Poliedro

por Américo Paim

POLIEDRO

Eu, pequeno, ali no chão de taco, alternando entre ler os encartes dos discos de vinil e analisar o poliedro transparente com o globo terrestre, um peso de papel. Meu pai, na cadeira que rangia um pouco, atrás da mesa pesada de madeira bem escura, mexendo na sua coleção de selos, não me via daquela posição. Eu ouvia o barulho dos cubos de gelo batendo no copo de uísque toda vez que ele ia beber um gole. Eram os domingos. Foi desse jeito que conheci Fitzgerald, Coltrane, Ellington, Mancini, Jobim, Caymmi, Orlando Silva, Nelson Gonçalves, Dolores Duran e tantos outros da velha, muito velha guarda. Assim a música virou meu universo, o som saindo daquelas caixas que eram quase do meu tamanho. O mundo nas minhas mãos e ouvidos. Os discos em um móvel modesto, desenhado por meu pai, que nunca entendeu por que teve dois filhos engenheiros. Sob a mesa, uma garrafa de benzina, para descolar os selos dos papeis e envelopes. Ele mexia com um produto cancerígeno, mas fui eu quem teve câncer, muitos anos depois.

TATU

Um programa internacional de treinamento para jovens executivos, gente do mundo todo. O tema era Sustentabilidade, quando isto era grego. Na Suíça, com tudo pago. Eu, com trinta e poucos, ganhei a vaga por causa do inglês. Tinha uns caras mais prontos que eu. E pensar que, ainda adolescente, perdi a prova do Michigan porque dormi demais. Minha avó não me acordou com pena. Meu sono era bem sustentável. Na chegada a Horgen, houve um evento quebra-gelo e foram formadas duplas aleatórias que deveriam se reunir por uns poucos minutos e depois representar para todos uma cena famosa do Cinema, tudo antes do jantar de recepção. Meu par foi um finlandês chamado Tatu. Sério. Cara legal. Fizemos a cena da cruzada de pernas de “Instinto Selvagem”, sendo eu o Michael Douglas. Ganhamos o Oscar, em primeiro lugar! Tatu mostrou talento como Sharon, mas depois de uns anos perdemos contato. Ele voltou ao buraco. Ainda fiquei alguns anos na empresa, até a situação ficar insustentável.

MEDALHA (parte 1)

Na primeira vez em Paris, não fui à Sacré Cœur. O tempo foi curto. Na segunda, nem considerei. Foi um bate e volta de TGV, de Bruxelas, onde estava a trabalho. Um colega, que não conhecia a cidade, foi comigo e me pediu para circularmos naqueles ônibus carecas. Na terceira, eu fui. Desci do metrô na parte baixa de Montmartre e resolvi subir a pé mesmo. Decisão errada para os fora de forma, como eu estava. As escadas são muitas. Perto do pôr-do-sol, cheguei à vista maravilhosa. Tudo me doía. Merecia um pódio pela vitória de chegar ao topo. A Basílica é linda, apesar de meu ranço com o luxo das igrejas católicas. Sentado em um dos bancos de madeira, entre descanso e contemplação, em poucos minutos, sem entender, chorei, lento e silencioso. Algo me conectou. Tenho fé, mas não sou religioso. Já visitei igreja no Brasil e pelo planeta, antes e depois daquele dia, e nunca havia passado por aquilo. Comprei uma medalhinha no impulso (ou não?). Desde então, voltei lá mais duas vezes. Na dúvida, levei um lenço. Funcionou.

MEDALHA (parte 2)

Final do campeonato de basquete da faculdade nas quadras de Ondina, contra Economia. Nosso time era bom, mas havia perdido duas finais para eles naquele ano, no torneio início e na copinha. Esse, porém, era o torneio mais importante. O jogo começou uns quinze minutos após o time de futebol deles terminar sua partida no campo e a torcida descer em peso para a quadra, cercando-a. Dava pra sentir o bafo, pois não tinha arquibancada. Comecei no banco. Foi por isso que a notei do outro lado. Morena linda, de olhares convincentes e sorrisos de três pontos. Entrei já desconcentrado. Em um lance mais agreste, fui jogado para fora da quadra. Ela me ajudou a levantar, rindo: “não vá se quebrar todo… vale prêmio”. O jogo acabou, ganhamos o título, saí com uma torção no punho, por cair de mau jeito após cotovelada criminosa de Cebola, o capitão deles. A contusão não atrapalhou nada e eu e a moça tivemos um relacionamento, breve e massa. Ela disse que só me devolveria a medalha se a gente se separasse. Cumpriu a promessa. Outro dia a vi na rua. Segue linda, mas eu já não jogo basquete.

MÃOS (parte 1)

Quanto valem as mãos de um artista? De vez em quando ouvimos que algum figurão colocou as mãos no seguro. Se fosse eu, faria. Eis que estava no aeroporto de Guarulhos naquele dia de primavera em 2015. Era mais uma viagem de trabalho. Já havia passado pelos trâmites até a sala de embarque. Gosto de esperar no aeroporto, menos estresse. Fui ao sanitário. Não era muito grande e estava vazio, para minha surpresa. Duas cabines, uma livre. Fui a um dos dois mictórios. Enquanto me aliviava, ouvi a descarga e o barulho de porta se abrindo. Na sequência, me liberei e fui à pia, a tempo de constatar que quem conferia roupa e cabelo ali era ninguém menos que George Benson. Estava de branco, com óculos escuros, mas era ele. Eu só teria alguns segundos. Meu aperto de mão é firme. Já pensou se esmagasse as delicadas mãos do grande guitarrista? Nessa hesitação, emudeci e ele foi mais rápido. Virou-se para mim e acenou com a cabeça, o que repeti de volta. Ele saiu. Melhor assim. Quem sabe onde ele andou com aquela mão? Eu não vi lavar…

MÃOS (parte 2)

Não é mentira. Eu juro que foi assim. Estava no aeroporto em Soterópolis, em agosto de 2001. Viagem a trabalho: Salvador – São Paulo – Lisboa – Genebra. Já no avião, vi um homem com cara conhecida. Achei que era ele, mas seria impossível. Não o vi mais. Desembarquei em São Paulo e na conexão vi mais de perto: era ele mesmo. Eu estava no mesmo voo que ele! Inacreditável. Pensei em me aproximar, porém, seria um abuso. Estive perto assim de Chico e Marieta, Antônio Fagundes, Luiz Melodia, entre outros e os deixei em paz. Não faria diferente, só que me cocei todo. Em Lisboa, a sala da conexão era ampla. Ia para a fila quando reparei um sofá do outro lado. Ele, de novo, sozinho, ar despreocupado. Não aguentei mais e fui. Me apresentei, conversamos, ele muito atencioso e sorridente. Nos despedimos após poucos minutos. Só lavei as mãos, a contragosto, em Genebra, porque tive que ir ao sanitário. Não queria macular minha mão direita, que apertou a mão direita do homem que criou e solou “Stairway to Heaven” e “Since I’ve been loving you”. Até hoje é o único autógrafo que tenho.

TEMPO CORTADO

Meu avô era homem de sorrisos sazonais e não gostava de ser chamado à atenção. Tenho seu nome. Morreu e minha mãe guardou coisas dele. Quando ela se foi, eu e meu irmão pegamos uma relíquia para cada. Ele, a cumbuca para espuma de barba, mais pincel e espelho de aumento. Eu, o canivete de madrepérola. Nunca soube usar, queria só pela lembrança do meu tempo de menino, com ele apontando meus lápis com aquela faquinha afiada. E foi ele quem me ensinou a dar o laço no sapato. Uma vez essas coisas se misturaram. Estava em Porto Seguro, com 19 anos. Era noite e voltava sozinho para casa. Entrei em um beco, me agachei para amarrar o laço do tênis e fui surpreendido por um rapaz, pouco mais baixo que eu. Veio de canivete querendo o relógio. Achei que dava conta dele. Recusei. Ele veio pra cima e a gente se atracou. Consegui desarmá-lo, mas acabamos na delegacia. Meu pai não ficou nada feliz. Em casa, me chamou para o sermão da montanha. Ele entrou primeiro na sala. Me demorei um pouco, amarrando de novo o cadarço. Atrasei o que pude. Não herdei do velho só o nome.

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