Peguei meu gorro e ventei pela cidade por um ano maravilhoso. Botei pra quebrar de Copacabana a Santa Cruz. Até que caí na besteira de tentar quebrar um ponto de bicho na Zona Oeste, saí ventando os papéis. O neto do homem que anotava o jogo, também lia muito, o merdinha, me prendeu na garrafa. O velho me deu de presente pro Castor de Andrade. 

Fiquei quase trinta anos servindo o homem, que construiu o império dele no meu lombinho. Quando Castor morreu, Paulinho, o filho, me herdou. Quase não fiquei com ele, porque Rogério de Andrade metralhou seu carro. Uma das balas espatifou a garrafa. Peguei meu gorro com o defunto e ventei pra Salvador, por dois anos maravilhosos azedando massa de acarajé e levantando saia de baiana.

Até que um cheirador safado, que também lia muito, o merdinha, me pegou. Ele me mandou preparar um esquema pra levar pó pra Europa e eu fiz, muito bem feito aliás. Botei pó de mico na mala e cachorro nenhum encontrou nada. Mas o polícia do aeroporto encrencou com a minha garrafa. Não conseguiu ver nada, porque eu só me revelo pro dono. O cheirador implorou que não, mas o polícia tirou a rolha da garrafa pra cheirar dentro. Só sentiu cheiro de enxofre, porque eu saí saindo. Apanhei meu gorro dentro do bolso do cheirador e ventei de Haarlemmermeer pra Amsterdam. Passei uns anos maravilhosos reinando no Red Light à noite e dormindo nas plantações de tulipa durante o dia.

Se bobear, os anos nessa terra cheia de otários foram os melhores da minha vida. A merda é que toda malandragem tem seu fim. Mas não precisava ser assim, na mão de dois otários gringos e de um otário brasileiro, que com certeza leu bastante também, o merda do branquinho.

“Saci”, o branquinho disse, “essa noite você fica em período de teste. Se arrumar a bagunça e se comportar, amanhã conversamos sobre soltura”.

“Tá certo, meu mestre”, eu disse. “Mas abre um pouquinho a tampa, só essa frestinha de sair o líquido, pra eu poder respirar”.

Os outros dois pediram pro branquinho traduzir o que falei. O mulatinho choramingou pra não abrir, disse que espíritos malignos são ardilosos. O brancão riu e disse pra abrir, não ia dar pra eu fugir e ele não queria matar ninguém, mesmo que fosse um duende/diabrete. O branquinho concordou e abriu.

O brancão tinha razão, a frestinha aberta não dava pra fugir. Mas dava pra cantar. Logo eles começaram a arrumar a bagunça pra o patrão não encenar no dia seguinte, comecei a cantar um dos feitiços mais poderosos da minha terra:

Chora

Não vou ligar (não vou ligar)

Chegou a hora, vais me pagar

Pode chorar, pode chorar

Não é por nada não, mas eu sou foda, meu camarada. Nem completei o samba e os caras capotaram. O brancão despencou no sofá, o mulatinho no balcão e o branquinho dormiu com a cara enfiada num vaso de skank. Eu teria algumas horas até eles acordarem.

Aí eu pedi por um milagre, uma mandinga, uma maldição, os caralhos. Rezei mesmo, por que o que é um peido pra que tá engarrafado?
Eu prometi:se Nhanderu, Anhangá, Deus, o Tinhoso, Nkosi, quem mais quer que seja e, principalmente, se a minha malandragem permitir, vou voltar pro Brasil. Se eu sair daqui, não vou perder tempo com croquete, puteiro, bicicleta, salsicha ou fumo. A primeira coisa que vou fazer é ventar pra dentro de um avião e voltar pro Brasil.

Tentei sacudir, fiz força, mas à toa. Sem meu gorro eu não sou porra nenhuma e ele estava em cima do balcão, em cima de um panfleto sobre as melhores lâmpadas para fazer uma estufa caseira. Assoviei pra chamar algum pássaro, torci pra ser uma gaivota ou até uma coruja grandona. Veio só um pombo mixuruca. O bicho voou direto até mim e até conseguiu derrubar o copo Stanley no chão, mas essa merda é feita com vedação especial térmica e sei lá mais que caralho. Quiquei dentro do copo, mais molhado, mais gelado, mais doídos o cotoco e a perna. E preso como antes.

Bateu o desespero. Será que eu mereço terminar um cogumelo na barriga de dois gringos safados e um brasileiro mais safado? Porra, que conversa. É claro que não. Eu só fiz o que quis, e eu fui feito pra fazer o que quis e pra querer fazer as coisas que quis fazer. Não tem nada de bem ou mal. Bem ou mal é história de branco pra preto dormir, todo saci sabe disso. Antes morrer como cogumelo na barriga desses zés-ruela do que me arrepender. 

E bem nessa hora, quando eu já estava quase conformado do meu destino de estrogonofe pra drogados, a porta abriu.

Entrou o gerente do Cannabis College, um brancote barrigudo e de careca ensebada. Ficou puto quando viu a zona que eu tinha feito. Ficou mais puto quando encontrou os três funcionários dormindo. Viu o copo Stanley e ficou mais puto ainda, porque era proibido beber lá dentro, se a fiscalização pegasse fechava o lugar. Ele não me viu lá dentro, porque eu estava invisível. A cruz em cima da tampa estava bem visível, mas ele não viu ou não reparou. Abriu pra cheirar se tinha álcool, só cheirou meu enxofre.

Porra, saí! Valeu, Nhanderu, Anhangá, Deus e a puta que pariu. Não ia gastar tempo agradecendo todos, nem eles iam sentir falta. Saí saindo no vento mais ventado que fiz. Meu redemunho varou o Red Light. Cumpri a promessa, não me vinguei dos escrotos que me prenderam, não mexi com ninguém na rua. Ventei direto pro aeroporto e já estou escondidinho na malinha de maquiagem da aeromoça da LATAM.

O vôo pousa no Rio, mas não vou gastar tempo azedando o mate da praia, nem trocando o pó das bocas por mármore moído. Nem mesmo vou visitar minha Bangu. Vou ventar do aeroporto direto pra Dutra, do Tietê direto pra Cemitério da Consolação. Lá está o cara que foi lido por todos os filhos da puta que já me prenderam. Antes dele, quase ninguém sabia da minha história e menos gente ainda acreditava. Caguei se ele não gosta de gente preta. O importante é que ele não gosta de saci (ainda somos todos pretos, graças a Nhanderu, Nkosi ou o que o valha).

Vou cagar na cova dele, vou esvaziar o ódio das minhas tripas, que guardei esse tempo todo pro Monteiro Lobato, o maior filha da puta que já existiu.

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