O vidrinho / Nunca vi a lava

@brontops

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Para quem não se lembra:

Julieta, proibida de encontrar-se com Romeu, obrigada a se casar com Párias. Em pânico, busca o auxílio de Frei Lourenço. Este angustia-se com a jovem e lhe oferece uma solução que vai provocar a tragédia: um vidrinho. Dentro, uma substância que dará a Julieta o estado e a aparência da morte. Ao mesmo tempo, tentará avisar a Romeu para que possam se encontrar.

Julieta, no desespero e na paixão, aceita a ideia de Frei Lourenço imediatamente. Sem nunca se perguntar o que um homem fazia com tal substância.

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Eu era um estorninho a levar vida de estorninho até um dia um falcão me atacar. Veio do céu contra o sol e por isso não o vi. Me atingiu com força, suas garras/navalhas penetraram na minha carne tênue, quebrando ossos e arrancando sangue e penas. Tentou me prender e me carregar até um galho ou um telhado, onde poderia me rasgar e devorar. Mas algo deu errado.

Talvez fosse um falcão adestrado, falcão da nobreza aprendendo a caçar; ou uma rapina jovem demais, sem a força necessária para a pegada. Por qualquer motivo, caí do céu e não morri. O mundo cresceu rápido ao meu redor e desabei entre as construções dos humanos. O falcão me perdeu na queda e não quis capturar o que restou de mim no meio do ninho dos humanos. Fiquei sobre as pedras de um pátio interno. Já estava incapaz de voar. Um aleijado.

Naquela época, eu ainda era um pássaro envolvido com as ideias e maneiras dos pássaros: comer moscas, sementes, fugir, trepar, se esconder, cagar, brincar e voar. Ver o dia e a noite e as estações. Então naquele momento perdido no chão, eu não sabia, mas estava dentro da propriedade da igreja; um pátio no claustro próximo ao Duomo de Verona. Ali, ferido, deixei-me recolher pelo homem chamado Lorenzo.

Não teria como o reconhecer como um homem da fé. Os estranhos se parecem entre si. Só percebi como era diferente dos demais humanos com o passar do tempo, assim como um olho destreinado não saberia dizer se sou um passarinho diferente dos demais. Percebi que Frei Lorenzo estava quase sempre com seu hábito de tecido grosso.

Os humanos são feito macacos. Gritam, falam, gesticulam, brigam. Mas a fala mansa e os gestos pausados desses homens – ditos de Deus – eram mais próprios de caramujos, cágados e serpentes. Sendo assim, acreditei que Lorenzo me recolhera numa gaiola para me engordar e comer. Como fazem com as galinhas e os porcos. Somente com o passar do tempo, notei que aquele homem se apiedara de mim, com essa aberração anti natural que chamam de misericórdia.

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A vida na gaiola era fácil. Lorenzo me alimentava com migalhas e miolo de pão trazido do refeitório e das ruas. Às vezes, quando o dia estava bonito, ele me deixava na janela de onde eu podia observar as ruas e vielas de Verona, os gritos do mercado e os chamados das prostitutas, as brigas das tavernas e bater dos cascos dos cavalos. Também me deixava ver meus irmãos: outros pássaros, voando nos caminhos do céu, indiferentes a minha presença.

Noutras vezes ele me deixava em seu dormitório pessoal. Frei Lorenzo ficava boa parte do dia lendo e escrevendo cartas e atendendo jovens noviços que vinham até ele buscar conhecimento ou palavras de sabedoria quando a fé em Deus esmorecia. Nesses momentos, ele era bastante receptivo e carinhoso e adquiria um vigor inesperado em um corpo daquela idade. Contava de sua juventude atribulada, de sua infância na Espanha e sua carreira como “capelão” das caravelas que rumavam às Índias. Nesse momento, ele abria um baú de onde tirava uma espada de lâmina larga e cocares feito de penas tão coloridas que nunca pensei ser possível um parente ave adquirir tais qualidades florais. Depois sem explicar os motivos disse que foi obrigado pela Igreja a sair das colônias e ele, que tinha tanto trabalho a fazer com os gentios, ficou enfurecido. Em vez de voltar para Espanha e atender as ordens de seus superiores, embarcou em outro navio e foi parar ali dentre os venezianos e depois veroneses.

Foi nessas conversas que aprendi a entender a fala da gente humana. Tudo para passar o tédio na vida fácil da gaiola.

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Era o tempo de eu ficar na janela, lembro-me bem. Devia ser primavera ou verão. Pois os jovens corriam felizes pelas vielas, os pequenos correndo e brincando e os maiores sentindo o chamado dos desejos. Via os pássaros cruzando sobre os telhados, os cães cercando as fêmeas, os gatos gemendo durante a noite. Os humanos a tudo complicam e a isso não é diferente. Chamam de amor, quando no fundo é só o tesão. Para mim, definitivamente fora do jogo e das danças, assistia àquilo transcorrer com saudade e inveja.

Dentre os jovens que iam se confessar com Frei Lorenzo, havia um chamado Romeu. Por algum motivo, Frei Lorenzo atendia-lhe com mais cuidado que outros. Talvez fosse a maneira de ser do rapaz, destemida e ousada. Dentro do seu aposento, diante de outros irmãos de fé, Lorenzo admitia que isso era uma necessidade. Romeu pertencia a uma das famílias mais importantes de Verona e não convinha fazer inimizade com essa gente.

Romeu tinha a presunção dos felinos, a segurança dos carnívoros, coisa de ser filho de quem é, pouco importa se o seu caráter era bom ou não. É um poder que se acostuma; é como o voo dos pássaros. Você só se torna consciente de quanto é excepcional quando não se pode mais fazer. Eu não sei se gostava dele. Enquanto aguardava a chegada do Frei Lorenzo para se confessar, Romeu brincava de me assustar e de meter os dedos entre as barras da gaiola. Parecia que Romeu tinha predileção por quem estava preso.

Por exemplo, falava sempre de uma tal Rosalina. Era uma garota pela qual o rapaz se dizia apaixonado. Queria encontrar-se com a dita, mas ela nunca saía de casa. O Frei sorria ao ouvir Romeu declamar poesias bestas em honra da moça, mas em seguida tentava demovê-lo de sua obsessão. Eu cá sabia muito bem que aquilo não daria em nada. Pois Rosalina também se confessava ali com Lourenço, famoso por sua habilidade de conversar com os jovens, de igual para igual, sem a soberba que a idade costuma estufar os humanos. E ali, naquele quarto que o Frei usava como confessionário, ouvira que Rosalina gostava mesmo é de rachas e que permaneceria casta para evitar os meninos piolhentos. Talvez até num convento, queira Deus.

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Mas Romeu não manteve sua paixão por Rosalina. Um fogo que se apagou. Dias depois ressurgiu para falar com seu confessor e amigo. Disse que fora a um baile de máscaras onde conhecera uma nova jovem chamada Julieta, da família dos Capuletos, e que falaram e se beijaram. Que a paixão o avassalou, por isso, não se conteve e invadiu o jardim da casa da moça para então beijá-la novamente. Insistiu que precisavam ser casados e que somente ele poderia auxiliá-los.

Frei Lourenzo sacudiu a cabeça negativamente. Mas Romeu convenceu o velho: se um Montecchio casasse com uma Capuleto, a riqueza e o poder das duas famílias se aliariam e seriam capazes de fazer frente aos Della Scalla, essa sim a família mais poderosa de Verona.

-Enquanto duelamos feito bandoleiros pelas ruas, os Della Scalla mandam e desmandam. Rosalina não quis me conhecer, mas Julieta é diferente, está desesperada por conhecer a vida e sair daquela casa de gente velha.

Lorenzo ponderou, como um feirante coloca pesos num prato da balança. Se essa aliança surgisse, ele – como confessor das duas famílias inimigas – se tornaria uma pessoa mais poderosa do que já era. Concordou em passar uma mensagem para Julieta e casá-los secretamente os dois ali mesmo, onde eu podia observar tudo, os pequenos passarinhos sacudindo asas, imaginando que basta querer voar para poder sair do ninho.

Pois nem bem Romeu saiu casado dali se envolveu numa briga na qual nunca deveria ter se metido.

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Nós, pássaros, não pensamos em linha reta como fazem os macacos e as corujas, que tem os olhos na frente da cara. O que está atrás não existe, vocês dão um nome, a nuca, mas durante a maior parte do tempo, o que está atrás de suas cabeças não existe.

Mas nós, os bichos que somos presas, quase todo pássaro (exceto as corujas devora-ratos), temos os olhos ao lado da cabeça. Assim, podemos ver o que está diante de nós e atrás de nós. Por isso é tão difícil um falcão nos pegar: ou ele precisa ser uma flecha ou estar bem oculto, usando o sol de aliado.

Digo isso, porque irei para trás na história. Uns dias antes dessa confusão toda de Romeu e Julieta acontecer. Ver o que está atrás tanto com o que está a frente. Quando se fala, não tem jeito. Há uma ordem nas notas e na pauta musical. Mas no mundo não é bem assim. Tudo acontece junto, passado e futuro. O presente é somente outra gaiola onde estamos presos.

Devo contar sobre a visita do amigo de Frei Lorenzo; aconteceu uns dias antes, enquanto Romeu ainda era apaixonado por Rosalina. Era um outro homem de igreja, Irmão Antonio.

Não era um homem de Verona. Veio de longe, das terras do Vesúvio. Tinha o aspecto suado e oleoso feito um resto de peixe que mesmo os gatos sarnentos se recusam a devorar. As sobrancelhas eram espessas e pretas como a unha que leva uma martelada.

Antonio chamava Lorenzo de Lorencio. Chegara há alguns meses ao Reino de Nápoles. Pelos nomes e lugares, não foi difícil concluir que se conheciam dos tempos que Lorenzo passou nas Índias. Trouxe para o amigo uma garrafa de pulque e umas sementes de tomate (“Para plantarmos e ficarmos ricos”). Beberam e trocaram lembranças e falaram sobre coisas que só pude ouvir porque não havia mais ninguém ali.

Antonio contou das situações que viveram enquanto abençoavam soldados e erguiam igrejas nas terras pagãs. De quando compilavam os idiomas dos nativos e os transcreviam para os padres filhos da nobreza publicarem seus próprios dicionários, valorizadíssimos entre os europeus. De quando viam os soldados matarem e estuprarem e embebedarem os pobres da terra, como se fossem uma espécie de bicho. E que quando reclamaram disso, foram enviados para a floresta, catequizar os selvagens.

Nas matas morriam muitos irmãos de fé, é verdade.

Mas principalmente viam morrer as próprias pessoas da terra, tombando um após o outro, como se corresse um mal invisível entre eles.  Talvez os deuses falsos fugindo do verdadeiro, levassem consigo o maior número de seus fiéis. Os missionários iam como batedores da fé, mas que aquela maldição levando homens, mulheres e crianças, sem distinguir ninguém, parecia mais um lembrete do poder do diabo do que de Deus.

E eu ouvia ali de minha gaiola aqueles dois homens de fé confessando um para o outro seu fraquejar e fragilidade para então revelarem que diante daquela dança da morte nada mais fazia sentido e que eles também se entregavam e se deixavam levar. Pela ganância, pela loucura, pelas paixões. Até que Antonio, vendo Lorencio já um tanto alto pelo pulque, pergunta:

̶  Você ainda tem?

– Tenho o quê?

– O vidrinho.

A palavra fez o Frei Lourenço se aprumar: reposicionou os óculos sobre o nariz e olhou bem para o amigo.

-Havia mais que o suficiente naquela garrafa. Acabou tudo?

Frei Antonio parecia envergonhado, mas não muito.

– Você não lembra como era infeliz a vida nas Índias?

– Lembro bem, mas isso não se usa desse jeito. Eu nem trouxe para cá.

-Eu sei que você trouxe, foi assim que fugiu do Cardeal.

-De onde veio este disparate?

-Não é óbvio? Você veio para ser julgado pela igreja, acompanhado de dois agentes do Cardeal. Mas eles foram encontrados mortos pela tripulação e você já não estava no navio. Não se falava de outra coisa em Santo Domingo.

-Eles adoeceram e morreram, sinal de Deus de minha inocência, bem sabe.

-Inocência? Não se lembra como usávamos e abusávamos da infusão daquele pajé?

-Eu não fiz nada, quem fazia era você.

-Fez também, fizemos dormir a filha do cacique e assim que o fidalgo pode se encontrar com ela. Ele foi o primeiro, eu o segundo e tu o terceiro.

-Não fale blasfêmias, eu a defendi de vocês.

-Você foi o terceiro e o cardeal ficou sabendo de você. Você levou a garrafada da infusão do pajé e trouxe para cá fazer dormir essas crianças que frequentam seu quarto.

Então os dois se atracaram e se contundiram e se empurraram e as prateleiras sacudiram derrubando volumes e eu, como estorninho, saltitava de um poleiro para outro em minha gaiola, esperando o momento em que acabariam me atingindo. Enquanto se confrontavam, fizeram barulho e atraíram a atenção de outros membros da igreja que abriram a porta do recinto e os separaram.

Quando questionaram o motivo da briga, mentiram. Disseram que era culpa do pulque. Irmão Antonio foi levado a um dormitório de hóspedes e Frei Lorenzo ficou no recinto, consternado e a cabeça obviamente agitada.

Eu sou um pássaro, não sei se esta coisa que chamam de Deus existe. Para mim, é muito estranho pensar nele como uma pessoa, até porque o homem é um bicho como qualquer outro: nasce, trepa, vive, morre. Se houvesse um Deus, teria que ser feito ave, uma ave que não pousa os pés nunca, sempre de longe, observando, sem jamais interferir, talvez cagando vez ou outra na cabeça de quem está para baixo. Talvez por isso o Cristo esteja assim com os braços, como quem sabe voar.

Pois eu vira Lorenzo usar do conteúdo de um vidrinho, um vidrinho como o desejado pelo Irmão Antonio. Não com Romeu, mas com outros jovens de famílias menos importantes que vinham se confessar com ele. As crianças dormiam enquanto falavam todo tipo de pecado que os atormentava. Pecados grandes ou pequenos, porque a idade não faz par com inocência ou crueldade. Frei Lorenzo não se importava, trancava a porta do quarto e a mim só restava olhar o que acontecia nas ruas de Verona, distrair-me enquanto o outro se entretinha.

Depois da briga com o velho companheiro, Lorenzo foi ao genuflexório que mantinha no seu quarto. Ele ajoelhou e rezou, bem ali, diante da janela onde eu estava e pude ouvir tudo que dizia. Que se envergonhava do que havia feito. Que se arrependia. Que aquele canalha embriagado do Antonio acabaria falando demais. Que ele se culpava e se arrependia. Que ele não usaria mais do vidrinho para fazer mal a mais ninguém.

E que se houvesse a oportunidade de fazer o bem, ele faria.

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Por isso, posso dizer: quando Frei Lorenzo ofereceu o vidrinho para Julieta, acreditava estar fazendo o certo. Montecchios e Capuletos finalmente poderiam ficar juntos e um dia, talvez, voltariam a Verona, quando tudo já houvesse passado e a lembrança dos mortos houvesse se perdido entre tantas coisas e detalhes que se perdem e nem notamos.

Soube-se que a tragédia amenizou o ódio entre as duas famílias. Mas por aquele verão apenas. Passados um ou dois anos, os garotos das duas famílias voltaram a se provocar e a se duelar. Mas se não fossem entre eles, seriam entre os Scalla ou os Médici, pois esta é a natureza dos bichos. Quando não há do que fugir, há que se lutar. Esses meninos ricos não tem o que temer, então precisam se matar.

Frei Lorenzo não demorou para morrer. Talvez de vergonha ou pela tristeza. Irmão Antonio veio algumas semanas após o enterro. Entrou escondido no quarto e vasculhou por trás dos livros e baús. Como não localizou o vidrinho, decidiu me levar para o Reino de Nápoles. Ninguém tentou impedir, acreditavam que ter mascotes era costume de quem viveu nas Índias.

Lá fiquei também numa janela, a observar o mar e os ratos revirando o lixo das calçadas, a esperar o despertar do vulcão. Nunca vi a lava. Mas dizem que quando a terra revela seus segredos é sempre assim: bonito e terrível.

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