Elefante de espelhinhos

24/01

Hoje é sábado. Primeira vez que vejo alguém tomar banho na academia. Sempre que entro no banheiro, os dois boxes, um na frente do outro, estão secos do mesmo jeito que o piso de cerâmica diante dos armários e do banco de travessas. Não vi propriamente o banho, só a moça enrolada numa toalha amarela diante do espelho da pia. Nos cabelos, outra toalha da mesma cor torcida e presa na nuca.

Entrei para fazer xixi, fechei a porta do gabinete e quando saí a moça estava nos mesmos trajes e escovando os dentes. Parecia não ter notado a minha presença de forma que depois de cuspir a espuma e enxaguar a boca ficou diante da pia um tempo que julguei suficiente antes de pedir licença e lavar minhas mãos na única pia do banheiro. Ela foi solicita e talvez não tivesse mesmo me visto.

 Como já contei, os sábados misturam pessoas diferentes e de diferentes horários.  Tinha observado a Moça do Banho e o Namorado Nerd durante o treino. Uns trinta e alguns anos e um aparente gosto por RPG. A estampa Cards of Paradise do moço me sugeriu essa ideia. A da Moça do Banho dizia “You know you love me”, como se a frase esticada nos peitos grandes exibisse algum poder de adivinhar pensamentos, mas que a assinatura XOXO sugeria ser a citação de uma carta de um filme ou romance. Em tempos de aplicativos de mensagem esta forma de despedida, ficou perdida no tempo dos e-mails.

Saí do banheiro e me sentei na pequena ante sala onde ficam os aparelhos de pressão.  O Namorado Nerd aguardava a Moça do Banho. Ele nem notou que eu fazia anotações num caderninho.  Suponho que o vestido de crepe chifon azul no suporte para cabides era da namorada e que ela usava o banheiro da academia para se preparar para um casamento matinal sabatino numa chácara, praça pública ou casarão adaptado para eventos. O Namorado Nerd, com fones de ouvido,  esticava as pernas curtas e ria de um vídeo no celular. Com a tela na frente, imagino que poderia passar a o resto da manhã e mais um tanto da tarde aguardando a namorada se arrumar. Ele seria também um convidado? Queria ver a Moça do Banho já pronta, mas saí para seguir meu roteiro de sábado , fazer as compras na banquinha de orgânicos onde não encontro ninguém da academia, mas poderia passar umas horas observando os mais diversos consumidores de produtos vindo diretos do pequeno produtor. Roteiro de sábado soa como chamada de post no Instagram.

27/01

                Hoje, pela segunda vez, a Moça da Camiseta de Kombi usa a ante sala, aquela dos aparelhos de pressão, para fazer anotações num caderninho amarelo. Da próxima vez, se não estiver em cima da hora, vou me sentar ao seu lado e tentar ler. Óculos multifocais são muito bons nesta hora. Sempre na cara,  disfarçam os descaramento de espionar a leitura ou escrita alheia. Os convencionais óculos de leitura exigem um tira e põe impossível de esconder.

                Os professores aumentaram a minha carga em quase todos os aparelhos.  Doze quilos e meio divididos na Rosca Lateral  são como um dinossauro em cada braço. A concentração no treino mais pesado é tanta que nada na sala cheia me desperta atenção. Nem As Gêmeas presentes, nem a TV ligada, nem a Alfa FM, num inesperado fundo musical.

                Na entrada, antes do treino cerca de vinte troféus de acrílico descansavam num canto do balcão dos escaninhos.

29/01

No mesmo canto do balcão dos escaninhos, hoje havia menos troféus. Descobri que seriam entregues às pessoas cujos nomes estavam na folha de papel impressa ao lado dos prêmios.  Passei os olhos nos nomes  e entendi que de cinco a vinte,  os números estampados no acrílico correspondiam aos anos de academia dos premiados. 

05/02

Os troféus sumiram. Suponho que todos os frequentadores de muito tempo tenham sido devidamente premiados.

Hoje pensei em roubar na contagem. Nunca roubei na contagem. Posso ter errado, esquecido, repetido, mas nunca de maneira intencional. Hoje pensei em roubar na contagem, e roubar neste caso é sempre contar menos.  Contar a mais , isso eu faço sempre. No Trícepes Lateral já incorporei, por minha conta, uma nova medida. Na série de três, faço dezoito , quinze e quinze. O músculo do tchau precisa de um reforço que pretendo também fazer em casa. Soube que há uma cirurgia plástica, que sem esforço, consegue deixar essa parte do braço durinha.  Só mesmo uma curiosidade. Não tenho interesse em plásticas.

Gostaria de conseguir reproduzir as onomatopeias para esforço, mas não sei se consigo. Não sei se o que me chama mais atenção são os ruídos do Professor Grandão ou a corrente larga, tão larga quanto os colares dos rappers que a Colega Chique usa para pendurar os óculos. Se a largura é a mesma, o material difere. A dela não é dourada e reluzente como as dos criadores de criadores de ritmo e poesia, os elos grandes são de um plástico duro e colorido, bem contrastante com as comportadas correntinhas douradas ou os cordões de nylon , brindes das óticas aos idosos. Deve ser a primeira vez que me refiro à Colega Chique.

 De novo, tivemos um fundo musical. Dessa vez, a Alfa FM foi trocada pela Rádio Antena 1. Na TV, uma perdida série infanto-juvenil da Nickelodeon. Duas  pré-adolescentes brancas de cabelo liso numa cozinha de apartamento procurando um objeto perdido dentro do sifão da pia.

07/02

Cheguei dez minutos atrasada e não quero mais repetir o feito que já vivenciei num outro sábado, o dia meio fora da rotina de treinos. Ao procurar nos escaninhos um lugar para a mochila, me dou conta da academia lotada. Quase todos os quadradinhos de madeira estavam preenchidos e só encontrei espaço na fileira mais baixa do móvel, aquela que os mais idosos evitam por preguiça, dor ou medo de se agachar. Sem medo, preguiça ou dor deixei a mochila no ultimo vão da direita e me virei para a sala para confirmar que todos os aparelhos estavam ocupados. Enquanto esperava, escolhi olhar para as fileiras de aparelhos como linhas de montagem. Os semelhantes eram operários especializados em  empurrar, puxar, levantar ferros calados e concentrados. Pensei num filme mudo, num Tempos Modernos mais contemporâneo com a trilha acelerada ( ou lenta?) dos metais batendo. Uma espécie de bateria só com pratos.

Foi coisa rápida. A ideia se apagou quando, de longe, vi o Remada disponível e corri para o fundo da sala. De lá, revi de outro ângulo, a mesma cena dos aparelhos ocupados. Ao subir meus braços e juntar as escápulas, vi quando a Colega Chique chegou com glitter cor de rosa nas bochechas. Era um sábado de pré-carnaval. Busquei novas maquiagens e alguma fantasia, mas só ela brilhava. Ela e seus óculos grandes pendurados pela corrente grossa no pescoço. Enquanto buscava seu aparelho, explicava que estava maquiada por conta da nora, muito animada para festas. O filho nem tanto, ela completava.

A Colega Chique não fazia ideia onde passariam blocos naquele dia. Sábado que vem será pleno Carnaval. Alguém mais virá maquiada ou maquiado, alguém com fantasia e alguma história de um carnaval passado.  Acho que a camiseta com motivos indianos da Loura Alta não pode ser considerada uma fantasia. É a primeira vez que a vejo. Abaixo dos espelhinhos que brilham no corpo e ao redor do elefante, há uma frase que não consigo ler.

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