Era menino e ia se chamar Herão. A mãe, dona Rosa, ouviu o nome em um sonho. Quando lhe botaram a bebezinha no colo, se dando conta da falta de homice da filha, testou na cabeça as possíveis adaptações: Herana, Heriana, Herineia, Hedinéia. “É Hedinéia a menina, escreva aí, Hedinéia”. Como voz não tem grafia, já nasceu sendo roubada. Edineia, escreveram. Sem agá e sem acento.
No dia que Edineia nasceu, fez frio e faltou vento em Caetés. Não é que o frio no agreste pernambucano seja notícia não, esse ano mesmo bateu 16° em outubro. Negócio é a falta de vento. Chegou em novembro, a época dos mais fortes. Foi numa segunda-feira. No domingo anterior mesmo, tava de despentear estátua. Dona Rosa contava que era como se o mundo tivesse parado pra ver a menina que escolheu ser menina.
À boca pequena, pediatra e obstetra apostaram que não ia vingar. Roxa que tava a bichinha. Ali, naqueles minutos eternos antes de ouvir o choro do bebê, ela olhou para as mãozinhas de luta de Edineia, o punho erguido, depois olhou pras dela, abertas meio caídas nas laterais da maca. Chamou Iansã pra perto e lhe prometeu atentar para as próprias mãos até o último dia da vida se a menina chorasse. Apertou os dedos contra a palma como se a preensão palmar fosse dela. Iansã girou no pensamento de dona Rosa e Edineia gritou imediatamente depois. Gritou de espantar enfermeira. Aí pintou-se de vermelho de um segundo para o outro, coisa mais impressionante.
Edineia era XY e nadava na barriga de dona Rosa tranquila até lá pela 12º semana quando se percebeu. Um certo horror andrógeno. Quanto mais sentia a macheza no corpo, mais testava a força das mãozinhas recém formadas tentando arrancar o que lhe crescia entre as pernas. Miúda que era ainda, não conseguia, mas deu conta de roubar estrogênio da mãe e criar pra si útero, trompas, ovário e 6 milhões de óvulos. Quase nasceu homem, só no impacto da última contração, já forte, toda formadinha, que se livrou do pedaço de carne que sobrava pra sair mulher.
Depois do parto, dona Rosa se sentiu mal, teve vontade de tossir, de expulsar por cima, uma dor na barriga. Pediu ajuda, pediu socorro, pediu pelo amor de deus. Não veio ninguém, todo mundo cuidando da ex-roxa. Ela sentou na cama, abriu a boca, o pedaço de carne quase desengulindo pela garganta, enfiou o dedo, alcançou a sobra da filha, puxou pra fora de si e jogou no chão sem nenhuma gota de sangue. Nunca mais teve um enjoo na vida.
Foi desse jeitinho que Edineia cresceu, sem fixar assento, sem obedecer a nenhum agá e na certeza de que fez a sua parte pra livrar a mãe do mal-estar de ter mais um homem na vida.

