Como foi o seu dia?

“Não é que tenhamos pouco tempo para viver,
mas sim que desperdiçamos muito dele.”

Sêneca

            Minha vida passou rápido demais.

            Nem sempre foi assim, claro. Quando era pequena, um dia, um único dia, durava um tempão. Cabia uma vida inteira nele, sabe? Os meses passavam como um carrinho subindo os primeiros metros de uma montanha-russa. Tec-tec-tec… É por isso que naquela época tanta coisa mudava de um ano para o outro. Com 11, eu era uma menina, com 12, uma mulher. Aos 15, a melhor aluna da escola, e já sabia pra onde aqueles trilhos iriam me levar: advogada de sucesso, juíza da Suprema Corte, mãe respeitada. Até os 20, 20 e poucos anos, cada dia é preenchido pela expectativa de que algo incrível vai acontecer. Aí algo incrível acontece: você envelhece. Vertiginosamente. O maldito carrinho da montanha-russa mergulhando ladeira abaixo. O roteiro que você imaginou é encenado em alta velocidade, todo fora de ordem e com muitas páginas faltando. Casei, tive dois filhos e virei… corretora de imóveis. As crianças não são mais crianças, estão quase na faculdade, e no ano que vem eu faço 40 anos. Todo mundo sabe que depois dos 40, o negócio descarrilha de vez, ainda mais para uma mulher. O fim da linha chegando, e rápido demais.

            Já essa noite demorou demais para passar.

            Fiquei pensando em tudo isso e não pregava os olhos. Lá pelas quatro e meia, desci para tomar uma dose de vermute. Tomei duas. Voltei pra cama, Tom roncava feito o Audi dele. Quando consegui relaxar, o despertador tocou. Desci de novo, preparei o café de todo mundo, voltei de novo, me troquei, congelei a franja com laquê e bati na porta das crianças. Jennie já estava pronta, mas Ferris não respondeu. Estava doente.


***

            Depois de muita insistência, consegui fazer Tom largar o jornal e me encontrar no quarto do garoto. Contei pra ele que Ferris não tinha febre, mas reclamava de dor e não enxergava direito. As mãos estavam frias e suadas. Não deveria ir para a escola hoje. Tom concordou. Já Jennie se irritou, gritou que o irmão estava mentindo e que queria mudar de família. Mandei-a para o carro. Odeio ver o quanto ela é igual a mim.

            É claro que Ferris estava mentindo. Jennie acha que eu não sei que ele lambe a mão para ficar com aquelas mãos molhadas? Que nojo… É a nona vez neste semestre que ele finge estar com alguma coisa para faltar, e essa, de longe, foi sua pior interpretação. Mas eu não consigo falar “não” para ele. Não agora, enquanto ele ainda está subindo a montanha-russa. E hoje realmente estava um dia lindo demais para ficar enfurnado na sala de aula.  

            Quase 30º no centro da cidade. Cheguei atrasada e suada no escritório. Meu chefe veio falar sobre umas casas que eu teria que mostrar para aquele pessoal de Vermont. Bill é um viúvo viscoso que vive querendo me levar para a cama. Hoje não foi diferente. “Depois do almoço eu poderia te mostrar a minha casa”, ele disse, com aquele sorrisinho ridículo. Tentei imaginar o George Michael ou o Rob Lowe falando aquilo, mas não deu certo. Fui salva pela secretária, Rose, que disse o supervisor da escola estava no telefone. Merda, esqueci de avisar.

            O idiota do Ed Rooney falou que Ferris “não estava levando seu crescimento acadêmico muito seriamente”. Ameaçou não deixar meu filho se formar, afinal era a nona vez nesse semestre que ele estava “matando aula por aí”. Respondi com a firmeza de uma mãe respeitável, garantindo que ele estava em casa, na cama.

            – Sr. Rooney, ele é um menino muito doente.

***

            Hoje Ferris está longe de ser “muito doente”, mas seu primeiro dia de vida quase foi o último. Logo que ele saiu da minha barriga, estranhei a cara preocupada do médico, o corre-corre das enfermeiras. “Não vão trazer o bebê de volta?”, eu pensei. Depois de um tempo e sem nenhum tato, o médico disse que o menino não conseguia respirar direito e os rins não pareciam funcionar. Não tinham muito tempo, mas se no fim daquele dia ele reagisse, tinha uma chance. Completou:

            – A gente vai fazer de tudo para salvar Ferris.

            Nenhum dia foi mais longo que aquele. Naquela época eu já tinha largado a faculdade. Pensava que se eu não podia ser a melhor advogada da América, seria então a melhor mãe. Deitada na cama, sozinha – Tom tinha voltado para a agência para resolver um problema qualquer em uma campanha -, eu via até o meu plano B naufragar.

             No dia seguinte, Ferris acordou calmo, forte, curado. E com um sorriso que conquistou todas as enfermeiras.

***

            Mostrei duas das casas mais bonitas de Chicago para a família de Vermont. Não gostaram de nada. Eram grosseiros, ignorantes. Jogavam bitucas de cigarro pela janela, ameaçando tocar fogo no quarteirão inteiro.

            No caminho da terceira casa, parei na minha. Queria ver Ferris. Deixei a família no carro e entrei. Subi as escadas na ponta dos pés, abri a porta com cuidado. Ouvi um ronco alto. Embaixo das cobertas, um manequim minuciosamente colocado para me enganar. Esse garoto não vale nada. É capaz de convencer todo mundo a fazer o que ele quer.

            – Que Deus abençoe o meu filhinho.

Os porcos de Vermont não gostaram da terceira casa. À tarde, veríamos outras. Mas antes, enquanto eu comia um hambúrguer no carro, eles iriam almoçar num daqueles restaurantes chiques que o Tom gosta, o Chez Luis.

***

            Tom, Tom. Batendo as migalhas de pão de hambúrguer do tapetinho do carro, eu me perguntava: o que foi que eu vi nele, mesmo? Foi o meu primeiro namorado. Rico. Acho que ele nunca teve problema nenhum na vida. A casa enorme que a gente mora, foram os pais dele que deram. A agência de propaganda dele, também. É um bom profissional. Um pai amoroso. Ainda não tinha resposta para a minha pergunta. O tapetinho estava limpo.

***

            O sol ainda estava torrando enquanto esperava meus clientes na porta de outra casa. Meia hora, uma hora. Onde eles foram? Uma Ferrari conversível passa voando na frente da casa com dois malucos gritando dentro, como se fossem duas crianças se divertindo em um parque de diversões.

            Uma hora e meia esperando. Desisto. Então Bill estaciona com seu carro horroroso em frente à casa. Conta que aqueles caipiras resolveram ir ver um jogo de beisebol, Chicago Cubs contra Atlanta Braves, e outro dia eles continuam a procura. Lógico que ele completou: “Não quer aproveitar para ver a minha casa?”.

            Olhei para a cara dele. Respirei fundo. Certamente não era o George Michael ou o Rob Lowe. Lembrei da noite sem dormir, de todas as minhas dúvidas, de como minha vida escapava rapidamente a cada dia.

                  – Vamos lá.

            Parei meu carro atrás do dele. A casa era enorme, mas com um estilo tão equivocado quanto o do dono. Lá dentro, Bill perguntou se eu queria um suco, pedi um uísque. Ele sorriu e tomamos alguns copos juntos. Ele se aproximou, começou a beijar meu pescoço. Normalmente seria algo repugnante, mas não falei nada. Será que foi o uísque? Ele tirou a minha blusa, e eu falei para ele não desmanchar o meu cabelo. Eu já estava seriamente comprometida com a ideia de transar com meu chefe quando tocou o telefone. Uma, duas, dez vezes. Perguntei se ele não iria atender. Não, deixa tocar. Só que o telefone seguiu tocando. Irritado, ele foi até o aparelho na sala. Era Mary dizendo que a polícia queria falar comigo. A Jenny estava na delegacia.

            Visto a blusa correndo, novamente lúcida, novamente morrendo de asco por aquele homem. Pergunto como a secretária sabia que eu estava ali. Ele responde, ainda tonto, com o sorrisinho de volta:

            – Faz dois anos eu falo pra todo mundo na empresa que a gente está transando.

            Demorei quase uma hora para chegar na delegacia. Ouvi no rádio que a cidade estava parada por causa de algum desfile ou parada. No caminho, me surpreendo sentindo uma ponta de admiração por Jenny. Eu nunca fui para a delegacia, muito menos com a idade dela. O delegado me contou que ela tinha ligado para a polícia dizendo que havia um invasor em casa. Como não encontraram ninguém lá, acharam que era um trote e a levaram para prestar depoimento. Só queriam assustá-la, parece. Além do mais, o delegado estava mais preocupado em mandar melhoras para o Ferris: “O pessoal todo aqui está torcendo por ele!”. Na saída, vi a Jenny aos beijos com um traficantezinho bonitão. A admiração cresceu mais um pouco, mas eu só queria que esse dia acabasse.

            – Vamos embora, agora!

            Chegando em casa, encontrei com Tom na porta. Contei o que Jenny fez, e ele disse que vai ter uma boa conversa com ela, “depois de resolver umas coisas do trabalho”. Nós dois sabemos que ele não vai falar nada. Fomos até o quarto de Ferris. Agora era ele, e não o manequim, embaixo das cobertas. Ainda fingia estar doente, mas jurou que queria muito ir para escola no dia seguinte. Sorri para ele:

            – Como você pode ser tão doce?

            Agora vou fazer uma sopa bem quentinha para ele, dar um sermão e um castigo para a Jennie e depois fingir que estou interessada nas campanhas geniais da agência de merda do Tom.

            Deus, eu preciso muito pedir um day off no escritório.

Katie Bueller

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