[O NARRADOR É MANOEL MARANHÃO]
“O que é preciso fazer para não abandonar a escrita?”. Esse era o tipo de pergunta recebida nas entrevistas por e-mail, quando eu ainda concedia entrevistas. Eu respondia qualquer merda, claro, porque qualquer tipinho de escritor sabe que esse tipo de pergunta é só pra falsear incentivos a quem pretende, escrevendo, se sentir realizado e outras merdas do tipo. Sentindo-me desfeito e escrevendo agora o quarto livro de Valdemar Matutino (e o supostamente último, como ele me prometeu), porém, percebo o equívoco sustentador da pergunta, de que o difícil é não abandonar a escrita. E me lembro de quão facilmente tentei e consegui abandonar o amor, a identidade, a fé. E me lembro de quão facilmente tentei duas vezes e quase consegui abandonar a vida. A verdadeira e intransponível dificuldade foi abandonar a escrita. E me lembro do que Valdemar Matutino me disse dentro da minha cabeça anos atrás, quando eu ainda tinha cabelo, amor, identidade, fé e escrevia o primeiro romance com nome dele:
“Abandona Aruanda, Manoel”.
Aruanda é o plano espiritual onde moram os orixás e as entidades de Umbanda. Cresci meio umbandista, meio católico, mas apenas me batizei filho de santo quando me mudei para São Paulo e conheci o terreiro da mãe Márcia. Minha mãe de sangue era católica. A mãe dela, minha avó, foi me criou sozinha e era rezadeira, católica e me cantava pontos de Umbanda aprendidos no Ceará. Quando eu nasci e minha avó se mudou pro Rio pra ajudar minha a mãe a me criar, ela fingiu abandonar seu ofício de rezadeira, pois morávamos numa rua de crentes evangélicos. Aos cinco anos, por aí, minha mãe me abandonou. Os vizinhos disseram que ela estava endemoniada. Minha vó disse que não: minha mãe só tinha perdido sua luz, mas a minha era muita e muito bonita. Ela me disse que a minha luz nunca ia se apagar. Minha avó ficou do meu lado até o fim, mas, na minha raiva adolescente, senti que sua morte também era um abandono. Já meu pai não chegou a me abandonar, só nunca me conheceu.
Quando conheci o terreiro da mãe Márcia, portanto, eu estava quase certo de que Deus sequer tinha me abandonado. E encontrei gente que me acolheu: os orixás, as entidades e, claro, gente de carne e osso. Mãe Márcia, zeladora de santo da casa, parda marrom escuro de cabelo crespo em coque envolto no pano de cabeça; mãe Marcinha, a mãe pequena da casa, branca rosa de cabelo loiro escuro na raiz e loiro descolorido nas pontas, os irmãos de santo de cores e cara variantes entre as duas mães e, por último e mais importante, meu amor de madeira e couro. O atabaque era minha pessoa favorita do terreiro. Comecei a tocar e a cantar os pontos como se já soubesse desde sempre. Olhava pra uma pessoa e me vinha um ponto na cabeça, eu cantava e a entidade da pessoa baixava. Eu sentia como uma iluminação pelos ouvidos. Mesmo vendo gente de carne e osso incorporando gente de espírito, ou seja, as entidades, à minha fé não bastava o ver para crer. Se eu apenas visse, não sei se acreditaria. Eu acreditava porque ouvia os pontos dentro da minha cabeça e porque ouvia o som das minhas mãos no couro do atabaque e o som da minha voz, ao cantar os pontos, fazerem soar os brados dos caboclos, os sermões dos pretos velhos, os gritos das ibeijadas e as gargalhadas dos exus e pombogiras. Eu era ouvir para crer.
Cerca de um ano como ogã da casa, apareceu Júlio César. Um menino pardo e gordinho, de dez anos de idade, sobrinho da mãe Márcia. A irmã dela e mãe do menino rompeu com mãe Márcia quando se converteu e ficou distante até morrer. Júlio César tinha sido criado crente evangélico e era cego. Ficava trancado no quarto durante as giras, ouvi o batuque do atabaque, os pontos, os sons das entidades e tinha medo. Quando finalmente aceitou descer as escadas para a parte da casa de mãe Márcia onde funcionava o terreiro, enxergou as entidades. Dizia ver direitinho os caboclos, os pretos velhos e as ibeijadas, só não via os exus e as pombogiras porque mãe Márcia o proibia de descer ao terreiro quando eles subiam ao terreiro. E descrevia todas as entidades como a gente as imaginava, mais idênticas do que suas imagens de gesso espalhadas pelo congá. A cabocla Jandira, entidade-chefe da casa, o chamava de Lume. Depois de um ano morando com mãe Márcia, Júlio César se batizou na Umbanda e virou crente macumbeiro. A fé dele era ver para crer.
Ele reclamava do atabaque, dizia que machucava os ouvidos. Dizia que não gostava do nome macumbeiro, porque macumba era um outro nome pra atabaque, bom mesmo seria dizer canteiro, porque amava dos pontos cantados. Apesar do meu amor pelo atabaque, ele gostava de mim e eu gostava dele. Seguia cego como sempre, estudando em uma escola pública sem estrutura pra inclusão, sem máquina Perkins, sem livros em braile. E seguia vendo todas as entidades. Quando Valdemar Matutino falou comigo pela primeira vez dentro da minha cabeça, depois que tentei escurecer minha vida misturando uma garrafa de Velho Barreiro com cartelas de tarja preta, passei uns meses fora do terreiro. Voltei e, antes de encostar no atabaque, Júlio César disse ver uma sombra sobre minha cabeça. Perguntei qual era a cor da sombra e ele, mesmo sem enxergar cores, disse que não tinha cor nenhuma.
“É uma sombra sem luz”, ele disse me cravando o branco de seus olhos todo brancos.
Quanto mais Valdemar Matutino falava dentro da minha cabeça, mais eu abandonava as coisas que não me abandonavam. Fui me afastando de Sara, da leitura, do terreiro. E me agarrei em escrever “Na berma do breu”, o primeiro romance que eu publicaria sob o nome da voz que falava dentro da minha cabeça. Trancado no quarto imundo da república em que morava, escrevendo feito doido o livro que me iluminaria para os olhos da literatura, ouvi o telefone tocar. Era mãe Márcia. Tinham conseguido uma doação de máquina Perkins em uma ONG na Praça da República, mas era preciso levar o menino para retirar a máquina. Mãe Márcia não podia ir, ia jogar os búzios pra uma rica que pagava por um jogo o bastante pra sustentar o terreiro e o menino por um mês. Eu disse que estava ocupado e ia tentar ajudar, mas não dei certeza. Desliguei o telefone e Valdemar Matutino falou dentro da minha cabeça:
“Abandona Aruanda, Manoel”.
Quis mandá-lo à merda, quis tirá-lo de dentro da minha cabeça, mas também queria terminar o romance. Também queria ser lido, ser querido e respeitado enquanto escritor, mesmo sob o nome de uma voz dentro da minha cabeça. Vi a imagem de Seu Tranca-Ruas me olhando da cabeceira da minha cama e não sustentei o olhar. Fechei os olhos e ouvi dentro da minha cabeça a minha própria voz:
Refletiu a luz divina
Com todo seu esplendor
Vem do reino de Oxalá
Onde há paz e amor
Na minha cabeça, a certeza de que iria abandonar o amor, a identidade, a fé. A paz eu já tinha abandonado há tempos, ou ela a mim – o que já tanto fazia. Eu iria abandonar Sara, mãe Márcia, Júlio César, o atabaque e as entidades. Eu ia abandonar ainda mais do que fui abandonado. Abri os olhos e ouvi:
Luz que refletiu na terra
Luz que refletiu no mar
Luz que veio de Aruanda
Para tudo iluminar
Abri os olhos, ouvi mais esse pedaço do Hino da Umbanda e me lembrei que foi composto por João Manuel Alves, um português cego. Dizem que ele recebeu a música toda, com letra e melodia, de um sonho com o caboclo Sete Encruzilhadas. Mais que ver o português enxergando a entidade, eu o imaginei ouvindo o hino pela primeira vez. Eu não sabia se queria ouvir o resto do hino naquele momento. Assim como sabia que não queria ouvir a voz de Valdemar Matutino, dentro da minha cabeça, falando em tom de quem-avisa-mas-amigo-não-é:
“Abandona Aruanda, Manoel”.
Eu quis mandá-lo à merda, deletar o arquivo do livro, abandonar esse delírio de lugar ao sol na literatura, matar essa voz dentro da minha cabeça. Tive coragem o bastante só pra calar Valdemar Matutino ao cantar bem alto dentro e fora da minha cabeça:
A Umbanda é paz e amor
É um mundo cheio de luz
É a força que nos dá vida
E a grandeza nos conduz
Avante, filhos de fé
Como a nossa lei não há
Levando ao mundo inteiro
A bandeira de Oxalá
Cantei de olhos abertos, pra não dar bandeira do medo que eu tinha de Valdemar Matutino, do medo que eu tinha da minha própria pequenez. E, principalmente, do medo que eu tinha de escolher entre abandonar meus desejos e abandonar a mim mesmo. Fechei o computador e fui buscar Júlio César pra buscarmos a máquina pra ele poder escrever.
