Dezembro e Janeiro ( Meus Semelhantes 8)

06/12/2025 , 09/12, 11/12, 15/12, 18/12, 20/12 ( última aula antes do recesso)

                    Em dias quentes a planilha de treino serve também como abano. O ar condicionado funciona, os ventiladores idem, mas o vento do papelão próximo ao rosto parece mais eficiente. Se não eficiente para o calor,  o gesto auxilia os mais tímidos na espera por sua vez no aparelho.

 Uma aluna repondo aula, fez todo o treino com um cachecol vermelho e boné. Como se estivéssemos ainda no inverno. Ela também usava uma bengala de bolinhas.
 
 Vez ou outra um homem mais grandão que o Homem Grandão aparece neste horário para repor aulas.

Hoje, as duas gêmeas faziam exercícios sincronizados nas Leg Press bem diante de mim na cadeira extensora.  A cena me fez perder a conta nas minhas séries .

“Que nada, ainda tenho que trabalhar”, respondeu o Falso Francês Miúdo ao seu amigo Homem Grandão. O Homem Grandão havia comentado que dali, o FFM já ia para o  Sítio em Bragança . Sabemos  que O FFM tem um sítio fora de São Paulo.

Não vejo mais o Homem de Máscara . Não confundir com o Japonês de Máscara. Espero que esteja bem de saúde. A máscara no seu caso era para evitar qualquer tipo de contaminação no período pós quimioterapia.

Percebi que vejo gêmeos por todo lugar, mesmo que não sejam gêmeos.

No lado selvagem da sala, os equipamentos têm nome só para os iniciados. Não sei dizer como se chamam.

O estagiário ao meu lado na cadeira extensora levantava 35 kg cada perna. Achei meus doze quilos e meio muito humildes. Ele e mais dois funcionários treinavam no horário livre, mas demoravam um pouco além da conta nos aparelhos.  Quando terminaram, achei engraçado os três descerem as escadas em fila.

Como pude ignorar que o Fã do Quadrinho Belga falava francês? Hoje trocou palavras com o FFM.

Danielle com dois eles leva o dobro de tempo nos aparelhos. Talvez pelo excesso de simpatia. O excesso de simpatia de algumas pessoas toma o espaço das que não sofrem do mesmo mal e engolem o pouco que tem. Descobri o nome de Danielle quando pronta para assumir meu lugar na Desenvolvimento,  encontrei sua ficha presa pelo imã preto atrás do encosto. Danielle deixou sua máquina para continuar uma conversa com um recém conhecido da mesma área de trabalho enquanto ele treinava no Press Peitoral.  Já tinha observado o colóquio quando eu empurrava meus pesos na mesma máquina.  Danielle também me fez perder o Triceps Por Trás, a máquina que eu considerava uma exclusividade minha. Como Danielle, tão lenta e simpática pode puxar os mesmos ferros que eu?

Uma mulher, das muitas diferentes que vem aos sábados, me disse que ia trocar de máquina porque não conseguia tirar a roda de ferro sozinha e não achava nenhum instrutor disponível.  Desci da cadeira extensora, fiz o troca para ela. E ela me agradeceu. De vez em quando, alguém esquece de colocar os pesos de volta. Que seja mesmo esquecimento, mas aquele da distração e não o da idade. Muito menos que seja descaso. Orgulhosa da minha boa ação e da  intimidade com que me movimentei com os vinte quilos. Há um ano, não faria isso.

Não aperte minha mente, era a camiseta regata” made in Bahia” que o Homem de Luvas usava. Por um momento, e foi a primeira vez que vi a cena, ele discretamente apertou /ajeitou o saco sob os shorts. Coisa rápida.  Esse mesmo homem, fazia um treino na …………….que faz o ocupante da máquina empurrar um rolinho com a testa para destravar o pescoço.  O rolinho deve massagear a mente.

Retiro o que disse sobre o Colega de Jeans. Hoje ele chegou com uma calça de agasalho preta totalmente adequada aos exercícios. Bem vestido, escondia a timidez com as mãos nos bolsos.

06/01/2026

“Que os pesos lhe sejam leves”, são os votos que, vez ou outra, minha própria cabeça me enviava diante da perspectiva do retorno aos treinos depois de quinze dias do recesso de Natal e Ano Novo. E eles até que foram porque, na entrada, o instrutor me orientou a repetir as séries sem acrescentar os últimos pesos aos aparelhos. Achei um pouco de exagero, mas à medida que treinava, observei um esforço maior, diferente dos dias em que os exercícios eram rotina. Como eu, outros colegas pareciam sentir o mesmo. Estavam lá o Falso Francês Miúdo, o Homem Grandão, O Colega de Jeans, a Lia , o Japonês de Máscara, o Japonês Calado, todos,  de algum modo sofrendo ou comentando a volta. O FFM era  o que mais reclamava, uma reclamação bem humorada, daquelas em que se ri de si mesmo e que enchia a sala. Os demais assentiam com a cabeça, riam junto ou faziam caretas quando imaginavam que ninguém os via. As Gêmeas ainda não retornaram ou talvez nem retornem. A ausência das irmãs fez lembrar que muita gente desiste ou procura outra atividade ao começar o ano.

O retorno foi marcado por votos de Feliz Ano Novo. Até que dia de janeiro é aceitável desejar Feliz Ano Novo? Qual será o amigo ou conhecido que determinamos ser o último a endereçar os desejos de um bom ano? Qual notícia ruim, vai nos fazer desistir dos votos e aceitar as impossibilidades de um ano feliz? A única certeza é de que o retorno aos treinos vai deixa dores musculares.

Os instrutores parecem mais descansados e vários dos meus semelhantes,  devem estar viajando. Os que voltaram não comentam sobre viagens. Notei a presença de dois alunos novos no horário, mas conhecidos dos sábados. Talvez estivessem repondo aulas perdidas ainda no ano passado. Não sei se isso é possível. Talvez passem a frequentar esse horário. Mais alguns treinos e vou poder confirmar. Reparo também numas mulheres caladas , que não são muito frequentes.

Quinta-feira 08/01/2026

 O celular do FFM tocou três vezes. Tão alto que toda a academia ouviu. O aparelho estava num dos escaninhos da entrada e talvez ele tenha aumentado o volume para poder ouvi-lo de onde estivesse. Da entrada, o som chegou às maquinas do fundo, numa distância que suponho chegar perto de quinze a vinte metros. Vou calcular melhor numa próxima aula. O toque escolhido era aquele dos telefones antigos, pretos e pesados feitos de baquelite, o mesmo material que já serviu ou ainda serve para produzir cabos de panela. Após o terceiro toque da , ele buscou o telefone e o levou até o press peitoral. Ainda se pode chamar um celular de telefone?

Entendi que se tratava de uma questão de trabalho, mas não captei nada , concentrada que estava no segundo dia do esforço do retorno. As pernas no Leg press estavam mais cansadas.  Aconteceram dois outros telefonemas e nestes prestei mais atenção porque estávamos em máquinas próximas. Eu no Gêmeos e e ele na Cadeira Extensora. O primeiro era sua companheira, a Legítima Francesa, com quem falou na sua língua nativa e eu não pude entender por mais que tentasse apurar meus ouvidos. Francês , para mim, é uma língua  de que tenho conhecimentos mínimos e da qual tenho fugido dos meus treinos diários no Duolingo. Não pelo medo ou preguiça, mas por ter começado o ano muito ocupada. Se do francês entendi quase nada, da outra ligação ( mais uma de trabalho) só entendi o acerto de um horário para alguma reunião. Tal hora passo aí. Depois dessa resposta, voltei a lembrar do caminhãozinho fumarento e me propus a descobrir a que tipo de trabalho ele se dedica. Mesmo querendo muito, minha proposta, no entanto, não me permite descobrir. Quem sabe algumas aulas adiante e quem sabe eu também descubra a respeito dos papeizinhos sob a  Flying . A propósito, faz tempo que não vejo um deles.

Volto a reparar nas mulheres caladas. Tão silenciosas, que considero serem novas, resultado de algum remanejamento de início de ano. Elas todas me parecem novas, exceto eu e a ………….., mãe do Moço Ruivo de Barba. Uma delas, a Médica Plantonista trocou palavras simpáticas comigo enquanto lavávamos as mãos após as aulas. Ela com seu jeito médico de se higienizar. Ela, que não usa máscaras e nem paninho com álcool a cada , aparelho. Ela me disse que tinha vindo direto do plantão para o treino e estava bastante cansada. Foi gentil e não quero pensar que tenha aproveitado a pequena conversa só mesmo para contar que é médica. Na verdade, nem sei se o plantão era mesmo um plantão médico. Coisas da minha cabeça.

10/01/2025

O sábado, o dia extra , traz também pessoas extra conhecimento. Algumas são as mesmas , outras são novas. Dos conhecidos, o ator do bigodinho fino, a quem pretendo me referir como o Aluno dos Cabelos e Bigodes Tintos. Temos também a Companheira das Plantas, a quem já chamei de Japonesa Loira sem ter certeza se esta referência à nacionalidades ou descendências possa ser ofensiva ou incorreta. Aos dois colegas das tardes de terças e quintas continuarei a chamar de Japonês de Máscara e Japonês Calado porque a toalhinha que o Japonês Calado usa no Pescoço é bordada com ideogramas que acompanham o nome de algum centro cultural ou instituto com a palavra Japan, a mesma que observei na camiseta azul marinho do Japonês de Máscara.  Me lembrei dos dois  e das referências às nacionalidades ou ascendências ao observar a mulher que certamente mede mais de um metro e oitenta no primeiro Press Peitoral à minha esquerda. Pensei chamá-la de Escandinava, apoiando-me em todos os clichês que se referem às pessoas nascidas nos países nórdicos. Não sei a verei de novo num sábado próximo, mas se acontecer, prefiro me referir a ela como  Ex-modelo levando em consideração sua altura, rosto bonito e os clichês de moda e beleza.

Por um momento, enquanto  soltava minhas costas no Lombar, pensei observar todas as pessoas , inclusive eu, fazendo os movimentos errados, nos sentidos e velocidades inadequados sem ninguém para corrigir. Coisa rápida, pensamento veloz que surgiu da constatação de que todas as mulheres e homens presentes eram mais velhos que eu, exceção à Companheira das Plantas e a Ex-modelo.

Da falsa constatação, voltei a me concentrar no treino e ouvir a conversa entre os instrutores , que falavam a respeito de um outlet de roupas fitness.

13/01/2026

O calor pode ser o responsável pelo meu mau desempenho de hoje. Não que tenha sido difícil executar todas as séries, mas senti que precisei de um esforço maior e no Tríceps meus braços tremiam como devem tremer quando são requisitados além do pouco uso no dia a dia. Os músculos pareciam cansados, mesmo assim terminei todas as séries de acordo com as planilhas. Imagino que, na próxima aula, eu já esteja mais adaptada à volta.

Logo que cheguei, o Homem Grandão, sem seu amigo francês, comentou que hoje não tinha espera. De fato, o lugar estava mais vazio e silencioso e atribuo as faltas às viagens de janeiro ou ao calor excessivo, hoje, menos que ontem e seus trinta e dois graus. Depois da chuva à noite, o dia amanheceu nublado e mais fresco, de um jeito que contava fosse continuar também à tarde, mas não aconteceu. Não tivemos trinta e dois, mas vinte e nove também faz suar e cansar. A novidade é o Falso Francês Miúdo mudou de horário. Por isso também o silêncio. As suas conversas com o Homem Grandão tomavam toda a sala, preenchiam os silêncios. E ele foi embora antes que eu descobrisse alguma coisa sobre o a sua categoria de trabalho que demanda telefonemas em horas impróprias. Quem sabe eu o reveja nas ruas. Ele e caminhãozinho fumarento.

15/01/ 2026

Caretas nos exercícios, menos frequentadores, pessoas sortida de outros horários e poucas conhecidas. Novos pesos, chuvas e a TV para nada na parede d fundo, o Flying vazio de alunos, de instrutores e de papéis escondidos. O instrutor com topete grande e tênis que aumentam a altura.

17/01/2026

“Preferia estar lendo”. A frase estava na camiseta da uma das alunas novas. É conhecida e é a primeira vez que a vi por lá. Tenho por ela uma pequena implicância por subjetivamente desmerecer o exercício físico. Na rua,  uma moça com cinco cães e outra camiseta de frase. Três tinham a mesma raça  e dois eram SRDs . “ Eu era normal há três cachorros atrás”, dizia a camiseta.

Volto minhas lembranças para a academia e para a cena em que dois homens do mesmo tamanho, o magro Colega das Calças Jeans e o Japonês Calado executam uma rápida e acidental coreografia na troca de aparelhos próximos. Ocorreu-me que , sem qualquer originalidade, a música poderia ser Assim Falou Zaratustra da trilha de 2001, Uma Odisseia no Espaço.  A intimidade que se adquire com os colegas das duas aulas por semana é diferente da  adquirida aos sábados.

20/01/2026

Quase todos os aparelhos têm cadeiras, o que significa que quase todo esforço  é feito sentado. Lá do Desenvolvimento, mirando o vazio na sala , notei a  a maneira própria como são organizados. Sem a presença barulhenta do FFM , o lugar parece um velório. Escuta-se os plins das anilhas, uma ou outra tosse e as conversas formais entre instrutores e alunos. Eu mesma participei de uma com as explicações sobre o aumento de meus pesos em todos os aparelhos até o final da semana.

Os aparelhos com cadeiras de encosto reto circundam o espaço onde rês fileiras de aparelhos com cadeiras inclinadas ficam alinhados. Tem havido pouca coisa a observar. Um dos instrutores anda calado e triste. Tenho dúvidas se devo perguntar se está tudo bem.

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