Engolir o horror
Quando tinha seis anos, minha irmã foi picada por uma abelha na piscina do prédio. Ela chorava mais que alguém cortando cebola e gritava como se fosse morrer. Pior que ela ficou a abelha, mas eu, então com sete anos, não sabia que as abelhas morrem depois de picar. Meu pai pegou minha irmã no colo e a levou para nosso apartamento, no sexto andar. Minha mãe fazia o almoço, enxugou as mãos sujas de refogado no vestido e, sem lágrimas nos olhos, botou a boca em cima da parte de baixo do biquíni de minha irmã, chupou forte e cuspiu a saliva. Cuspiu no chão mesmo.
Fiquei horrorizado, por dois motivos. Primeiro porque aos cinco anos cuspi no chão do apartamento para imitar meu pai, que escarrava na rua. Ele me deu um tapa, pois no chão de casa não se cospe nunca. Mas minha mãe cuspiu no chão e não levou tapa algum. Nem uma palmadinha. Quando descobri que a cuspida era para tirar o veneno da abelha, veio o segundo motivo: minha mãe podia ter morrido ao engolir um pouquinho do veneno. Ela só respondeu que não havia esse risco e, se houvesse, faria do mesmo jeito.
Mais de vinte anos depois, fui tomar banho de rio na cidade de um grande amigo. A mãe dele foi picada por uma abelha. Eu tasquei a boca no local da picada, chupei e cuspi. Todos ficaram horrorizados. Em segundo lugar, porque alguém com a minha idade e meu estudo ainda ignorava que chupar o veneno é superstição sem base científica. E, em primeiro lugar, porque eu era um cara de 30 anos chupando a perna de uma senhora de 60.
É linda e cristalina como mel de laranjeira a ideia de aprender com a própria mãe a mamar ao inverso, ou seja, extrair com a boca a substância nociva; mais linda e mais doce é a oportunidade de fazê-lo com a mãe de um grande amigo, um irmão de outra mãe. Até passar vergonha por isso é bonito.
Horrível é descobrir agora, dois anos depois, o câncer de pâncreas da mãe do meu amigo e não poder chupar o veneno para fora. É um horror tão grande que justifica cuspir no chão de casa.
Lavar os pés
Ela disse para a mãe que lhe dei a maior prova de amor de sua vida. Depois de pisar num toroço de merda mole e emporcalhar sua havaiana branca e seus dedos rosados de um marrom que só uma mortadela rosa-veneno pode gerar, eu lavei seu pé. É, a prova de amor foi lavar seu pé cheio de merda.
O amor em questão, claro, é o romântico, já que a interlocutora, sua mãe, deve ter limpado sua bunda dos mais distintos tons de marrom saídos de dentro dela (a menina do pé cagado) desde que saiu de dentro dela (a mãe da menina do pé cagado). Detalhe importante: repetiu o tempo todo que tinha pisado em merda humana. Para ela, isso era muito mais repulsivo que merda canina ou de outro bicho.
Ainda que o mais instintivo seja ficar no exterior, isto é, a merda sobre a pele do pé, a comoção da minha então namorada pelo meu ato — que, confesso, me pareceu pouca merda — leva a uma questão profunda: como se conceitua uma prova de amor? Suponho que fazer algo muito difícil, quase torturante. E no caso dela, algo que não faria por mim, já que não conseguia lavar nem o próprio pé.
Jesus lavou os pés de seus 12 apóstolos. Até os de Judas, mesmo sabendo que ele o trairia. Esse ato é, para muitos teólogos, entre outras coisas mais importantes, prova de amor pela humanidade (tanto quanto ou mais que morrer na cruz).
Eu lavei o pé da então namorada e o que ela fez depois? Pior que me trair, restringiu na minha cabeça a noção de prova de amor enquanto martírio. Levaria ainda muitos anos e outros namoros para entender que negar o sofrimento e se permitir à felicidade é uma prova de amor para si e para o próximo.
Naquele momento, porém, provação significava calar o impulso de censurar sua repulsa, fruto de quem pouco andava a pé e tinha uma empregada para limpar tudo. A maior prova de amor foi segurar a vontade louca de gritar: “porra, e daí que é humana, merda é tudo a mesma merda”.
Depois disso, por muito tempo lavei as mãos para o amor e suas provas.
Consertar a perfeição
O primeiro homem que amei foi meu pai; o segundo, meu avô neurótico e vivo; o terceiro, meu tio taxista com um óculos na testa e outro nos olhos; o quarto, a memória de meu avô são e morto; e o quinto, meu amigo que desistiu de me ensinar o passinho. Já o primeiro homem por quem me apaixonei foi o Homem de Fevereiro ou Março, personagem de Rubem Fonseca.
Eu o conheci apenas na coletânea de contos que leva seu nome, aos 17. Um ano antes, meu pai me deu meu primeiro título do Rubem Fonseca, O Caso Morel, e disse que estava na hora de ler livro de homem. Larguei os livros de dragões, agarrei o romance e depois li Feliz Ano Novo, onde conheci Mandrake. Personagem mais célebre do autor, ele era um advogado malandro que pegava qualquer mulher e consertava qualquer problema.
Através de Feliz Ano Novo, vivi um dos maiores problemas da vida. Ansioso por me vincular pelo amor literário, o emprestei a uma colega que gostava de Clarice Lispector e era a enésima mulher por quem me apaixonei. Uma edição 20 anos mais velha que eu, salva por meu pai de um incêndio, de páginas chamuscadas e soltantes. A colega odiou o livro, mas tinha uma surpresa para retribuir meu gesto: encadernou as páginas e pôs uma capa de plástico. Estragou para sempre o livro e minha esperança de compartilhar esse tipo de amor.
Um ano depois, li o Homem de Fevereiro ou Março, descobri que o personagem se chamava José, um halterofilista calado e melancólico, e me apaixonei por ele. Não por Mandrake, que consertava tudo e se apaixonava por qualquer mulher que se apaixonava por ele. Mas sim por José, que só teve amor (jamais paixão) por duas mulheres e as deixou ir, porque desejou consertá-las. Eu me apaixonei por José porque ele era triste e sabia que consertar estraga tudo.
Hoje escrevo e alardeio que não pretendo consertar nada com literatura. Mas minto e digo isso apenas para que se apaixonem por meu texto e me façam feliz. Sou um menino que se perdeu de seu primeiro paixão e se estragou.
Escudar com o estudo
Alexandre Jacó, pioneiro na pesquisa da cultura sertaneja sob a teoria queer, cresceu em uma família de vaqueiros em Serrita, interior de Pernambuco. Aos 7 anos já sabia que era diferente de seus irmãos. Desenhava, era feliz na escola e chorava por não poder vestir as mesmas roupas que suas irmãs nas quadrilhas de São João. Lembra-se de, aos 10 anos, o dono da fazenda onde sua família vivia perguntar em tom de troça o porquê de não gostar de andar a cavalo, em usureira insinuação sobre sua sexualidade. Seu pai, que ferrava os cavalos e muitas vezes lhe pareceu uma baita cavalgadura, respondeu ao patrão que o filho gostava mesmo era de estudar.
Jacó, em diversas palestras, em suas aulas na Universidade Regional do Cariri e nas mesas de bar que dividimos, denunciou muitas vezes a farsa romântica da educação formal enquanto escapatória absoluta às opressões de classe, raça e gênero. Após pagar a conta de uma noite especialmente regada à cerveja, porém, me confessou lacrimoso como achou lindo esse gesto de seu pai. O estudo foi a forma que encontrou de defender seu filho. Ele próprio um homem sem estudo. Seu filho que, mesmo com estudo, segue sofrendo por ser uma bixa preta da zona rural, mesmo professor universitário intelectualizado.
Negar o estudo enquanto instrumento de mobilidade social e possibilidade de existência é tão falacioso como assumir seu poder de redenção absoluta. O que não falta no mundo são intelectuais mesquinhos e imbecis. Ou, ainda, intelectuais brilhantes e generosos, ao mesmo tempo que totalmente distantes de si próprios e afundados numa melancolia árida e perfurante.
Jacó, por sua vez, prefere Miró da Muribeca a Édouard Louis. E às vezes desconfia que o gibão de seu pai poderia protegê-lo mais dos espinhos da vida que seus diplomas. Mas seu pai morreu e ele perdeu seu gibão. Mais cedo ou mais cedo ainda, todos nós perdemos os nossos.
Isolar o mal
Ao não saber precisar algo feito desde antes da memória, a solução é dizer: fazemos o tal algo desde que nos entendemos por gente. No meu caso, eu bato na madeira desde antes de entender que era gente. Minha mãe dizia que nasci prematuro e, tão logo me tirou de dentro dela, o obstetra disse que precisavam me entubar correndo para eu não ficar debilóide. Ouvi essa frase, ouvi o choro materno e, de punho cerrado, encostei os nós dos dedinhos na cruz franciscana sob a roupa cirúrgica do obstetra. Então, e só então, eu chorei.
Depois de me entender por gente, não conseguia entender o negócio de bater na madeira. O motivo eu já entendia: fazemos assim quando ouvimos e/ou proferimos e/ou pensamos em silêncio uma praga ou mau pensamento, para que não se realize. Mas de jeito nenhum eu conseguia entender o seguinte: por que batidas?; e por que na madeira?
Só no meio do Ensino Fundamental fui apresentado ao princípio de condutibilidade. E a questão me acompanha até hoje. Batemos na madeira — e não numa pedra, numa cerâmica ou na boca agourenta que profere o agouro — porque os maus pensamentos são como corrente elétrica? Batemos — e não assopramos, sacudimos ou acariciamos — a madeira para, pelo choque mecânico, despertar sua propriedade de isolamento? E, ainda que por último e menos importante, por que devemos bater três vezes?
Mesmo não entendendo, faço. E não deixa de me perpassar uma faísca de sorriso cínico quando ouço que o bem é contagiante. O bem é biológico, e por isso mesmo nem sempre contagia, porque a gente cria anticorpos e bota a culpa na vida. Já o mal é físico, elétrico, corre, contínua e alternadamente por nós, dissipa-se e fulmina em instantes. Quando me estatifica o pensamento de que fatalmente seremos todos eletrocutados pelo mal, e não tenho nenhuma madeira por perto, bato uma única e estrondosa vez na testa. E repito baixinho:
“É apenas um gesto, é apenas um gesto, é apenas um gesto”.
