Laços



Tem momentos na vida de uma pessoa em que não há para onde correr. Esse é o sentimento que me assalta sempre que me vejo incumbido da tarefa de comprar um presente. Uma ironia e tanto para quem vive do consumo alheio.

Adio o quanto posso. A ponto de já ter entrado numa loja e dar meia-volta para só retornar no dia seguinte e encerrar o assunto. Deve haver alguma fobia desse tipo catalogada. Se bem que um fóbico, é provável, sinta a mesma angústia ao comprar qualquer item – o que não é o meu caso. Eis o ponto que me diferencia também do muquirana. Minha aflição não é comprar, é presentear. E a coisa fica feia mesmo quando trata-se de um presente para minha senhora. Imagino que seja compreensível a pressão de acertar depois de quase duas décadas com um índice de aproveitamento duvidoso.

No último ano, depois do feito heróico de escolher algo significativo o suficiente, informei à vendedora a finalidade. Ela, então, me encaminhou a um canto da loja onde ficava o embalador. O rapaz pegou a caixinha, passou uma fita por cada um dos seus quatro lados e atou as pontas com muita destreza. Em alguns segundos, um produto – até então igualzinho a todos os outros milhares que passaram pela mesma esteira na linha de montagem – se transformou no meu presente de aniversário de casamento. Não havia caixa ou embrulho com papel especial. Apenas um laço. Uma firula que em si não tem muito valor. Se, por acaso, os gregos tivessem colocado um laço no cavalo, o final da história não mudaria. Laço bom não salva presente ruim. Mas ainda assim é um detalhe cheio de magia.

Após pagar, fiquei mais alguns minutos ali observando a mágica acontecer sobre o balcão. Produtos serializados (bum!) transformados em presentes. E bastava só um laço. Nunca havia reparado como a arte de atar duas pontas podia ser tão significativa e diversa: laços simples, laços elaborados, laços duplos, laços triplos, lacinhos, lações. Assim como aqueles que nos ligam.

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