A galinha
A vizinha de Mangue tem muitas galinhas, que vêm ciscar nosso quintal durante o dia. Tirei a foto de uma delas, tão bonita que parece ter saído de um pano de prato. Há também um galo, que nunca cisca, só supervisiona o ciscar e canta de si. Ele é feio, com o peito depenado, e tem um olhar de tirano impotente, o que daria uma boa foto. Mas sua marra deixa escapar um tom de desespero que inibiu meus cliques.
O galo é meu signo chinês, é símbolo (e comida) de exu. Pensei em tatuar um logo acima do calcanhar, pois caminho muito e tenho muitas fraquezas (e já tive certeza de que caminhar não era uma delas).
A galinha do pano de prato foi pra panela da vizinha, muitas outras também viraram mistura. Só o galo hegemônico nunca deixa o quintal: segue decrépito cantando de si.
E eu sigo ciscando como posso, em silêncio.

A garrafinha
Na Região Metropolitana do Cariri, sobretudo no Crajubar (Crato, Juazeiro do Norte e Barbalha), há imagens do Padre Cícero em todo canto, de todo tipo.
Uma feita de restos de lata em frente a um ferro-velho, imagens de gesso de vários tamanhos, uma de bronze em tamanho real, e uma de altura próxima à do Cristo Redentor. No congá do terreiro de Umbanda que me acolheu, há também uma imagem dele, ao lado de um caboclo índio e de São Sebsatião.
Em uma rua que faz esquina com a praça com o nome do homem, a principal de Juazeiro, encontrei um Padre Cícero pitico dentro de uma garrafinha pet de 500 ml, pendurada em uma árvore.
O mundo é grande, eu sou pequeno — ainda que cabeçudo. Mas, se a fé do Cariri e de enorme parte do sertão cabe numa garrafinha, por que não cabe no meu coração (e, menos importante, na minha cabeça) a fé de enfiar o mundo no bolso?

A piroca
Mangue tem uma piroca de madeira pendurada na cozinha. Na base oposta à cabeça, há um parafuso que ele usa pra abrir garrafas. Mangue chama a piroca de abridor de garrafas. Eu chamo a piroca de piroca. Tenho vergonha dela, e mais ainda de guardá-la na gaveta.
Minha mesa de trabalho fica na cozinha. Quando tenho reuniões e aulas on-line, tento colocar outros penduricalhos na frente pra tapar a piroca.
Mas ela sempre aparece.

A caneca
Ao me mudar pro Cariri, trouxe todos os meus bens de valor: livros, roupas e minha caneca do Flamengo. Uma amiga corintiana disse que a deixaria cair no chão acidentalmente.
“Foi minha mãe quem me deu, antes de morrer”, eu falei, bem sério.
Quando criticam roupas minhas muito velhas, eu falo que foi minha mãe quem me deu antes de morrer, às vezes até umas que eu comprei depois que ela morreu. E ninguém fala mais nem um a sobre as roupas.
Sempre me dá vontade de rir. Mas sempre falo bem sério.
A caneca foi mesmo presente de minha mãe. Se quebrar, vou ficar bem sério, talvez até chore. Mas não vai ser supresa se também me der vontade de rir.

O altar
Numa prateleirinha de madeira escura fica o nosso altar.
Meu São Jorge branco, envolvido por fitas vermelha e branca, ao lado do São Jorge negro de Mangue, envolvido por uma corrente de aço. Na frente do meu São Jorge, pequenas bigorna e cabaça. Na frente do São Jorge de Mangue, a imagem de um preto velho e de uma preta velha, que era minha, eu trouxe do Rio pra dar a uma amiga, Mangue reivindicou e agora é nossa. Entre os dois São Jorges, a imagem do Padre Cícero de Mangue envolvida por um terço. Ao fundo, um quadro de São Cosme e São Damião. Ao lado do meu São Jorge, um candelabro de arame dourado em forma de folha.
Sob a prateleirinha, uma medalha de barro de Xangô que o namorado de Mangue deu pra ele e uma vassourinha de palha que comprei no centro de Juazeiro, Mangue me deu os búzios, que preguei com superbonder.
Nós dois sempre rezamos separados.
Nós dois sempre rezamos juntos.

O bololô
Andando pela Vila Fátima, em Juazeiro do Norte, encontro um bololô bizarro de fios pendurado em um poste. Lembro do dito carioca: tudo tem um desenrolo. Encontrei a exceção.
Vim ao Cariri cearense pra ficar um mês. Estou há mais de ano. Justamente agora, quando decido voltar ao Rio, me enrolo com uma mulher e me apaixono por ela. Saio a pé de sua casa na Vila Fátima, encontro o bololô de fios e faço a foto. Nesse momento, o vento pouco do Cariri me sopra forte aos ouvidos:
“Tá tudo alinhado”.

A gilete
Tem duas coisas nessa vida que não divido com ninguém: escova de dente e gilete. Essa última foi motivo de muita briga com minha irmã, que a roubava pra raspar as pernas. Sempre que eu descobria, dava de presente: não divido gilete com ninguém.
Um dia, Mangue me pediu a minha emprestada. Tinha perdido a sua e queria fazer o bigode antes de ir pro trabalho. Mangue divide comigo sua casa, sua família, seus amigos, seus livros e quase tudo que tem.
Tem uma coisa nessa vida que não divido com ninguém: escova de dente (até agora).

O quadro
Nunca fui católico. Mas alguns santos habitavam minha casa carioca e macumbeira em simpatias. Quando algum cisco entrava no meu olho, minha mãe soprava, depois massageava a pálpebra em movimentos circulares e recitava:
Santa Luzia passou por aqui
viu um cavalinho comendo capim
perguntou se queria pão, disse que não
perguntou se queria vinho, disse que sim
— Agora vai sair!
Na casa dos pais da minha namorada, no Cariri, há um quadro de Santa Luzia. Na imagem, uma mulher branca segura um feixe de capim numa mão e na outra uma bandeja com dois olhos. A família de minha namorada é devota da santa porque quase todos têm problema de vista — sua irmã teve um derrame ocular; um primo cego; um tio que só tem 20% da visão; e muitos casos de glaucoma.
Eles nunca tinham ouvido nem a simpatia, nem os versos. E eu nunca tinha visto uma imagem de Santa Luzia. A protetora dos olhos, pra mim, nunca teve rosto. E se um dia me encontrasse, acredito que diria:
“Enxergue pelo cisco, meu filho”.

