5)
No peito
Este parece ser um bom recanto para abrigar suas espinhas quando você tem 14 anos. As borbulhas – inchadas, com pus encapsulado ou explodindo de lava amarelada – se espalham pelo tórax, contornam os mamilos, descem para a barriga e para as costas, mas nunca escapam do terreno demarcado pela camiseta. Estão, portanto, invisíveis para o resto do mundo, pois quando se é um magrelo de 14 anos com um constelação de perebas no peito, você nunca tira a camiseta.
Parece ser um bom lugar para acomodar suas espinhas, mas não quando você é o goleiro do time de futsal do primeiro colegial. Ainda mais quando se está nos anos 90, e o futsal ainda era futebol de salão, e a bola de futsal, opa, de futebol de salão era um pouco menor e muito mais dura e assassina que a de hoje. A cada bolada recebida, um enorme mapa roxo aparecia na pele. E se você era goleiro, recebia bolada o tempo todo.
Com sorte, você conseguia (se) defender com os braços e canelas. Mas às vezes a bola sobrava limpinha, sem marcação, na entrada da área, de frente para o gol, para o Marmota chutar. E o Marmota era repetente, tinha quase 17 anos e uns 20 centímetros a mais que todo mundo. Era quieto, cabelo todo bagunçado, tratava todo mundo com respeito, até com doçura. Ele nunca reclamou, por exemplo, do apelido “Marmota”, recebido no primeiro dia de aula por causa da arcada dentária superior que se projetava quase inteira pra fora da boca. Nem jogava muito bem. Mas se a bola sobrava limpinha pra ele, aí era foda.
A bola se transformava em meteoro e entrava em rota de colisão com o corpo celeste mais próximo – meu peito. Depois do impacto, ficava sem ar por alguns instantes, mas esse não era o maior problema. Pior eram as espinhas esmagadas, afundadas, explodidas pela finalização. Nessa hora, você se sente alvejado por dezenas de fragmentos de uma granada soviética, mas eu nem podia ficar agonizando muito na trincheira, porque o jogo não parava, e o Marmota estava desmarcado de novo.
Uma solução possível seria sair do gol e jogar na linha, mas por mais que eu amasse futebol, minhas pernas não acompanhavam esse amor. Para passar vergonha na frente da classe toda, ainda mais quando a Mirella passou a se interessar por futebol e a assistir a todos os jogos do nosso time usando aquela camisa do Raí, era melhor ficar no gol, mesmo.
Enfim, caso tenha 14 anos e espinhas no peito, evite ser goleiro, em especial nos anos 90.
***
4)
No nariz
Uma espinha enorme bem na ponta do nariz, o tempo todo no seu campo de visão, como uma mira sempre apontada para o alvo, no caso as meninas que estão olhando de volta e achando você muito nojento: eis um superpoder da vergonha adolescente universal.
E como um Super Trunfo da desgraça, ela não pode aparecer em qualquer dia. Não. Tem que ser numa ocasião especial: no dia em que você vai fazer trabalho na casa da colega de classe e é o único garoto no grupo; no dia da foto da formatura; ou no dia da formatura, mesmo.
Obviamente que quanto maior o nariz, maior vai será espinha em cima dele e maior será a vontade de ficar em casa o dia todo. Na cama, se possível, jogando Master System sozinho e se alimentando de Nescau e Bono de doce de leite. Meu nariz sempre foi muito maior do que eu gostaria. E quando o Everest das espinhas brotou em cima dele, ligeiramente tombado para a narina direita, eu não poderia ficar em casa.
Era sábado. Tinha prometido pra minha mãe levar o aspirador de pó pra consertar na loja do seu Sérgio. Que era pai da Mirella. Que aos sábados trabalhava com o pai. Sem chance de encostar a barriga naquele balcão com um alienígena abraçado ao meu nariz. Não com a Mirella, de olhinhos puxados e sempre sorrindo, do outro lado. Então corri para fazer o que todo portador de acne severa é tentado a praticar algumas vezes por dia: espremer a espinha.
É uma péssima, péssima ideia. A cratera resultante muitas vezes é mais espalhafatosa do que a saliência anterior e costuma deixar uma marca pra sempre. Porém, entendo que o ímpeto de estrangular aquela demônia é totalmente compreensível. Ainda mais quando ela parece uma montanha pulsante de tão vermelha e ainda tem o pico nevado de secreção purulenta. Parece que nada pode ser pior do que isso.
Foi o que eu achei naquele dia. E espremi.
Quando minha mãe entrou no quarto para gritar “por que você ainda não foi levar o aspirador?”, viu um rosto em ruínas, inchado, infeccionado, meio sangrando, derrotado. Em vez de gritar, falou: “Ah, deixa que eu vou, vai.”
Mantenha suas mãos longe das espinhas no nariz, meus amigo.
***
3)
Dentro do nariz
Uma espinha interna no nariz é infinitamente mais dolorosa do que uma espinha do lado de fora. A pontada irradia pelo crânio, como se o King Kong, em tamanho real, morasse em sua fossa nasal e desse um soco de dentro para fora da sua cabeça.
Mas ninguém está vendo a espinha, então ok.
***
2)
No rosto inteiro, de uma orelha à outra, alastrando-se pela testa, descendo pelo papo e contornando o pescoço até a nuca
Eu sei, parece um caso extremo. Espero que não seja o seu, mas já foi o meu, mais ou menos entre o final do segundo colegial e começo do terceiro. Naquela época, eu evitava todos os espelhos do mundo. E quando digo espelho, entenda qualquer coisa levemente reflexiva, incluindo TVs desligadas, vidros de carro, vitrines, aqueles botões largos de descarga. Não era intencional, mas algo no cérebro achava uma boa me proteger daquela visão assustadora e empurrar minha cabeça para o outro lado.
Era começo de dezembro, as provas finais já tinham passado e como quase ninguém ficava em recuperação, a escola estava vazia. Eu e minha cordilheira facial nos trancamos em casa. Mas faltava um último compromisso oficial no ano: o aniversário do André, dali a alguns dias. Eu não queria ir, mas o cara era meu melhor amigo. Ele me ligou e começou mal, dizendo que todo mundo estaria lá. Aí que eu não vou mesmo, cara, eu pensei. “Talvez eu vá pra praia”, eu disse. O André sabia que minha família não tinha casa na praia, e que era um sacrifício para o meu pai descolar tempo e dinheiro para uma semaninha de férias pra gente viajar. Não colou. Aí ele falou: “A Mirella diz que vem”.
Tive que encarar o espelho. Lavei bastante o rosto com um sabonete muito fedido, mas que diminuía a oleosidade da pele. Depois, passei um algodão ensopado de um líquido cor de rosa à base de álcool que fazia cada espinha arder como se tivesse sido incinerada. Uns 400 focos de incêndio de uma ponta à outra da cara. Ainda bem que muitas estavam no couro cabeludo, escondidas pelo corte que eu deixava na época, compridinho, meio McGyver, meio Mocotó da Malhação. Algumas dessas bolhas na cabeça nem eram espinhas, eram pelos encravados, mas nem adiantava explicar a diferença, a aparência e repugnância eram as mesmas.
Peguei uma roupa nova para pôr. Anos 90, você lembra. A moda eram as camisetas de surfe, mesmo para aqueles que, como eu, estavam a centenas de quilômetros da praia e nunca haviam subido em uma prancha. Tinha ganho da minha tia uma camiseta de surfe branca. Só que quem tem muitas espinhas pelo corpo sabe: roupa branca sobre espinhas vira roupa branca com muitos pontinhos vermelhos (e alguns amarelos, eca.) Troquei por uma outra camiseta de banda, preta. Melhor, ainda posaria de roqueiro.
Não foi fácil chegar na casa do meu melhor amigo. Demorei pra sair, demorei para ter coragem de apertar a campainha. Mas quando entrei, foi muito legal. Realmente estava todo mundo lá, conversei com uma galera. Até o Marmota foi. A mãe do André fez uns lanches animais. Ela me adorava, elogiou minha camiseta. E a Mirella estava lá. Os olhinhos, o sorriso, o cabelo preto muito liso, caramba, nunca a tinha visto de minissaia. Ela tinha crescido muito desde o começo do colegial. Estávamos na mesma roda, fiz algumas piadas, e ela e todo mundo riu. Esqueci um pouco do peso que carregava sobre o pescoço. A música começou a tocar mais alto. A Mirella chegou perto de mim e me chamou pra conversar lá fora.
Ir até aquele quintal foi uma sensação tão boa que fui em câmera lenta, prolongando cada segundo. Lá fora, ouvimos o som da festa abafado. “Posso te perguntar uma coisa?”, ela disse. Eu só balancei a cabeça. “Porque suas espinhas pioraram tanto?” Hã?
Resumindo, ela tinha uma tia dermatologista, perguntou se poderia me passar o contato, mas não queria falar isso na frente de todo mundo, para não me deixar sem graça. Tudo isso com muita delicadeza, sem parar de sorrir um instante. Eu também sorri, mas sem jeito. Falei para ela depois mandar o telefone da tia, disse que precisava ir no banheiro e fui embora mais cedo. O pessoal disse que naquela noite ela ficou com o André.
E depois das férias ela mudou de escola.
1)
Na bunda
Como não existe a menor chance de nessa época da vida alguém ver a sua bunda (tirando aquela fase chata no fim da oitava série, quando a galera começou a abaixar as calças dos distraídos no recreio), ok.
