Final feliz – Yan

A traição é uma faca de dois gumes

No ano de 1909, Euclides da Cunha tomou chifre. Daqueles de boi franqueiro. Na verdade, já tomava há um bom tempo — galhada de respeito não nasce da noite pro dia. Sua mulher, Anna da Cunha, papava o anjinho Dilermando de Assis, 16 anos mais novo. Cadete tetéu do exército, cheio de gás, Didi, pros íntimos, fez dois filhos em Anna ainda casada. E Euclides registrou.  Nosso São José dos trópicos, amém-louvado-seja. Se tivesse morrido em Canudos não passava por isso.

O pai no papel chegou de uma viagem de 13 meses na Amazônia, lembrou que ele e a mulher tinham cabelo preto, deu torcicolo no pescoço pelo sobrepeso. Ou seja, havia algo de cheiroso no reino da Cornualha bem antes, porque os meninos já estavam grandinhos e de cabeleira loira. No ano de 1909, Euclides apenas descobriu. Resolveu um revólver com um amigo de bem, que só emprestou porque era pra lavar a honra. E se arrancou pro bairro da Piedade, cheio de honra suja e perfume na lapela, almofadinha que era.

Foi armado e cabreiro, claro, porque o outro era durão e gaúcho. E o gaúcho também, antes de tudo, é um forte. Euclides nasceu no estado do Rio de Janeiro e passou boa parte da vida adulta em São Paulo. Ele encontrou o Dilermandão desbravando os pampas e os cerrados de sua mulher e lhe meteu um tiro nas costas. O fluminense e o paulista, depois de muita coisa, podem ser frouxos, mas não são trouxas. Dilermando morreu na hora, naquele covil na Piedade, depois de mais dois tiros nas costas (pra garantir uma honra limpinha).

Euclides morreu bem depois, aos 69 anos, de um resfriado. Teve tempo de publicar mais 5 volumes de Os Sertões e pesar ainda mais as cabeças de gerações de estudantes. Pra nós, leitores, esse não foi um final feliz.

A flor valente da China

Por volta do século V D.C., a dinastia Wei do Norte foi ameaçada de invasão pelos Juan-Juan da Mongólia. Recrutadores imperiais passaram pente fino nas aldeias pra engrossar as tropas: cada família deveria enviar um soldado. Hua Hu, porém, estava velho e quebrado, mal conseguia debulhar arroz e só tinha uma filha. No meio da noite, Hua Mulan (Flor Magnólia, em tradução literal) roubou o cavalo e a armadura do pai. Ela partiu com seu chassi de grilo, um grilo da sorte e Mushu, um espírito ancestral protetor da família na forma de um dragãozinho.

E Mulan não comeu mosca. Foi um soldado muito aguerrido, quase uma Paraíba masculina. Arrochada mesmo na armadura frouxa. Matou uma ruma de mongóis, fazia de tudo — só não mostrava o pau (Mushu lembrava uma cobra, talvez por isso a confusão). Até que um dia descobriram que ela era mulher. Aí, acabou o arroz e acabou o frango xadrez. Agradeceram, a chamaram de flor vanlente da China, deram uma medalha e a mandaram pra casa pra enterrar o pai e lavar a pia cheia de cumbuca e palitinho.

Jin Yong, seu comandante de regimento, foi até sua casa jurando paixão. O tesão já existia no campo de batalha, mas com ela usando saia ficava mais fácil. Falou em casamento e o escambau. Mas acontece que Mushu, por ter conseguido trazer a moça de volta em segurança, foi transformado pelos ancestrais de dragãozinho em dragãozão com poderes mágicos. Ele podia atender a um desejo — quase um Sheng Long de Dragon Ball. E Mulan não pisou na bola: desejou uma piroca. Voltou pro exército, virou general e mandou Jin Yong enfiar o galho dentro. Antes de morrer pela flecha de um mongol, ela disse essas sábias palavras:

“Pega na minha flor e balança”.

No fim das contas, a civilização

No dia 21/11/1910, Marcelino Rodrigues Menezes desceu escondido por uma escada de corda do encouraçado Minas Geraes e voltou no final da tarde, trançando as pernas. Trouxe escondido sob a camisa do brancão uma garrafa de branquinha. Foi apanhado e, sabendo que lhe tomariam a bebida e a tomariam sem ele, quebrou a garrafa e cortou a mão de um cabo de esquadra. Os oficiais da Marinha Brasileira não eram selvagens e, no espírito do Século das Luzes, usavam nas punições físicas aos marinheiros o número máximo de 25 chibatadas. Naquela noite, porém, provavelmente faltou no navio querosene, azeite e óleo de baleia. As costas de Marcelino receberam 250 chibatadas.

À alvorada, estourou a Revolta. O encouraçado Minas Geraes foi tomado pelos marinheiros e, em seguida, também o São Paulo, o Bahia e ainda o cruzador Deodoro. Todas as embarcações de guerra da baía de Guanabara apontavam seus canhões pra cidade. O marinheiro João Cândido, chamado pela imprensa de Almirante Negro, foi negociar a rendição em terra firme. Oficiais, políticos e outros homens importantes sem cheiro de peixe e com merda embaixo do nariz prometeram o fim dos castigos físicos e anistia pra todos os revoltosos.

Manoel Gregório do Nascimento, no comando do encouraçado São Paulo, por sua vez, não acreditava em almirantes de nenhuma cor. Horas antes da rendição, comeu o rancho vencido e foi tirar a sesta. Sonhou com o documento entregue pelos oficiais se enrolando e virando uma grande chibata, depois uma cobra maior ainda, que mordia e matava João Cândido. Ao acordar, ele vomitou o rancho nas águas limpas da Guanabara e mandou abrir fogo. A primeira bala de canhão acertou o Quartel General da Marinha na Praça Mauá. A segunda, o Palácio do Catete. E seguiu o toma-lhe chumbo. Ao ser indagado quando parariam, respondeu:

“Só 25 tiros, companheiro, porque não somos selvagens”.

Deus desce do muro

Em 6 de setembro de 2018, Adélio Bispo de Oliveira enfiou uma faca na barriga de Jair Bolsonaro durante um comício em Juiz de Fora. Bolsonaro morreu todo cagado no 7 de setembro de 2018.

Se isso não é um final feliz, eu não sei o que é.

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