Amor, saudades sempre! Queria falar umas coisas importantes pra você!
Mas que papinho, Alceu! Quantas vezes eu já não ouvi essas coisas de você. Quando você finge essa leveza toda, e sempre vem com um jeito de fazer eu me sentir mal. Eu não gosto de mim quando você me deixa mal, Alceu, mas agora eu já superei você.
Não, é uma coisa séria. De todas as pessoas do mundo, é com você que eu queria falar justamente agora. Estou no 17o. andar, descendo pela saída de emergência porque parece que tem um incêndio nas caldeiras do prédio lá em baixo, aqui no trabalho.
Olha como você fala quase de passagem “aqui no trabalho” que você acha que é a coisa mais importante do mundo, e na mesma, a mesma frase que diz que eu sou a “de todas as pessoas do mundo” a que mais importa.
Mas isso é verdade. Como o incêndio é nas caldeiras, eu não sei se vou conseguir sair quando eu chegar lá embaixo. Nessa hora, pensei que era com você que eu precisava falar mais uma única vez. Tem um incêndio aqui mesmo, não está passando na televisão?
Não tem nada na televisão, não tem nada em lugar nenhum, Alceu, porque não é verdade. Eu não acredito mais em você.
Eu sei. Isso é minha culpa. Eu devia ter assumido você em todas as suas facetas, as que eu gosto e as que eu não gosto, e mostrado mais orgulho da nossa vida juntos, agora eu sei. Eu vinha pensando muito nisso, e achei que agora eu sabia o que dizer. Eu queria ter pelo menos a esperança de um recomeço, se eu sair vivo dessa.
E é dizendo que não gosta de mim que você quer recomeçar? Eu acreditava, Alceu. Eu me lembro na primeira vez que a gente andou de mãos dadas no shopping. Você dizendo “olha só, eu de terno e você de mini-saia” e rindo aquela risada nervosa, e o sorriso besta que você dá quando está envergonhado. Você apertava a minha mão, como que para me encorajar. Eu naquele dia me orgulhava da sua coragem. Que absurdo, precisar de coragem para passear no shopping com a namorada!
Mas era coragem mesmo! Eu briguei com a minha família por você. Eu fiz sacrifícios, coisas que eu não sabia que era capaz. Eu me sinto um homem feito quando estou com você. Eu queria falar com você justamente pra dizer que qualquer sacrifício valeu a pena pra ficar com você.
Alceu, você não está entendendo nada, eu tenho pena de você. Foi a sua família brigou com você por minha causa. Você não brigou com ninguém. Antes de eu abrir a boca na sua casa pela primeira vez, a sua família me achava incompatível com vocês todos. Você não me defendeu. Nenhuma vez.
Defendia sim, falei com a minha mãe sobre como você tinha entrado na faculdade de psicologia, sobre o seu trabalho voluntário no sistema manicomial, sua consciência social e sobre o que você achava importante.
O que eu acho importante, Alceu, é a dignidade. Eu era maltratada na sua frente. Sua mãe me perguntava se o meu nariz era plástica quase toda semana. Seu pai começou a chamar você de “Sargentelli”… ele falava assim “ô sargento, o homem chegou!” quando você me levava pra sua casa.
Ah, meu pai é desse jeito, ele sempre acha que está dando aula na faculdade. Essa liberdade é um sinal de respeito dele por você.
Alceu. Você não sabe o que é respeito. Seus amigos, Alceu, como eles me chamavam pelas costas? Você ainda é amigo do Osdármio?
Não, aconteceu uma coisa desagradável e a gente não se fala mais. Mas eu enfrentei essas coisas com você, essas e outras, pelo nosso relacionamento. Você lembra como eu também ficava mal com essas histórias?
Essa é a pior parte pra mim. A sua ideia de enfrentamento era me dizer como era bizarro o que acontecia ao seu redor ao meu respeito. As suas histórias eram uma desgraça atrás da outra, todas as pessoas ao seu redor lhe pareciam más, gente recriminando você, e as coisas mais absurdas sobre mim ditas por gente que só me viu de passagem. Hoje eu acho que você inventava tudo aquilo, você achava que no sofrimento me puxava sempre pra perto de você. E por muito tempo foi assim mesmo.
Agora tem um monte de gente na escada de incêndio. Você tem certeza de que não tem nada na televisão? Procura na internet.
Alceu. Está dando na televisão agora. Eu não acredito. Alceu. O que que é isso?
Eu te disse, o prédio está pegando fogo! Estou quase chegando no térreo. Deixa eu escapar disso aqui, se eu escapar, e a gente conversa melhor! Era só em você que eu pensava quando eu vi que poderia ser o fim.
Não não não Alceu. Não. Putamerda.
Está dando aqui no plantão do Jornal Nacional. O térreo está tomado pelo fogo. não acredito. O chefe da brigada de incêndio está dizendo que ninguém sabe onde o fogo começou. Alceu.
Alceu você botou fogo no Congresso Nacional. Eu tenho certeza que foi você.
Olha há quanto tempo a gente está se falando! Você sequer ligou o alarme de incêndio?
