A fumaça sai das chaminés da Central em nódulos densos e cinzentos, pressionando o céu acima do aterro, sempre às cinco horas da tarde. Os pedaços se unem a uma mancha escurecida que se espalha dali para todo o espaço aéreo da Seção 7 e espera, por uns dez minutos, até descer. Vai tomando as ruas, os bairros vizinhos e os arredores do antigo cais, por onde chega o vento que a dissipa de volta para o céu. Mas nem a vedação nas frestas da janela impede o cheiro de óleo queimado de tomar o apartamento. É um odor viscoso de borracha queimada, mergulhada numa fritadeira de laboratório. Martim aperta os elásticos da máscara contra o rosto, é um alienígena ou um animal pré-histórico, a boca fundida ao nariz e alongada numa tromba produzindo um chiado rouco quando puxa o ar. Um som de pulmão doente que comprova, apesar disso, a capacidade do utensílio de filtrar a fumaça. Enquanto isso, Martim fecha os olhos. Não é preciso, mas fecha os olhos.
Às seis horas as primeiras luzes aparecem nos prédios vizinhos. Os arredores da rodovia são o único ponto com trânsito nesse horário. Os carros entopem as artérias da região tentando atravessar o mais rápido as fronteiras da Seção 7, o antigo centro da cidade, então alimentado pelo movimento do porto. O engarrafamento é bom para os farrapos que moram nas carcaças dos contêiners abandonados nas margens do aterro. Eles andam entre os carros batendo nos vidros, os capuzes cobrindo os ouvidos e a boca por causa das lufadas de areia vindas do cais. A Seção 7 os fez nascer e eles agora peregrinam, abcessos de uma paisagem cinza.
Alguns acabam atropelados. Mas, na média, conseguem mais do que em qualquer outro horário, entre esmolas e saques. Os motoristas pregam os olhos no para-brisa e as mãos no volante rezando para o trânsito fluir. Quando isso acontece, voltam a respirar e seguem pela Avenida Beira-mar – que ainda leva este nome – tentando se lembrar da cor das águas soterradas ou do gesto dos cargueiros nos vincos da baía, extintos há nem tantos anos assim.
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Em poucas horas começa o turno de Martim na Homicídios. Apesar de ter desaparecido há dois anos, Ana toma banho no seu banheiro. Ouve o chiado do chuveiro ligado no máximo, embora não tenha ninguém lá dentro. Quando pensa no bilhete deixado antes de sumir, já não pensa no conteúdo, mas no poder do ato, como se o pedaço de papel enxertasse de carne o seu fantasma. Vê Ana andar com a toalha de rosto enrolada na cabeça e a de banho amarrada na altura do peito, os ombros vermelhos, escaldados da água quente. Quando retorna ao banheiro para estender a sua toalha em cima no box, é certo que embola a de Martim, que secava no seu lugar e agora continuará molhada. Ele levanta da cama e vai atrás do seu rastro fumegante e úmido. Encontra a toalha esticada e o vaso destampado emite um cheiro de mijo seco.
Desde o início, a cama foi testemunha. A fumaça que toma a cidade no fim da tarde ainda parecia um futuro distante quando assistiram, no jornal da noite, uma matéria sobre a construção da Central. Há vinte anos o Grupo Terra tinha anexado o centro da cidade, desativando o porto e começando a aterrar a baía, e o anúncio do início das novas obras chegava para comemorar a data. O banco de areia cercado por alambrados agora seria ladeado por muros. Em vez do nada, haveria uma estrutura com dezenas de galpões, cobertos por telhados retangulares de vigas metálicas. A palavra oportunidade foi mencionada seguidas vezes pelo apresentador do telejornal, enquanto relativizava as últimas duas décadas de queda na economia da região depois do desmonte do porto.
Terminada a matéria, Ana pegou o computador em cima da mesa. As pintas marrons trilhavam um caminho nas suas costas brancas, acesas no escuro, e ele podia ver uma camada de suor cobrindo seus quadris. Martim tinha voltado para a cidade há menos de um ano e ainda estranhava as noites quentes, comuns desde o aterro. A nudez de Ana não era luxúria ou capricho, embora todo movimento do seu corpo também tivesse esse caráter para Martim, mesmo quando fotografava os cadáveres que os reuniam quase todas as noites, ela pelo jornal do Grupo Terra, ele pela polícia. Nossos padrinhos, ela dizia, passando as fotos no visor da câmera. Naquele dia ela lia na cama as notícias sobre a Central, o notebook tapando o sexo, quando notou que a matéria do telejornal ignorara as explosões noturnas, justo o que mais se comenta depois do fim do mar. Durante os vinte anos de silêncio em torno dos planos para o aterro, as fagulhas brilhavam no céu duas ou três vezes todas as noites, como fogos de artifício sem som. Martim se lembrava, na infância, de assistir da janela o ponto de luz cortar o teto do aterro durante a madrugada, quando não conseguia dormir. Imaginava discos voadores, cometas, guerras nucleares. Com o início das obras na Central, elas iriam cessar, Ana lia em voz alta na notícia da internet. Se soubesse, teria ficado acordada ontem à noite para ver, disse. Martim concordou, poderiam ter colocado um alarme por volta das duas, o horário de maior ocorrência na média, falou. Mas ele nunca mais tinha visto uma explosão. Quando acontecia de estar na rua, durante o turno de trabalho, preferia não olhar, mas nunca chegou a dizer.
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Da cama ele vê o visor do celular acender em cima da mesa. Podem ter passado as duas horas e não se deu conta, ligam da Homicídios para apressá-lo, pois tem farrapos a recolher. Acorda com a pasta preta no colo, os casos não resolvidos que vinha trazendo para casa, e na palma da mão duas esferas vermelhas, das três que tinha comprado de manhã. Flutuava de um corpo para outro, numa necrópole anônima, deixando seu corpo correr num rio fúnebre, enquanto a consciência afundava no magma da esfera. Alguns casos de anos atrás, quando os cadáveres chegavam mais próximos da cidade, num resto de mar ainda não aterrado a cem metros da avenida. Folheava os arquivos e imergia no torpor daquela repetição. Já não lembra se no início tinha alguma pretensão com aquilo, além da sensação de desaparecer. De volta da viagem, acabava ligando a televisão e dormindo. Desta vez, porém, o aparelho estava apagado. Talvez o fantasma de Ana tenha desligado depois ele que pegou no sono.
O celular continua a tocar enquanto começa a se mexer. O relógio marca sete e dez. Ainda quase uma hora para o início do turno, não sabe por que ligam com tanta insistência. Retorna para o número desconhecido e quem atende é um guarda do território. Ouve a sequência de números e letras que o identifica como lacaio do Grupo Terra, com jurisdição na Seção 7. Martim diz que não está em serviço, mas o guarda avisa que não é o caso. Como pode não ser o caso, pensa, ainda está dentro da névoa da esfera e talvez não tenha entendido bem. Não é o caso, ele pergunta. O guarda repete: não se trata de serviço. É um corpo, mas não um homicídio, diz. Martim pensa em Ana, procura seu corpo pálido pelo quarto, a esta altura já deve estar se vestindo, pendurando a câmera no pescoço, pronta para desenterrar cadáveres. Mas no quarto há só ele. É uma mulher, pergunta, o guarda diz que não. Encontramos no prédio Dionísio, do lado do antigo cinema. Você é o contato indicado pelo morto, diz o guarda, e emenda a leitura dos artigos que regulam a atuação da polícia na Seção 7, todo o protocolo que precisam seguir desde a anexação. Então faz uma pausa. O que diz em seguida diz respeito a um velho conhecido, alguém que reside no fundo da cabeça como um borrão, um filme mudo esquecido num cômodo. No fundo da ligação alguém passa pedaços de informações ao guarda, enquanto uma terceira voz, mais distante, repete fecha a janela, fecha a janela. Antes de desligar, o guarda dita o nome completo do Rato e pergunta em quanto tempo Martim pode chegar.
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Em vinte anos o Rato não mudou nada. Continua imóvel na cadeira-de-rodas, mudo, nos cantos da casa. Mas agora está morto. O corpo reduzido, a pele escamosa desmanchando no vento. As mãos seguram com firmeza os braços da cadeira, como se tivesse morrido de susto. Está de costas para a televisão, próximo à janela da sala, de onde deve ter assistido ao declínio gradual da paisagem nos últimos anos, apoiado nos corrimãos parafusados um pouco abaixo do parapeito. E pendurado no pescoço, na altura do peito, os binóculos de estimação, o souvenir deixado pelo Rato como uma troça macabra, sua especialidade: olhos inúteis de um homem cego, interpretando a luz detrás do lençol da cegueira, antes de se apagarem, abertos.
Os dois guardas do território olham os cômodos da casa, à distância, tentando não encontrar nenhum indício de morte suspeita. Caso encontrem, terão que contatar um policial da Homicídios e lhe entregar o caso. Estão com sorte porque Martim já está ali, mas não haverá qualquer indício, estão diante da morte de um moribundo. O fato de o terem chamado significa que o Rato não era mais assistido por uma cuidadora. Uma massa de poeira misturada à areia se sedimentou no piso da sala e nos corrimãos, vindo da janela, aberta há algum tempo. Já não se levantava antes de morrer? Martim imagina o que o Rato pode ter dito ou feito para a pessoa que o assistia desistir do trabalho e deixá-lo à mercê da doença. Talvez ele mesmo tenha pedido que o deixassem, ou tenha se trancado e parado de atender a porta e o telefone.
Um dos guardas finaliza a inspeção e vai para a porta, enquanto o outro se aproxima com o celular. Localiza o regimento geral da anexação e lê o artigo que delega a Martim a responsabilidade pelos trâmites do corpo. Seu pomo de adão pronunciado sobe e desce quando respira entre as palavras extensas que é obrigado a dizer. Um robô esbelto de cabelos chupados atrás da cabeça num rabo de cavalo, compondo sua implacável inexpressão. Terminou de ler o artigo e enviou a versão prévia da ocorrência para o celular de Martim e disse que depois poderá checar o documento oficial com uma senha. O relatório inicial era o esperado. Um vizinho de andar sentiu um mau cheiro persistente e chamou a guarda. O Rato tinha morrido de morte. O guarda não quis saber por que alguém na condição do morto estava sozinho. Poupou Martim de dizer que não sabia. Ou que não fazia ideia de como chegara tão longe. Ainda está de luvas, embora não tenha tocado em nada desde que o policial entrou. Martim olha para o brasão do Grupo Terra bordado tenuamente na farda: a pequena estrela preta fincada no centro de um globo com as fronteiras borradas.
Dois homens de macacões pretos e luvas entram com a maca no apartamento. Deixando dois rastros atrás deles, movem a cadeira-de-rodas sobre a areia até o centro da sala, onde podem manobrá-la melhor. Tiram os binóculos do pescoço do Rato, põem num saco plástico e entregam para Martim. Depois carregam o corpo do Rato para a maca, onde uma bolsa preta com zíper o engole. Os empacotadores então saem e os guardas os acompanham. O que fecha a porta deixa as chaves do apartamento com Martim.
O policial olha para a vista que o Rato escolheu levar para o nada com ele. A fumaça aderida ao céu filtra um lilás falhado, a meio caminho da noite. No meio do aterro, a uns dois quilômetros dali, os muros de pedra cercam dezenas de galpões fechados, um deserto de metal em meio a um silêncio conspiratório. Na mão de Martim pende a sacola com os binóculos do Rato, os olhos mortos que passou a usar para não ver nada. Talvez estacionar a cadeira na direção da luz difusa que entrava pela janela o ajudasse a lembrar do porto, desativado há vinte anos, sua obsessão desde que a doença o aposentou da estiva. Nunca parou de olhar para lá, nem quando não podia mais enxergar. Um fim sentimental para alguém como o Rato, supondo que tenha chegado ali sozinho.
Chega a liberação do turno pelo celular. O tempo dos trâmites e do luto legal. Oito dias depois Martim teria alguma história para contar na Homicídios, quando Otto, o delegado, perguntasse. Mesmo que fosse mentir, ele teria que lembrar. Como último ato, depois de morto, o Rato seria recordado nestes termos: os olhos do meu pai, o corpo do meu pai, a morte do meu pai.
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Estende a mão e alcança a correia dos binóculos na mesa de cabeceira. A silhueta da garrafa desenhada na parede pela luz encardida que precede a fumaça. Puxa os binóculos e ergue as lentes amareladas contra o rosto, seu reflexo recostado no travesseiro. Um ou outro carro passa na rua, os motores e o estalido das rodas no asfalto coberto de areia, um rosnado de farrapo solto no ar. O ar-condicionado absorve os ruídos da rua com seu chiado monocórdico. Está deitado há horas, desde que acordou. Segura os olhos do Rato e pensa em olhos de réptil ou de um animal fossilizado.
Apoia a cabeça na parede e sente o facho de luz morna escorrendo pelo rosto, morrendo pela fresta da cortina. Mesmo num lugar como a Homicídios a morte de um parente de primeiro grau rendia dias de folga. A garrafa o tinha ajudado a preencher uma parte daquele dia, mas havia ainda uma metade em branco. Vira o crânio do Rato de ponta cabeça, num só movimento fecha seus olhos fossilizados e os dele. A cabeça dói, uma, duas estocadas no meio da testa. Senta na cama e começa a calçar os sapatos. Na rodovia os carros se enfileiram como vagões de trem e entre eles, pelos corredores, os farrapos passam dentro de seus capuzes metendo os nós dos dedos nas janelas. A fronteira recebe seu último fluxo de gente. Depois da fumaça só os fantasmas habitam a Seção 7. Enrola a correia dos binóculos na haste entre as lentes, pega a máscara de dentro da gaveta, fixa o coldre na cintura. Lá fora o sol agoniza por trás dos prédios.
Da garagem, vê o movimento coordenado dos farrapos, que pulam a mureta do cais para a pista, embrenhando-se entre os carros que perdem a velocidade perto das cabines da fronteira. Alguns já não pedem com tanta calma as esmolas do dia: com a proximidade da fumaça, batem os cotovelos nas janelas, as mãos espalmadas nos para-brisas. Sai do prédio e pega a pista da direita, depois curva na primeira esquina e segue em frente por cinco minutos, no sentido da Central. Por ali as lojas de bebidas já estão fechadas. Contorna o aterro até a Cidade Alta, onde por trás do antigo palácio do governo uma sombra ou outra cruza a calçada e desaparece dentro de um bar. Estaciona do outro lado da rua, entre um hospital e uma galeria de arte. Ali, guardas do território ordenam uma fila de farrapos junto ao muro ao longo do quarteirão, enquanto uma mulher de avental do lado de uma van branca entrega ao primeiro farrapo uma marmita de isopor.
No balcão do bar, um sujeito magro e muito alto empurra moedas para o barista. Atrás dele, na mesa colada à parede com janelas gradeadas – de onde se vê a cidade além da fronteira, com um céu que ainda não se tornou tão turvo quanto o céu da Seção 7 –, um homem mexe no visor do celular e toma cachaça num copo americano. Usa um boné verde-limão atarracado na cabeça, sombreando suas feições. São os únicos clientes e devem carregar a máscara nos seus carros. Ambos olham para Martim quando se aproxima do balcão. Pelo menos um deles, sem contar o barista, carrega uma arma na cintura. O homem na mesa termina seu copo de cachaça e o enche de novo, até a metade, enquanto o outro, no balcão, recebe sua dose de vodca, despejada devagar pelo barista, com uma rodela de limão amarelada. Está sério, bebe levando a cabo um hábito bem treinado, dando conta de tudo ao seu redor. Martim deixa o coldre à mostra e pede uma dose de conhaque e uma garrafa. Agora que todos sabem de todos, pensa, há pouco espaço para más interpretações e gestos escusos. Em dois minutos está dentro do carro e abre o porta-luvas, os olhos do Rato virados para a janela refletindo o crepúsculo encardido. A fila da comida se perde na esquina do hospital. Nunca há marmitas para todos.
A primeira sirene soa indicando meia hora para as chaminés da Central começarem o ritual diário. Martim dirige sozinho pelas vias do centro da cidade até a entrada do aterro. Partículas lodosas de gás, deixadas pela fumaça, flutuam na parte final do caminho, onde já se vê as três bocas metálicas que expeliriam as nuvens densas nos próximos minutos, abertas nas extremidades de três dutos saídos de um prédio da Central – um caixote de concreto sem janelas, a única estrutura visível acima dos muros.
Para na cancela antes do aterro e espera o guarda descer da guarita para pressionar o distintivo contra o para-brisa. Ali o vento é mais forte e carrega a areia do aterro com ele. Como os farrapos que povoam as margens da rodovia, o guarda do território tem a cabeça coberta por um capuz, protegendo os ouvidos e os olhos. Para falar, põe a mão na frente da boca e grita. Ela vai sair logo, diz, enquanto digita no visor a identidade funcional de Martim, e aponta para as bocas metálicas no céu. É precavido, está com sua máscara pendurada no pescoço. Sim, Martim responde, e dá dois toques no porta-luvas com a mão direita, mostrando onde carrego a dele. Premissa da excursão, ele pergunta e rola os dedos no visor: ostensiva? Restrita? Ostensiva. Pede para descrevê-la. Apesar das janelas fechadas, a poeira dos resíduos começa a congestionar as narinas. Um velho, Martim diz, o corpo de um velho encontrado no prédio Dionísio, no centro da cidade, do lado do antigo cinema. Dois cortes, no tórax e na garganta, ferida horizontal de lâmina entre dez e vinte centímetros, uma faca, um pedaço de lata, quem sabe, como esses que os farrapos carregam dentro dos trapos. E o suspeito, foragido, pergunta o guarda. Martim diz que sim. Não tem medo de mentir, a história será mais uma esquecida no pântano de dados da Seção 7, mais um relatório nunca lido por ninguém. Então completa: a perícia forense indica o PH da areia encontrada no local do crime como similar ao dessa área. Onde, o guarda pergunta, onde nessa área. Para lá da cancela, aqui e dois quilômetros para trás. Onde para lá, insiste. Trezentos metros, quatrocentos para garantir, diz o policial. Acontece toda hora: um farrapo dispara pelo aterro, em transe, tentando se aproximar dos muros, e é escorraçado por um drone ou espancado pelos guardas em melhor forma do que aqueles que vivem sentados nas guaritas. Temos que colher nas duas pontas, Martim continua. Depois o trabalho é dos laboratórios. O guarda concorda com a cabeça e agora seu dedo dá breves toques no visor. Está no final da verificação. Depois de um tempo um desses toques abre a cancela. Martim atravessa devagar.
Nesse ponto da estrada, a areia começa a tomar o piso de terra pelas laterais. Martim tinha passado ali um par de vezes, ambas por ocorrências relacionadas aos farrapos da rodovia, mas sempre acompanhado de uma equipe de guardas do território. Agora está sozinho diante dos muros, olha através do para-brisa a parede rochosa entranhada por vigas de ferro erguida a cinquenta metros do carro. Abre o porta-luvas e pega os binóculos do Rato. Sai do carro. Ali o som do vento preenche todo o espaço, de fora e de dentro. Ficaria de pé, parado, não fosse o ar pestilento, permaneceria prostrado ouvindo o nada, uma vibração dentro da cabeça. O Rato faz sugestões com seus olhos revirados dentro da palma de Martim: na gaveta do IML podem estar fechados, mas ali, não. Pensa em levá-los até o rosto, mas não o faz. Escolhe um ponto da estrada em que o piso parece menos duro e, com o cabo da pistola, cava o suficiente para cobrir os binóculos. Duas pisadas firmes terminam de sepultá-lo. Agora vai velar o Rato, enquanto a fumaça o engole. No carro abre a garrafa, confia nos ponteiros do relógio a seu favor, o suor gotejando na poça de conhaque que se forma na boca antes do coice do álcool no esôfago e então na cabeça e nos membros, esvaziados, pendendo do banco. Desde que voltou para a cidade mora num sonho, desde que Ana desapareceu está num inferno por fazer, eternamente em espera. Divide os goles em intervalos de trinta segundos, é assim que calcula ter mais uns oito goles pela frente, talvez nove, mas não dez, mesmo que esteja dentro de um sonho lúcido, entranhado nas vigas do muro da Central. O porta-luvas aberto mostra a máscara que precisa ir regulando no rosto, apertando o couro cabeludo. Uns goles depois a sirene sinaliza o último minuto e ele guarda a garrafa e retira a máscara do porta-luvas, aperta as correias atrás da cabeça, estende sua tromba mutilada de alienígena. Acima da Central a névoa lodosa começa a golpear o céu fosco. Fecha os olhos enquanto o carro é engolido. Ali passa os quarenta minutos de cegueira confundindo a respiração pausada com as batidas do coração, pensando se os olhos do Rato se reviram debaixo da areia tentando olhar para o muro como fazem os farrapos em transe, um transe que em certa medida ele também partilha, o transe do estrangeiro forçado a ruminar um idioma extinto na terra onde sempre viveu.
