Pesos leves ( meus semelhantes 9)

22/01/2026

Quando retirei a anilha de cinco quilos com uma mão e encaixei de primeira no suporte, lembrei do saco de açúcar que minha mãe comprava todo mês.  Com esse mesmo peso, era de papel e eu, criança, o carregava com os dois braços o pacote mais pesado do mundo.

  A embalagem se abria puxando a ponta de um barbante costurado a um papel crepom grosso. Em segundos, os pontos se desmanchavam e o cheiro do açúcar refinado escapava pela boca de papel aberta. A diversão durava segundos e só se repetia no próximo saco da próxima compra do mês. Um tempo sem pressa.  O papel da embalagem, aos poucos,  foi substituído pelo plástico, certamente mais barato. Em casa, hoje, um saco de um quilo chega a empedrar no armário. Um tanto por morar sozinha e outro tanto pela diminuição do açúcar na minha vida. O pacote empedrado, num canto da prateleira, espera uns bolos e doces eventuais. O café, já não adoço desde os meus vinte anos. O bom tem que ser amargo. Os adoçados não parecem café. Com os  sucos, é a mesma coisa.

 Retirar a anilha de cinco quilos com uma mão e encaixar de primeira no suporte foi tão fácil como carregar uma sacolinha de pano retornável. O esforço da infância ficou longe e repetir o movimento com o peso de dez quilos, mesmo precisando das duas mãos para encaixar no suporte, aumentou a satisfação. A lembrança do saco de açúcar, no entanto, se misturou à dúvida de até quando terei essa facilidade. Na Gêmeos ao lado, reparo nos pés do Colega de Jeans, que mal se flexionam.  Ele, suponho, é pouco mais velho que eu. 

  Um tanto de herança genética somado a uma vida pouco sedentária  podem contribuir para que eu ainda consiga evitar a lentidão nos movimentos, a fraqueza nos músculos e a tendência às quedas. Se um dia tiver netos, espero ter força para segurá-los no colo ou erguê-los do chão.  

No caminho de volta, observei melhor o homem que neste meu horário descansa na varanda junto a um cuidador. Ele é tão cinza quanto a pintura da casa e parece mais novo que alguns frequentadores da academia. Imagino, que por alguma demência, não pode se submeter ao esforço dos seus outros semelhantes. Se o problema é memória, fica difícil lidar. Segui pensando  no quanto, o acúmulo de experiências, diferentes estilos de vida e alimentação fazem pessoas velhas de mesma idade envelhecerem diferente.

Aos poucos, a academia vai voltando ao movimento de sempre e depois do Carnaval ela engrena de vez. O instrutor Pablo estava hoje menos calado. Os bigodes e os óculos lhe dão uma aparência moderna antiga ou antiga moderna como se parecem ,hoje em dia, alguns homens de trinta anos.

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