Depois do êxodo, os trâmites que se seguem à morte de alguém na Seção 7 se simplificaram, sobretudo dos velhos. Quando as famílias se mudaram, muita gente ficou para trás e não soube lidar com a cidade esvaziada. Começaram a surgir mais corpos do que a burocracia podia absorver. O processo foi facilitado e agora era preciso apenas assinar alguns papéis para um sistema automatizado cuidar de tudo. Em três dias, Martim recebeu no celular a certidão de óbito do Rato, atestando sua morte natural, e a escritura do apartamento, que na falta de um testamento foi entregue a ele, seu único herdeiro. Desde então não tinha pensado no que fazer com a casa do Rato. Ninguém comprava imóveis na Seção 7 por um preço razoável. Os vagos estavam condenados a ficar vazios para sempre ou serem ocupados por farrapos. O prédio do Rato era um dos poucos que ainda tinha porteiro, além de nenhum morador farrapo, então talvez ele conseguisse vendê-lo por dez por cento do preço que um dia teve.
Na última semana, vinha se ocupando de assuntos mais graves. Precisava de algo para contar na Homicídios quando o perguntassem sobre o Rato. Pela manhã, inventava histórias que à tarde esquecia. Depois de enterrar os binóculos diante dos muros da Central, tinha feito um estoque de garrafas de conhaque e vinha se servindo dele enquanto assistia a programas aleatórios na televisão. Era melhor assim, os poderes da bebida estavam limitados ao mundo real. Aprendeu que Ana não o visitaria se ficasse longe das esferas vermelhas. Se quisesse ter com fantasmas, podia abrir a pasta dos casos antigos da delegacia e boiar naquele rio fúnebre até adormecer.
Acaba de acordar, às sete horas da noite, com o ronco dos carros na rodovia. Àquela altura já conseguem acelerar o suficiente para fugir dos farrapos que se debruçam nas janelas dos veículos ou para atropelá-los. Respira com dificuldade e demora alguns segundos para perceber a máscara no rosto. Não lembra de tê-la colocado antes de dormir; a prova de que os bêbados, mesmo quando fora de si, são em geral precavidos.
*
A sala do delegado da Homicídios mais parece um corredor, pois é comprida e estreita, como um cômodo que foi, em algum momento, abortado pela planta original. Do fundo desta sala iluminada apenas no centro, onde fica a sua mesa, Otto vem caminhando até Martim com os braços erguidos na altura do tórax e as mãos espalmadas em condolência.
Fico sabendo por Gladys que você tem um pai, diz o delegado. Enquanto caminha, sem pressa, seus contornos vão se perdendo na penumbra instalada no umbral da porta. Atrás da cadeira de Otto, a bandeira do estado divide o facho de luz com um cilindro de oxigênio. Desde que a doença avançou e seus dias passaram a ser contados de forma regressiva, ele aboliu a máscara. Às cinco horas, quando a Central expele a fumaça, o delegado se tranca no banheiro, fecha as janelas e solta a trava do cilindro até sentir a vertigem e ir desmaiando aos poucos. Deixe que lutem entre eles, costuma dizer. Se não vai curá-lo, pelo menos o oxigênio servirá para ficar chapado. Espera recostado na parede do banheiro, entre o vaso e o balde com os produtos de limpeza, até as seis horas, quando Gladys, a secretária, abre a porta e o arrasta até a cadeira da sala. Depois massageia suas costas com as mãos pesadas, apertando seus pulmões, e recita versículos bíblicos ou os inventa, impedindo-o de pensar em qualquer coisa.
Não me traia, diz o delegado, tentando sorrir. O cheiro de sangue seco impregnado nas narinas fica mais forte naquela região, pela proximidade da Central. Mesmo assim Martim sente o odor oleoso da fumaça na barba de Otto. Fazia tanto tempo, diz Martim, que não me lembrava. Otto guarda as mãos nos bolsos do paletó. Fique tranquilo, diz, dos pais não se espera nada. Não mais que um sobrenome. Da recepção vem o barulho do telefone, mas Gladys não está mais lá para atendê-lo. Em alguns segundos tocará na sala dos investigadores, onde Martim ficará sozinho até o início da manhã. É sua deixa. Vira o corpo para continuar caminhando, mas Otto tira novamente as mãos do bolso e as espalma. Minhas condolências, diz. Martim acena com a cabeça. Otto sorri e toma fôlego. Bom, nisso continuamos como nossos ancestrais. Hoje estamos, amanhã não.
*
Do outro lado da linha o guarda do território descreve para Martim uma cena que vem se tornando comum. Farrapos vindos do cais ocupam uma casa num quarteirão paralelo à rodovia. As pessoas se vão e ficam os tetos, e algumas daquelas casas ainda não tiveram a energia nem a água cortada. Os grupos avançam aos poucos da beira-mar para a área central da cidade, pulando muros e forçando janelas e portas. Costumam estar em melhores condições que os farrapos mortos-vivos da Cidade Alta, que só as ocupam quando é preciso apenas entrar. Ali eles vivem bem, têm até vista, costuma dizer o investigador do turno da tarde, de quem Martim nunca aprendeu o nome.
O guarda do território satura o cenário de tédio com sua dicção arrastada. Lê os artigos do protocolo, entre eles o que determina a presença de um policial da Homicídios em flagrantes daquele tipo, e não disfarça as risadas entre um parágrafo e outro. Faz uma espécie de paródia dele mesmo, pronunciando as palavras como as dublagens malfeitas de filmes americanos, e as risadas e os cacarejos dos colegas preenchem o fundo da ligação. Um grupo de suspeitos invadiu a residência e parece ter se envolvido em altas confusões, diz. É preciso ouvi-lo até o final se Martim quiser saber o local da ocorrência. Alguém tomou uma furada e caiu como uma jaca, ele continua. Martim diz: local. Responde que está no quintal de uma casa, no meio do mato. Como tem verde nessa cidade! No fundo o som de vidro quebrado. Claro, estão bebendo, pensa Martim, e depois se justifica: há bêbados e bêbados. Puxa o cantil do bolso da jaqueta e dá um gole. O guarda pigarreia. É a senha para os colegas rirem da próxima frase. Que horas a carruagem vem buscar a princesa? Vou mandar o endereço pelo correio, alguém grita de longe. Martim quer desligar, mas se o fizer mais corpos vão aparecer e ele terá que rodar a cidade na madrugada procurando os rastros deixados pelos guardas. Local, repete, e precisa dizer de novo. Rua São Bento, o guarda diz. Estou fechando as pernas da princesa, câmbio, desligo.
Martim chega dez minutos depois. A casa é um sobrado de três andares com a fachada amarela gasta, o gesso aparente contornando as janelas, como mais um dos prédios do centro em formato de caixa de remédio, mas um prédio que desistiu de crescer além de vinte metros do chão. As duas vans do Grupo Terra estão estacionadas do outro lado da rua, em frente à casa, guardadas por quatro homens corpulentos. O comediante deve ser o que sorri encostado no capô, a barriga pendurada pelo cinto grosso com a estrela preta estampada na fivela. Tatuagens tribais cobrem as laterais da cabeça cindida por um moicano ralo. Não tem mais de trinta anos, deve ter entrado na última leva de guardas no ano passado, quando o êxodo escalou e só ficaram os loucos. Numa das mãos segura um artefato feito de vergalhão, retorcido na forma de uma ferradura, com as pontas afiadas.
Os chuços são a novidade na rotina. Os farrapos extraem o vergalhão enferrujado da carcaça de um contêiner abandonado no cais e o esquentam e o moldam com a destreza dos ferreiros. O comediante ergue o chuço na altura do queixo de Martim. Do lado do estômago furado, diz, devia estar cravado e depois caiu. Tinha visto um assim na semana passada, ainda pendurado na pele escamosa. Ele olha para o guarda sentado no lado do motorista e espera sua concordância, este faz que sim com a cabeça, revelando pela primeira vez o rosto redondo e severo. Não há mais aquele ar de galhofa, agora parecem compenetrados na excursão que se anuncia, na missão que a mera presença de Martim, um policial da Homicídios, veio detonar.
O comediante põe o chuço no capô da van e saca o celular. No visor, um ofício que autoriza a missão ostensiva se materializa. O corpo do farrapo dentro do matagal e o chuço recolhido evidenciam a necessidade. Não há aspecto, expressão particular no rosto de Martim ao pressionar o visor com a digital, autorizando a excursão; talvez alguns trejeitos inventados ao longo das rotinas, o vinco que aparece na contração das sobrancelhas, um horror silencioso debaixo da pele. Pode chegar se quiser, o comediante diz a Martim, vestindo as luvas e a balaclava, a luz distante do poste iluminando seu rosto num corte oblíquo. Os outros o seguem até o portão. Martim atravessa para o outro lado da rua. Do portão entreaberto o comediante olha para Martim com os olhos achatados. Não tem pressa, tem para todo mundo, ele grita enquanto desaparece dentro do mato na direção da porta.
O mato volta a se fechar e os tiros começam. Variam. Com intervalos maiores, de cinco a dez segundos, os disparos onde a precisão é notória, aqueles diante de um alvo por vez. E há as rajadas, ou os disparos separados por no máximo três segundos, mais livres, desinibidos, em grupos num mesmo espaço. Martim aposta que esses são feitos em sua maioria pelo moicano, nos cantos de cada cômodo entulhado de farrapos enrolados em trapos.
Martim encosta no muro, a camisa cola nas costas e ele sente o chapisco pressionar a pele. Um ponto de luz aparece atrás do sobrado, onde uma ladeira íngreme curva na altura do segundo andar. Parece fumar um cigarro, pois seus olhos saltam esmaltados, azuis, brilhando nos flashes da brasa. Abaixo do pescoço cinzento, veste uma farda militar surrada, retalhada na altura do abdome, e um trapo cobrindo a bacia. As pernas escamosas resistem num tremor regular e não se alteram quando os disparos estouram dentro da casa. Como todo farrapo, trata-se de alguém que encara. Este, no entanto, não encara como o nada, ou como fazem os farrapos do centro da cidade, sentados nas calçadas e nos terrenos baldios em meio ao entulho, torcidos na direção da Central. Reúne naquela farda sombras mortas e augúrios. Traje antigo, de anos atrás, quando era comum os militares transitarem naquela parte da cidade, antes da anexação.
Um cheiro de queimado começa a impregnar o ar. Por um instante Martim pensa na Central e suas bocas de ferro expelindo a fumaça preta. Mas é noite. Então ele vê a chama tomar o segundo andar pela janela e explodir o vidro. Sinal de que a excursão tinha se concluído e agora se adianta a limpeza do cenário. De dentro do mato vão saindo os guardas, quatro cabeças deformadas pela luz azul-escura do fogo. No rastro dos primeiros, os dois últimos andam um pouco mais devagar, carregando pelas extremidades um móvel, ou uma caixa imensa, Martim não pode precisar enquanto não passam pelo portão e diante dos seus olhos na rua, iluminados pelas labaredas azuladas, até chegarem à parte traseira da van. Ali acomodam metade de uma mesa de sinuca, onde normalmente amontoam os farrapos recolhidos, e um dos guardas precisa segurá-la com as portas entreabertas enquanto retornam na contramão e desaparecem na metade da rua já tomada pela fumaça do sobrado, e nesse momento, quando há pouco tempo para ver alguma coisa, Martim volta o olhar para o farrapo fardado no alto da ladeira, envolto pelo brilho do fogo. Não é logo que registra a visão, precisa antes fixar os olhos ardidos, precisa ver o farrapo desaparecer engolido pela fumaça e registrar em retrospecto, talvez já dentro do carro fazendo o caminho de volta, atravessando a rodovia margeada pelas carcaças dos contêiners, o objeto que se pendura em volta do pescoço do farrapo, escorrendo pelo tórax: os binóculos do Rato suspensos pelo cordão preto, enterrado há uma semana, olhos de vidro agora abertos na cara cinzenta.
*
Talvez tenha sido o cachorro que o acordou. Ele não sabe. Acorda-se no presente e as razões já não existem. Vê da janela o cão mancar pelo asfalto no sentido da fronteira, mas não o ouve latir. Olha na direção da Central. Na escuridão da madrugada a única forma que se pode distinguir daquela distância são as bocas metálicas saindo de dentro dos muros como cabeças de uma hidra. Abre uma greta da janela e fica um tempo ouvindo o vento assoviar, um sussurro quente ao largo do corpo, uma voz aguda de alienígena. Cada fantasma tem seu jeito de gritar. Alcança as pastas pretas da Homicídios em cima da mesa. As páginas de passados inventados, especulações, corpos ocos na órbita das boias, a dois quilômetros do cais. Depois da Seção 7 a cidade era como uma carta nunca escrita. Ou os olhos cegos do Rato a tinham apagado? Talvez pudesse escrever para ele. Querido Rato, a cidade morreu como você, imóvel e assustada. Pode não ser o melhor começo, mas há piores. Por exemplo: lembro de seu corpo vazio em cima da cama enquanto seu ectoplasma atravessava a beira-mar e desaparecia entre os contêineres. Mas não demoro a esquecer, Rato, sua caminhada diária pelos cantos da casa até a janela da sala. Lança um olhar pelo quarto como se procurasse, quem sabe, uma caneta. Força um sorriso dúbio. Pensa no farrapo fardado, pensa nos binóculos do Rato no rosto cinzento. Estica-se sobre a mesa e puxa a pistola de dentro do coldre. Hesita, arquiteta bravatas que logo desvanecem. Passa as páginas do arquivo sem se deter em nenhuma. O caso mais novo deve ser de uns três anos atrás, antes da segunda fase do êxodo, quando a Central começou a operar e todos os cadáveres passaram a ser de farrapos. Tiras de carne e farelos de ossos nas bocas de uma cidade anônima, solta no tempo. Ergue a pistola e depois a apoia no ombro como um soldadinho de chumbo. Querido Rato: ontem te vi sob um céu de fogo.
