por Américo Paim
Rapaz, eu tô parecendo cobra, engolindo sapo, é fato. E não é porque sou bonzinho ou porque tá perto da porra do Natal, festa escrota da porra. Só fazia me fudê quando era menino. O Papai Cruel ia em tudo que é lugar, menos lá em casa. Presente lá, era meu pai num tá bebo, trocando as pernas e batendo na mãe. Mas acabou, deixa quieto. Depois que cresci, saí daquela merda, virei gente, pai e tal e coisa, tive que entrar nessa bosta de presentinho pra lá e pra cá, amigo secreto, cartinha pro bom velhinho, clima de Natal e o caralho. Que merda. Um dia as crianças vão crescer e acaba essa bagaça. O batráquio gordo pra entubar hoje é esse encontro com o filho da puta do Verminho… Rapaz, pense num apelido justo. Só não devia ser no diminutivo mais. O cara tem nome chique, Estevão, só que é esgoto puro. É tempo demais, véi, desde a escola era já era gosmento e escorregadio. Só podia dar nisso mermo. Cresceu escroto, e o pior é que foi ficando bonito. A vida é foda, né? Eu vi essa transformação de lagarta em borboleta. Nunca pensei que fosse acontecer uma aberração dessas. Nem pra um passarinho comer esse animal quando ainda era ovo. Porra niúma… Vingou e agora é queridinho da mulherada, ganhando dinheiro que só a porra, e do podre, todo mundo sabe, mas ninguém se mete, e pra acabar de lascar, meu credor. Tu pisa na bola, uma vez, umazinha só e fodeu… Pisa na poça de merda e abre os dedos, pra espalhar melhor. Como é que me enrolei logo com um cara desses, véi? Vendi a alma pro demo e Verminho é primo dele. Ou irmão, sei lá… Lá vem ele ali…
– Sopão, fio, sempre adiantado.
– Fala, Verme.
– Tu segue gordo, hein?
– Pois é, nem todo mundo tem sua sorte.
– Me cuido, Sopa. Faço academia, como bem, tomo vitamina.
– Bomba, né?
– Só inveja. Continuo muito bem na fita, pegando geral.
– Claro…
– E esse cabelo lambido aí? Num penteou hoje? E num vai um creme nessa cara esburacada?
– Verminho, tu veio pra me dar consultoria de beleza?
– Calma. Pra quem me deve, tá falando muito alto.
Eu conheço esse olhar incisivo, em volta do sorriso frio de canto de boca. Melhor ficar na minha. Sei do que esse balde de cocô é capaz.
– Oxe, tô de boa, Verme. Foi só uma piadinha.
– Claro, claro. A gente sabe os limites, né?
– Certo, mas por que marcou essa conversa?
– Peraí, calma. Tudo tem seu tempo. Vamo toma uma, contar as novidades.
Ele parece incomodado. O que será? Cadê o garçom? Melhor pedir bebida. Ele gosta dessas gentilezas, quer se sentir servido, no centro das atenções e eu não tô muito confortável pra criar caso aqui.
– Garçom, duas doses de uísque. Daquele ali, o doze, claro. Com gelo no balde, separado.
– Você tem boa memória, Sopão. Gosto disso.
– O senhor já conhece nossa promoção de Natal? – diz o garçom.
– Eu quero que o Natal vá pra casa do caralho.
– Sopão, que agrestia é essa? Diga o que é, meu rapaz.
– Se o senhor pedir a garrafa, tem 10%.
– Tá vendo, Sopão? Traga então, rapaz. Viu que não dói nada, Sopa?
– Tá, tá, mas, conte aí o que tem de novo, Verminho.
– Tem uma criatura aí que tu tem que ver. Coisa de capa de revista.
– Isso num é novidade…
– Essa é especial.
– Tu fala isso de quase todas. Lembra da academia lá no Rio Vermelho?
– Quéquetem?
– Porra, tu passou o rodo lá. Nem a sócia escapou…
– Coisa do passado, Sopão.
Sabia que ele ia dar esse sorriso de fenda. Tenho que bajular, num quero mais problema com esse animal. Se fosse falar a verdade sobre a academia, que ele assediou, agrediu, subornou. Não sei se estuprou… Não duvido. Esse cara é ruim, todo podre. Mulher é lixo pra ele. Agora, com homem de verdade, ele num se mete. Só pega solteira desavisada. É fortão desse jeito, deve se achar, agora, se aparecer macho pra contestar, ele afina. E só fala com revólver e dinheiro. Se eu tivesse mais coragem, denunciava, fazia ele se foder todo. Num ia faltar história pra polícia. Ia pegar uns mil anos.
– Tá pensativo, Sopão, nem tá bebendo direito…
– Nada… conte aí sobre a nova do pedaço.
– Você falou de academia, né? Abri uma ali na Pituba, naquela rua do Ponto 7. Sabe onde é?
– Sim, claro. Acho que até já vi. Não sabia que era sua.
– Pois bem. E é lá que eu preciso de você.
– Oxe? Eu, o gordinho, na malhação?
– Sim, tu vai me ajudar, mas não com essa cara feia.
– Explique aí, então.
– É um lance meio tecnológico.
– Como assim?
– É melhor lhe contar a história toda.
– Fale.
– Tive que fazer uma reforma na academia. Isso tem mais ou menos um mês.
– Tava destruída?
– Não tanto assim, mas eu queria umas cores mais fortes, como eu gosto.
– Ah, uma coisa assim cheguei… sua cara.
– Tá me zoando, seu nada?
Tá agressivo e parece preocupado. Não lembro dele assim antes, nem me cobrando dinheiro. Será que vai me confessar um crime? Porra, só me faltava essa…
– Claro que agora eu malho na minha academia.
– Lógico.
– E dou um jeito de conseguir umas gostosas pra lá, né?
– Rapaz, isso é complicado… E se for alguém com outro perfil?
– Meu pessoal já fala que tá sem vaga.
– Isso ainda vai dar merda pra você.
– Não se meta. Escute a porra.
– Tô ouvindo… Como são as coisas lá?
– Umas meninas com nível de gostosidão razoável. Ainda vai melhorar…
– Eu falava da estrutura…
– Ah, sim… Equipamentos novos, uns professores de boa, o som é legal.
– Certo.
– Pois é, só que na semana passada eu tive que viajar e num fui lá.
– E?
– Voltei tem três dias e um painel que eu comprei foi instalado, depois de muita espera.
– Fale.
– São umas fotos em uma das paredes que tinha vidro, mas num dava pra rua.
– E daí?
– Eu fiquei doido com as fotos. Tinha deixado minha gerente escolher e foi uma surpresa.
– Não gostou? O que tu fez com a moça, Verme?
– Hein? Nada, ué. Você acha que eu sou o quê?
A vontade viajou do estômago até a língua, mas a razão deu um carrinho na altura do joelho e a bola não foi no gol. Se eu fosse mais macho… Aliás, se essa desgraça de Natal funcionasse e eu fosse um bom menino, ia ganhar de presente o sumiço, pra sempre, só vale pra sempre, desse desgraçado. Era capaz de fazer uma promessa. Aliás muitas. Nunca mais mentir no trabalho, não dar em cima da minha vizinha de jeito nenhum, uma coisa grande assim. Ou então dar dinheiro aos pobres, adotar um cachorro, qualquer porra dessas. Esse cara me enoja…
– Pois bem, eram três fotos. Repare. Na primeira, um casal de velhos andando na esteira.
– Oi? A academia aceita idoso?
– Isso é bom pro marketing, mas são poucos. Escute a porra.
– OK.
– Na segunda, um cara mais atleta, sendo orientado por uma espécie de personal.
– Entendo…
– Aí tem a terceira. Puta que pariu, a mulher mais linda que eu já vi, levantando halteres.
Silêncio estranho depois dessa fala. Tá me encarando como esperasse uma expressão algo, uma concordância, sei lá. Num sei qualé…
– Ela é diferente, Sopão.
– Como é ela?
– Morena, corpo escultural, rabo de cavalo, olhos profundos e músculos definidos. Coisa de doido.
– Sim, mas tu prefere a coisa viva mermo, né? Num é só uma foto?
– Eu pensava isso. Até que anteontem…
– O que foi?
– Tu vai achar que é maluquice… Eu lhe chamei porque é coisa tua, de computador e o caralho.
– Tô entendendo cada vez menos…
– Num é uma foto. É esse negócio novo aí, a tal da IA.
– Ah, tá. É uma imagem gerada por IA.
– Que seja, pronto. Mudou tudo, véi…
Por que ele se levantou e tá aí se coçando todo? Estranho. Nunca vi esse bicho nesse tremelique todo… Que porra deu nele?
– Eu fiquei louco por ela. Passei o tempo todo na academia em um lugar que pudesse olhar pra ela.
– Eu, hein…
– E digo mais: ela tava me olhando também.
– Ah, para com isso, Verminho. Tu é bonitão, tá certo, mas isso já é demais…
– Eu juro pelo dinheiro que tu me deve.
– Opa, aí já me interessou.
– Num tô brincando, disgraça!
– Repare… Dependendo de onde tu fica, tem a impressão que a imagem tá te olhando direto… Né não.
– Porra niúma, véi. Ela tava me olhando, sim.
– Isso é coisa da sua cabeça. Acontece com muita gente. Estresse não…
– Calaboca! Escute. Tava assim até ontem.
– Por quê?
– Hoje fudeu foi a porra toda: ela falou.
Até agora, eu engoli, mas essa daí foi demais. E ele tá suando, véi. O homem num tá normal.
– Verminho, tu cheirou algum bagulho antes daqui?
– Me respeite, seu merda. Num pense que num arrebento sua cara só porque é Natal, não…
Opa, alterou legal. Melhor entrar na dele pra não sobrar pra mim. Só anda armado…
– Calma, num quis ofender, não. Sem violência. É que é estranho demais.
– Oxe… e eu ia lhe contar pra quê, se essa porra num fosse barril?
– Tá, tá bom. Vamos pensar que ela falou.
– Ela falou, seu puto.
– Eita, sossegue, homem. O que tu ouviu?
– Tava assim meio baixo, num sabe, mas pareceu que ela tava se sentindo ameaçada.
– Disso tu entende…
– É o quê?
– Nada, não. Eu disse que às vezes é o que se entende, não o que ela falou.
– Ela disse isso, porra.
– Só?
– Veja bem. Na foto, quer dizer, na imagem, tem um homem atrás dela, distante, de camiseta amarela.
– E quem é?
– Num dá pra ver, tá fora de foco. É um sujeito forte, isso se percebe.
– Pouco pra descobrir, né? E aí, ela fica andando no quadro, de papo com todo mundo?
– Porra, para de debochar.
– Ué, mas ela num falou?
– Sim… Daí a ficar passeando por aí, é foda.
– Rapaz, o que tu quer que eu faça? Num entendo nada dessa coisa aí. Parece bruxaria.
– Me diga como é que eu tiro ela de lá.
– Oxe… como eu vou saber? Isso nem coisa de gente é…
– Porra eu venho aqui e tu me dá essa resposta bunda?
– Verminho, tu deve tá passando uma fase de estresse…
– Estressado é o caralho! Quer que eu lhe arrume problema?
– Não, rapaz, tô querendo lhe ajudar, mas tá difícil…
– Pois eu vou resolver essa porra é hoje. Vou lá depois das oito da noite, num tem mais ninguém.
Se levantou assim feito um maluco? Nem olhou pra trás… Esse fidiputa tá drogado. Deve ser uma parada dessas sintéticas aí… Num bebeu antes, que nem bafo tinha. Num tava de olho vidrado. Eu, hein… Amanhã eu vou passar lá na tal academia no primeiro horário e ver de perto essa maluquice.
***
– Bom dia, moça.
– Pois não. Feliz Natal!
– Que porra de Nat… quer dizer, queria falar com o dono. Ele deve ter chegado já.
– O senhor Estevão ainda não apareceu hoje.
– Mas ele não vem todo dia cedo?
– Vem, sim. Ele e a camisa vermelha…
– Como é?
– É meio engraçado, né? Sempre repete a roupa…
– Isso é a cara dele… Escute, posso entrar pra dar uma olhadinha aí, pra ver se vou me matricular.
– Fique à vontade.
Deve ser aqui… deixovê… ah, tá ali o tal do painel. Oxe, esse povo todo parado olhando? Ué, cadê a tal imagem da mulher? Só tem os halteres no chão… Peraí, véi, o sujeito lá no fundo, imagem borrada, de camiseta vermelha tá parecendo… Vixe, será que existe o porra do Noel, então?
