Lugares para chorar em São Paulo

Ônibus Terminal Capelinha 

Acorde as quatro, tire a marmita da geladeira, engula um café e saia de casa às cinco. Bote tudo na mochila, junto com uma mágoa de médio porte do dia anterior relacionada à sua rotina. Exemplos e recomendações: humilhação no trabalho, pequena discussão com o parceiro, salto apertando o pé o dia inteiro, conta de luz alta demais num mês já apertado. Pegue o metrô na estação que for mais conveniente e faça o que for preciso para chegar até lá – lotação, ônibus, trem, caminhada. Vá até a estação Ana Rosa e saia em direção ao terminal de ônibus, são dois lances pequenos de escada à direita da catraca que dão direto na avenida. Ande pelo corredor de quiosques de comida e pare no sétimo, que vende dez pães de queijos por 2 reais. Não compre, resista – a comida atrapalha o choro e o choro atrapalha a comida. Fique na fila do 695V-10 (Ana Rosa – Terminal Capelinha). Não olhe o celular, resista – a distração atrapalha o choro e o choro atrapalha a distração. A essa altura, a mágoa já deve estar começando a pesar na mochila. Às seis da manhã, o sol deixa a avenida rosada, dá um tom de filme antigo pros balcões dos bares já abertos servindo café. Em pouco tempo vai estacionar um ônibus sanfonado, pintado de vinho e branco, imenso, com freios tão barulhentos que pararão também seus pensamentos. Não entre se não houver lugar pra sentar – não demora para vir o próximo e chorar sentado é bem melhor. Às seis e meia, o sol começa a sair de trás dos prédios mais baixos da avenida e bate no seu rosto já quente, algum malandro passa rápido, trombando em você, e fura fila. A mágoa quase pula pra fora da mochila. Mesmo assim, você consegue um lugar sentado. O melhor lugar pra chorar: a janela que fica logo atrás dos bancos mais altos. Quando chegar lá, você vai saber. Do lado, senta uma tiazinha que logo começará a ver vídeos de gatinho e piadas sobre a vida de avó no celular. O ônibus chia alto, começa a tremer, desliza pela Vergueiro. Você pega a mágoa, agora já maior, aninha no colo e o choro vem. Não dá nem tempo de sair da Vila Mariana. 

No carro

Me desculpem os cientistas do clima, mas não tem lugar melhor pra chorar do que o próprio banco do motorista, sozinho, ouvindo sua própria playlist de choro. Vale a pena aprender a dirigir só para chorar esse choro, o choro carrocrata. O banco de trás do Uber é bom, mas limita muito sua performance. O carro é a sua propriedade privada possível, ali você é um latifundiário da terra arrasada dos seus sentimentos. O paulistano médio passa 2h30 no trânsito por dia. Use esse tempo com sabedoria e aproveite para mandar bala naqueles choros mais entalados, que há anos esperam para brotar. O choro que faz você ganir como um cachorro machucado, babar, bater com as mãos no volante e perguntar em voz alta “por quê???” Melhor ainda se tiver um porquê grave e urgente. Corações partidos, dívidas enormes, lutos mal elaborados. Na subsequência de um desses acontecimentos, arrume uma desculpa para dirigir para bem longe e mergulhe fundo nas vias mais movimentadas. Minha recomendação pessoal é chorar na hora do rush na Avenida Nove de Julho, que lembra um rio e foi construída em cima de um, o Saracura. A avenida corre por alguns quilômetros do Itaim Bibi ao Centro, num interminável fluxo de veículos, espremida entre prédios chiques dos Jardins, os acabados da República, calçadas escuras, ocupações, viadutos e grandes árvores. Se estiver chovendo, então, melhor ainda. Vá emendando um choro no outro, os velhos e os novos, suas lágrimas e sua baba virando parte da chuva, escorrendo do rosto como o rio sonha com o dia em que vai escorrer pelos vincos do asfalto. 

Rodoviária da Barra Funda

Aeroportos são um clichê do choro, mas rodoviárias são muito melhores. Ali (quase) não há limite de bagagem, não está tudo tomado por malas retangulares rígidas, impessoais, assépticas. É um desfile de histórias, de caixas de papelão mal fechadas, grandes sacolas com quinquilharias da 25 de Março ou roupas do Brás, malas de alça – sim, elas ainda existem –, crianças de pijama, travesseiros, sacos de pano com comida, velhinhos enrugados de chapéu e botina, bichos em caixas de transporte, casais indo tentar a vida em outro lugar, gente voltando derrotada pra casa. A Barra Funda é melhor que as demais rodoviárias da cidade como lugar para chorar. A do Jabaquara é pequena, aberta, recebe luz e ar demais, não concentra as lembranças e os cheiros de salgadinho, marmita azeda, viajantes há dias sem banho, fuligem, desinfetante. A do Tietê é grande e organizada, muito separada do metrô. Na Barra Funda há uma bagunça sui generis, uma energia pesada, os usuários do metrô se confundem com os passageiros, uma multidão se desloca para lá e para cá. Lugar bom para se sentir invisível e chorar as dores dos outros. Lugar para chorar em etapas. Como? Eu te digo. Primeiro, ande de uma ponta a outra do terminal, em ritmo apropriado. Devagar para dar tempo do choro vir, mas não o suficiente para ser atropelado. Quando as lágrimas começarem a escorrer, desça por uma das enormes rampas de acesso e olhe demorado para quem está sentado ali: pessoas com partes do corpo faltando, senhoras com os tornozelos inchados, mães oferecendo panos de prato com seus bebês pendurados no colo, africanos vendendo meias e calcinhas. Deixe mais lágrimas escorrerem, mas se controle. Suba de volta para a estação e vá ao seu destino final: as fileiras de cadeiras verdes de plástico que ficam em frente aos guichês de compra de passagem. Onde as pessoas esperam a hora do embarque. Ali, abaixe a cabeça, cubra-a com os braços e chore como um Zé Ninguém, como um forasteiro, como alguém que vai abandonar a família, fugir depois de matar alguém. Chore mais por nada disso ser verdade. Seque o rosto e faça o caminho de volta pra casa. 

Na janela de casa

Um verdadeiro paulistano não tem rompantes de choro na rua, ele dá choradinhas em público, mas está com vergonha ou com pressa, não pode simplesmente encostar num lugar e chorar, o corpo ocupado em andar rápido, de modo que só sobra energia para produzir lágrimas que escorrem discretas e logo evaporam com o vento batendo na cara. Sem um soluço, um gemido, uma mão no rosto. É em casa que o paulistano tira sua máscara, no apartamento de chão de taco ou no barraco de dois cômodos, no sobrado antigo ou no quartinho do cortiço. Ali, encosta a cabeça no vidro da janela e se solta. Chora tanto que vai escorrendo pela parede, abraça os joelhos, molha a roupa. Chora tão produtivo que até parece um job

Na barraquinha de yakisoba 

Choro para maconheiros experientes. Na Rua Albuquerque Lins, perto do metrô Marechal Deodoro, ao lado do mercadinho dos chineses, um japonês careca vende yakisoba e guioza, ocupando um box com menos de 2m². Ele é alto, corpulento, usa sempre regata branca e um grande avental, tem a cabeça lustrosa, as sobrancelhas grossas e uma feição suave, um zen indecifrável. Alheio à movimentação intensa de moradores de rua, gente voltando do trabalho, gente indo pro trabalho, jovens saindo da escola de teatro, os bares começando a encher, ele trabalha com movimentos lentos e diligência, ao som de uma rádio japonesa que toca músicas pop que parecem datadas, apresentadas por um locutor que também fala em japonês. Suas fritadeiras são cobertas por uma camada espessa de sebo negro e antigo, carbonizado. As panelas amassadas, ele as opera como um pintor. Depois de uma breve inspecionada no local, seus olhos já devem começar a umidecer. Ele passa o guioza de uma fritadeira para a outra, a gordura ancestral chia de leve, quase se perde no barulho da rua, tem que estar atento pra ouvir. Vira um a um a cada minuto com uma pinça até que ganhem uma casquinha crocante, levemente amarronzada. Lágrimas discretas começam a despontar e as pessoas que esperam ao lado te espiam de rabo de olho como se você fosse louco – e nesse caso, melhor não fazer contato visual, um aprendizado básico da cidade. Mas o japonês não, ele te encara de volta, acessa o fundo da sua alma e sorri. Ele entende. Você sorri de volta e volta com o isopor fumegando pra casa.

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