Pague 2, leve 1

Joca é o terceiro filho de Edineia. Dos 3, só ele nasceu. O primeiro nem deu tempo de ver, mas o segundo era menina. Chamaria-se Daniela. Porque, pra Simão, Dani era o apelido mais bonito do mundo. Chegue, Dani, se imaginava dizendo. Já Edineia imaginava muitas outras coisas, ela via Daniela grande, toda vestida de polícia. Fechava o olho com a mão na barriga e tava lá direitinho a menina com farda bem passada, no corpo fino, mas forte, queixo pontudo e mãos de criança. Uma versão dela, só que com profissão e cabelo loiro batendo até a cintura. Daniela sentada no sofá, escovando os cabelos e contando do dia no trabalho. Corri até pegar o cabra, mainha, algemei e levei a pé mesmo pra delegacia. Tivesse nascido, seria em 12 de junho de 2016, o dia da prova do penúltimo concurso da polícia civil de Pernambuco. Mas não vingou. Sangrou no sexto mês, Edineia já com barriga de dar dor nas costas. 

Na cabeça de Edineia a delegacia era diferente dessa para onde foi levada depois de escangalhar o Bom Preço. Maior, mais limpa e com um monte de polícia mulher feito Daniela. Mas hoje, fora ela, só tinha homem. Zé Inocêncio, dono do mercado, Caio – que tava na igreja de folga, correu pra assistir o exorcismo e acabou tendo que trabalhar quando pastor Sodré gritou um honre sua farda e prenda essa possuída -, o pastor Sodré, o delegado Orlando e o escrivão. Pelo menos eram os que dava pra ver da cadeira onde mandaram Edineia sentar. Sim, Simão também foi com ela.

Entrou calada, mas não abaixou a cabeça não. Zé Inocêncio não parava de falar, ah, porque as melancias, porque a geladeira, porque os danones. Pastor Sodré, ah, porque o demônio, porque satanás, porque o coisa-ruim e Caio, ah porque eu mesmo de folga, porque eu mesmo de folga, porque eu mesmo de folga. Orlando interrompeu, fazendo que pera só um pouquinho com a mão. 

– E a senhora se chama como?

– Daniela.

– E como foi isso, dona Daniela?

–  Oxe, amor, que doidice é essa? – Simão se meteu – Desculpe, doutor. É Edineia, ela não tá de todo boa não, Maria Edineia Expedito Lopes.

– Pois pronto, dona Edineia, preste atenção aqui, me conte como foi.

– Venderam um Chambinho podre pro meu filho, doutor. O menino foi parar no hospital. 

– O sr. vende comida podre, sr. Inocêncio? – ele se vira para o homem, que arrumando a coluna na cadeira, limpa a garganta com a razão do mundo todo.

– De jeito nenhum. Tava podre não, tava próximo à data de vencimento e inclusive em promoção. 

– Próximo quanto?

– Tinha vencido em 4 de setembro, doutor  – Simão de novo.

Veja, era 3 de novembro. E mais do que isso, era Orlando o delegado. Orlando tinha 10 anos em 94 quando morreu Orlando Fernandes Neto. Ele não o conhecia mas, anos depois, leu no Facebook a história do advogado que passou no Carrefour e comprou latinhas de cerveja e refrigerante para seu barco em Angra dos Reis. Latinhas contaminadas. Morreu de leptospirose do sábado para quarta-feira. A história é falsa, mas a filha do homem (que morreu mesmo de leptospirose, só que em outras circunstâncias), Daniella Sarahyba, foi paixão verdadeira do nosso Orlando por toda a adolescência. Pensar na dor da menina, o fez nutrir um desejo profundo de se tornar advogado pra nunca mais deixar qualquer tipo de injustiça machucar uma criatura linda feito aquela. Sentimento bem diferente do advogado já formado que passou no concurso em 2016 depois de 10 anos tentando. Até então, passar, passar mesmo, só tinha conseguido no exame da ordem. Fez tudo que é prova, sabia lei por lei de cor, mas na hora de responder as questões, a ansiedade vinha feito vento cantarino e levava qualquer estudo pra fora da cabeça do concurseiro. No começo, a mãe e o pai apoiavam, vá no seu tempinho, problema nenhum se demorar. Depois do quinto ano, esse homem barbado comendo, dormindo e lavando roupa sem pagar um Real dentro de casa, começaram as indiretas. Ele ouvia, pedia paciência, lembrava o tamanho do salário, prometia estabilidade e deitava imaginando uma noiva feito Daniella Sarahyba a caminho do altar – do ponto de vista do noivo, claro. Passou. Mas só tomou posse em 2020. Quatro anos de gerência no Carrefour da Agamenon Magalhães em Recife pra pagar aluguel do apartamento completaram o ódio a supermercado que cozinhou desde as latinhas contaminadas de Angra.    

– É, sr. Inocêncio, o senhor querendo, dona Edineia passa a noite por aqui hoje. 

– A noite é pouco, doutor. Só de melancia foi pra mais de R$100. De melancia!

– Sei. Só tem um problema miúdo, ela querendo, o senhor fica junto. Sabe o que diz o artigo 7º da Lei 8.137/90 do código de defesa do consumidor, o sr. Inocêncio?

– Como é, doutor?

– O artigo 7º da Lei 8.137/90 do código de defesa do consumidor diz assim, vê: é crime vender, ter em depósito para vender ou expor à venda ou, de qualquer forma, entregar matéria-prima ou mercadoria, em condições impróprias ao consumo, entendesse? A pena é de detenção, de 2 a 5 anos, 2 a 5 anos, o senhor ouviu? Então assim, aqui eu posso liberar todo mundo pra cada um comer seu cuscuz em casa hoje à noite ainda, ou a gente vai na caneta da lei. Dá pra resolver, dona Edineia já estourou os danones tudo direitinho, né, dona Edineia? Pra ninguém mais passar mal. Veja aí o que vocês querem fazer. A senhora não acha que a gente se sai melhor deixando esse desacordo morar num terreno baldio da cabeça, vaziozinho, sem ninguém se aperrear mais? O Sr. Inocêncio, dá uma revisada pra ver se não sobrou nada velho lá no mercado, manda fazer a faxina dele pra abrir direitinho amanhã, a senhora reza aí uma Ave Maria pra pedir desculpa, se acalmar e pronto. Né não, pastor?

Sodré disse que amém. 

E por amém cada um pegou seus paninhos e voltou pra casa. Na de Simão e Edineia, Joca esperava no canto do sofá com a TV ligada e um sorriso congelado no rosto, o cabelo comprido já no meio do pescoço quase. Quanto mais contente, mais parecido com o pai  o menino ficava. Ria e puxava o olho igualzinho, só que nele a alegria era de verdade. 

Na de Sodré e Amelinha, Joaquim também esperou na TV. Tem o mesmo sorriso de Joca, sorriso de olhinho apertado. Doido que o pastor conte como foi a prisão da possuída. Quer ser polícia, grande, todo vestido de farda bem passada, no corpo forte, queixo quadrado e mãos de homem. Fecha o olho e tá lá direitinho ele sentado no sofá, engraxando a bota enquanto conta do dia no trabalho. Corri até pegar o cabra, mainha, algemei e levei a pé mesmo pra delegacia. 

Joca é o quarto filho de Simão. Dos 4, só ele conheceu o pai. O primeiro foi esse menino, Joaquim, o segundo nem deu tempo de ver, a terceira era menina e chamaria-se Daniela, o quarto é Joca. Porque pra Simão Joca agora é o apelido mais bonito do mundo. Chegue, Joca, se imaginava dizendo quando o bebê ainda nem tinha nascido. Joca chegou em 2018 e Joaquim em 2015. Foi depois do primeiro silêncio de Edineia. Fazia uns 6 meses que tinham instalado os geradores. Ela se animou no começo, negociaram R$1500 de aluguel, ia dar pra comprar as coisas, uma TV boa, botar a vida mais fácil. E deu. A TV deu. Problema é que ninguém ouvia uma palavra, nem da TV nem de coisa nenhuma. Só o zumbido, o zumbido, o zumbido, um avião que nunca decola. Ela marcou médico no Dom Moura, voltou cheia de caixa de remédio. Foi rareando palavra, não comia, não bebia, não abria o olho. Um dia gritou por 14 minutos e depois calou-se de uma vez. 

Cuidar, Simão cuidava. Mas um cuidado de quem também tá tomando vento e zumbido, zumbido, o avião que nunca decola. Um dia, ele já meio sem saber por onde, passou na frente da  Assembleia de Deus e entrou. Conheceu Amelinha, uma congregada cheia de escuta, cheia de abraço, cheia de saia abaixo do joelho, cheia de pose de primeira dama, cheia de deus saindo por tudo que é poro. Pronto, tá explicado Joaquim que nasceu filho de pastor, mesmo que o pastor não pudesse ter filho. O único galego da família. 

No dia do Bom Preço escangalhado, esse povo todinho jantou cuscuz mesmo. Joaquim, Amelinha e Sodré em silêncio porque não tinha muito o que ser contado. Orlando, o escrivão e Caio com queijo e carne, de dieta proteica os 3. Zé Inocêncio engasgado de raiva da possuída, do delegado e do prejuízo. Simão aliviado do livramento da mulher e inocente do filho mais velho que nunca soube que era seu, Edineia com a boca cheia que esqueceu até do fastio e Joca na alegria do mundo todo porque finalmente conseguiu colar Maculoso no pescoço.

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